Autismo no Brasil: estudo revela baixo acesso a diagnóstico e terapias no país
Pesquisa com mais de 23 mil participantes aponta dependência da rede privada, carga terapêutica abaixo do ideal e desafios na inclusão
Crédito da imagem: www.medicinasa.com.br
O acesso ao diagnóstico e ao tratamento do transtorno do espectro autista (TEA) ainda é limitado no Brasil. É o que mostra o estudo Mapa Autismo Brasil (MAB), considerado o primeiro levantamento sociodemográfico nacional sobre pessoas autistas. A pesquisa evidencia desigualdades no acesso à saúde, baixa carga de terapias e dificuldades estruturais na inclusão educacional e profissional.
Principais pontos- Apenas 20,4% dos diagnósticos foram realizados pelo SUS
- Mais de 60% dependem de plano de saúde ou atendimento particular
- Só 15,5% realizam terapias pela rede pública
- A maioria recebe até 2 horas semanais de terapia, abaixo do recomendado
- Diagnóstico ainda ocorre tardiamente em parte dos casos
O estudo, conduzido pelo Instituto Autismos, reuniu mais de 23 mil entrevistas em todo o país e mostrou que o acesso ao diagnóstico ainda é desigual.
Embora cerca de 25% da população brasileira tenha plano de saúde, apenas 20,4% das pessoas autistas tiveram diagnóstico confirmado pelo Sistema Único de Saúde. A maior parte depende da rede privada ou de planos.
Quando o assunto é terapia, o cenário é ainda mais crítico:
- Apenas 15,5% utilizam o SUS
- Mais de 60% recorrem ao setor privado
Além disso, 56,5% dos entrevistados realizam no máximo duas horas semanais de terapia — um volume considerado insuficiente diante das recomendações internacionais.
Perfil do autista brasileiroA pesquisa também traça um panorama sociodemográfico:
- 65,3% são homens
- 72,1% têm até 17 anos
- 53,7% estão no nível 1 de suporte
- 12,6% estão no nível 3 (maior necessidade de apoio)
Entre as comorbidades mais comuns, destacam-se:
- TDAH (51,5%)
- Ansiedade (41,1%)
- Distúrbios do sono (27,9%)
- Depressão (17,5%)
Embora a maior parte dos diagnósticos aconteça até os 4 anos, a média geral é de 11 anos — indicando que muitos casos ainda são identificados tardiamente.
Outro dado relevante:
- 55,9% dos primeiros sinais são percebidos pela família
- Apenas 7,3% por médicos
- 9,4% por professores
O diagnóstico é feito principalmente por neurologistas ou neuropediatras (67%), seguido por psiquiatras (22,9%).
Terapias: acesso limitado e custo elevadoAs terapias mais comuns incluem:
- Psicoterapia (52,2%)
- Terapia ocupacional (39,4%)
- Fonoaudiologia (38,9%)
- Terapia ABA (29,8%)
Mesmo assim:
- 16,4% não realizam nenhuma terapia
- A maioria investe entre R$ 500 e R$ 3 mil por mês
- Parte significativa ultrapassa R$ 5 mil mensais
O acesso via SUS é mais restrito, especialmente em terapias como ABA, psicomotricidade e musicoterapia.
Impacto na educação e no trabalhoApesar de 83,7% frequentarem escola, quase 40% não recebem nenhum tipo de apoio educacional.
Entre adultos autistas:
- 29,9% estão desempregados ou sem renda
- Apenas uma parcela menor está inserida no mercado formal
O estudo aponta que a inclusão ainda é um desafio estrutural no país.
Impacto nos cuidadoresEntre os responsáveis:
- 96% são pais ou mães (92,4% mães)
- 30% estão desempregados ou sem renda
Segundo o estudo, a dedicação ao cuidado impacta diretamente a vida profissional e financeira das famílias.
ConclusãoO Mapa Autismo Brasil evidencia um cenário de desigualdade no acesso ao diagnóstico, tratamento e inclusão. Apesar dos avanços, o país ainda enfrenta desafios importantes para garantir atendimento adequado, especialmente na rede pública.
Os dados reforçam a necessidade de políticas públicas mais estruturadas, ampliação do acesso a especialistas e fortalecimento das estratégias de inclusão social.