Como as competições de desempenho físico podem incentivar transtornos alimentares

Competições voltadas ao desempenho físico podem estimular padrões estéticos e comportamentos de risco relacionados à imagem corporal.

Por
0 5 Min
As plataformas sociais de desafios fitness, como o GymRats, têm se popularizado cada vez mais. A ideia parece boa: transformar a rotina de exercícios em um desafio coletivo, motivando a consistência nos treinos. Entretanto, ao mesmo tempo em que incentivam a atividade física, os aplicativos também podem estimular padrões estéticos e comportamentos de risco relacionados à alimentação e à imagem corporal. Para Paula Alves, nutricionista clínica e funcional, em um cenário em que essas competições ganham destaque, a busca por um corpo ideal e a pressão por desempenho físico são intensificadas. “Esses ambientes podem impactar profundamente a relação de uma pessoa com a comida e a imagem corporal. Essa dinâmica vai muito além do prato, tocando em aspectos emocionais e psicológicos complexos e, por vezes, perigosos”, afirma.   Comportamentos de risco e sinais de alerta Em ambientes de forte pressão estética e por desempenho, segundo ela, frequentemente surgem comportamentos alimentares de risco. “Isso inclui a restrição alimentar excessiva, em que alimentos são categorizados como ‘bons’ ou ‘ruins’, gerando culpa e ansiedade. Pode haver também o comer emocional, em que a comida é usada para lidar com o estresse ou a frustração do não atingimento de metas.” Outros sinais são a ortorexia (obsessão por comer de forma “saudável”), a vigorexia (obsessão por um corpo musculoso) e a compulsão alimentar seguida de compensações, como o exercício físico exagerado ou o uso de laxantes.  Segundo Alves, esses comportamentos, se não identificados e tratados, podem evoluir para transtornos alimentares. Afinal, uma estratégia nutricional adequada não gera culpa ou ansiedade.  “Já uma relação pouco saudável com a comida é marcada pela rigidez, obsessão por regras, medo de alimentos, isolamento social e um foco excessivo no peso ou na imagem corporal, em detrimento da saúde e do prazer de comer”, comenta.  Dietas muito restritivas, de acordo com a nutricionista, podem levar a deficiências nutricionais, perda de massa muscular, desregulação hormonal, fadiga crônica e um metabolismo mais lento. Por isso, quem participa de desafios ou competições deve adotar uma abordagem de saúde em primeiro lugar, reconhecendo os riscos potenciais de uma busca desenfreada por resultados.  Veja também: Transtornos alimentares: como reconhecer os sinais   Saúde mental em risco Mentalmente, o impacto dessas competições, quando feitas de maneira descontrolada, é mais severo e pode resultar em aumento da ansiedade, irritabilidade, obsessão por comida, pensamentos intrusivos sobre alimentação e um risco elevado de desenvolver transtornos alimentares, como anorexia e bulimia.  “A pressão por desempenho e por atingir determinados padrões corporais pode gerar um desgaste psicológico significativo. Em alguns casos, a pessoa passa a associar seu valor pessoal exclusivamente aos resultados obtidos ou à aparência física, o que aumenta o risco de ansiedade, baixa autoestima, perfeccionismo excessivo e sentimentos de fracasso quando as metas não são alcançadas”, analisa Leticia de Oliveira, psicóloga comportamental.  Alguns sinais de alerta podem indicar que a preocupação com alimentação e aparência deixou de ser saudável, como: pensar constantemente em comida, peso ou aparência; sentir culpa, vergonha ou ansiedade após se alimentar; evitar eventos sociais por medo de sair da dieta; ter necessidade de controlar rigidamente calorias, horários ou tipos de alimentos; exercitar-se mesmo quando está lesionado, doente ou extremamente cansado; alterações importantes de humor relacionadas ao peso ou ao formato do corpo; insatisfação corporal persistente, mesmo diante de resultados considerados positivos por outras pessoas; episódios de compulsão alimentar ou comportamentos compensatórios, como jejuns prolongados ou exercícios excessivos. De acordo com Oliveira, o principal indicador é quando essas preocupações começam a interferir na qualidade de vida, nos relacionamentos, no bem-estar emocional ou na rotina da pessoa. Por isso, o ideal é incentivar a prática esportiva sem reforçar padrões corporais prejudiciais. Mas como fazer isso?   Abordagem sem foco em estética Segundo a psicóloga, uma abordagem mais saudável envolve deslocar o foco da estética para aspectos como saúde, prazer, desenvolvimento de habilidades e bem-estar. Algumas estratégias incluem: valorizar o desempenho, a técnica, a disciplina e a evolução individual, e não apenas a aparência física; reconhecer que corpos saudáveis podem ter formatos e características diferentes; promover educação nutricional baseada em saúde e desempenho, e não em restrição ou punição; incentivar metas realistas e individualizadas; combater comparações corporais e discursos que associem magreza ao sucesso; oferecer acompanhamento multidisciplinar, com profissionais de educação física, nutrição e psicologia; criar ambientes esportivos que acolham a diversidade corporal e priorizem a saúde integral do indivíduo. Do ponto de vista psicológico, o esporte tende a trazer mais benefícios quando é vivido como uma ferramenta de desenvolvimento físico, emocional e social, e não como uma exigência constante de adequação a um padrão corporal específico. Veja também: Transtornos alimentares: entenda como o padrão de beleza pode ser um fator de risco para anorexia e bulimiaThe post Como as competições de desempenho físico podem incentivar transtornos alimentares first appeared on Portal Drauzio Varella.

Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/saude-mental/como-as-competicoes-de-desempenho-fisico-podem-incentivar-transtornos-alimentares/