O que significa morrer de aids? 

O HIV não mata diretamente. Entenda como o vírus enfraquece o sistema imunológico, por que ainda há mortes por aids e como evitá-las.

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Hoje, a infecção pelo HIV é considerada uma condição crônica controlável. Quando a pessoa segue corretamente o tratamento com antirretrovirais, consegue viver bem e tem uma expectativa de vida semelhante à de quem não tem o vírus. Ainda assim, as mortes por aids continuam acontecendo no Brasil. Segundo o último Boletim Epidemiológico sobre HIV e aids, divulgado pelo Ministério da Saúde no fim de 2025, 9.157 pessoas morreram em decorrência da doença em 2024. De acordo com especialistas, o principal fator por trás dessas mortes continua sendo o diagnóstico tardio. Muitas pessoas deixam de fazer o teste por medo do resultado ou por causa do estigma que ainda cerca o HIV. O abandono do tratamento também contribui para esse cenário. Em casos mais raros, pode haver resistência aos medicamentos.   Mas o que significa, exatamente, morrer de aids? O HIV não é a causa direta da morte. O vírus destrói, aos poucos, o sistema imunológico. Com isso, a pessoa fica vulnerável a infecções e outras doenças que normalmente conseguiria combater. A morte ocorre, portanto, por causa das chamadas doenças oportunistas, que se aproveitam da fragilidade do sistema imunológico. “No Brasil, a principal causa infecciosa de óbito em pacientes com a imunidade comprometida pelo HIV é a tuberculose. A neurotoxoplasmose (infecção causada pelo parasita Toxoplasma gondii) e a pneumonia, que a gente chama de pneumocistose, também são causas frequentes de internação em UTI”, explica Ana Rachel de Seni Rodrigues, infectologista e mestre em biotecnologia e microbiologia pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (Unesp).   Drauzio: Quais são as diferenças entre HIV e aids?   Como o HIV enfraquece o sistema imunológico O HIV tem como principal alvo os linfócitos T CD4+, células do sistema imunológico que reconhecem invasores, coordenam a resposta de defesa e ativam outras células para combater vírus, bactérias, fungos e parasitas. “Linfócito” é o nome da célula. Já o CD4 é uma proteína presente na superfície dela, que funciona como uma espécie de receptor. O HIV se liga a essa proteína para entrar na célula e iniciar a infecção. “À medida que a quantidade de linfócitos CD4 diminui, o organismo perde a capacidade de coordenar a resposta de defesa contra vírus, bactérias, fungos e parasitas. Sem tratamento, esse processo pode evoluir ao longo de anos até atingir um estágio de imunossupressão grave, caracterizado pela aids”, explica Daniel Pafilli Prestes, infectologista que atua no Hospital Sírio-Libanês e no Einstein Hospital Isarelista, em São Paulo (SP).    Quando a imunidade fica comprometida Em pessoas sem HIV, a contagem de linfócitos T CD4 costuma variar entre 800 e 1.200 células por milímetro cúbico (mm³) de sangue, segundo o Ministério da Saúde. Quando ocorre a infecção pelo HIV, esse número tende a diminuir progressivamente. Com o tratamento antirretroviral, porém, os níveis de CD4 voltam a aumentar. De acordo com Rodrigues, uma contagem acima de 350 células já representa um nível de imunidade considerado seguro para a maioria dos pacientes. “Quando essa contagem cai abaixo de 200, porém, cresce o risco de doenças graves e de morte. E se for abaixo de 50, o paciente vai entrar no estágio de vulnerabilidade extrema, em que é mais fácil desenvolver as doenças oportunistas e ter menor chance de resposta”, diz a infectologista. Além da contagem de CD4, os médicos também avaliam a carga viral, que indica a quantidade de HIV circulando no organismo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela pode ser classificada como não suprimida, quando está acima de 1.000 cópias por mililitro; suprimida, quando é detectável, mas igual ou inferior a 1.000 cópias/mL; e indetectável, quando o vírus não é detectado pelo teste utilizado. “A análise conjunta desses fatores (CD4 e carga viral) permite definir a gravidade do quadro e orientar o tratamento”, explica Prestes. Ele lista os principais sinais de comprometimento do sistema imunológico: perda de peso sem causa aparente; febre persistente; suor noturno intenso; diarreia prolongada; fadiga acentuada; tosse persistente; falta de ar; dificuldade para engolir; lesões na boca; alterações neurológicas (como dor de cabeça intensa, confusão mental e convulsões); presença de infecções graves ou recorrentes. Segundo os especialistas, no entanto, esse cenário não representa um atestado de morte. Mesmo pessoas com imunossupressão grave podem recuperar parte da imunidade ao iniciar o tratamento adequado e reduzir o risco de complicações.   Indetectável = intransmissível Pessoas que iniciam o tratamento podem ter uma vida normal. O principal objetivo da terapia é tornar a carga viral indetectável. Na prática, isso significa que o vírus continua presente no organismo, mas em uma quantidade tão baixa que os exames não conseguem detectá-lo. Quando isso acontece, a pessoa deixa de transmitir o HIV por via sexual — conceito conhecido como “indetectável = intransmissível” (I = I). “A pessoa que faz o tratamento e mantém a carga viral indetectável no sangue não transmite o vírus por via sexual, e isso muda tudo. Permite relacionamentos, planejar a maternidade e a paternidade sem transmissão para o bebê e viver sem culpa”, afirma Rodrigues. Ela também faz um alerta: fazer o teste de HIV de rotina precisa ser encarado com a mesma naturalidade com que medimos a pressão arterial ou fazemos exames para avaliar a glicemia e o colesterol. “Perder o medo de testar é o passo que falta para acabarmos com as mortes por aids.” Veja também: HIV cresce entre mulheres acima de 50 anosThe post O que significa morrer de aids?  first appeared on Portal Drauzio Varella.

Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/infectologia/o-que-significa-morrer-de-aids/