Por que mulheres dormem diferente dos homens?
Do ciclo menstrual à menopausa, alterações hormonais modificam o sono feminino e podem mascarar doenças que exigem investigação.
Dormir mal nem sempre é consequência de estresse, excesso de trabalho ou ansiedade. Para muitas mulheres, a dificuldade para dormir começa antes mesmo de esses fatores entrarem em cena. Ao longo da vida, alterações hormonais naturais modificam a forma como o cérebro regula o sono e explicam por que mulheres apresentam padrões, sintomas e até doenças do sono diferentes dos dos homens. O impacto dessas mudanças foi tema do painel “Sono das mulheres ao longo da vida”, apresentado pela médica Helena Hachul de Campos, livre-docente e chefe do Setor Sono na Mulher da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pesquisadora do Instituto do Sono e professora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, durante o Congress on Brain, Behavior and Emotions 2026, realizado em Porto Alegre (RS). De acordo com a especialista, compreender essas diferenças é essencial para evitar que sintomas sejam banalizados ou atribuídos apenas ao estilo de vida. A percepção apresentada no congresso se repete nos consultórios. Segundo Amanda Lino, ginecologista, a insônia persistente é um dos sintomas que as mulheres mais normalizam justamente por acreditarem que dormir mal faz parte das oscilações hormonais. “O sono da mulher realmente sofre influência dos hormônios ao longo da vida, mas isso não significa que toda alteração seja normal ou precise ser suportada”, afirma. O cérebro feminino responde aos hormônios Desde o ciclo menstrual até a menopausa, o cérebro passa por diferentes estímulos hormonais que interferem diretamente na arquitetura do sono. O estrogênio participa da regulação do humor e da temperatura corporal, enquanto a progesterona exerce efeito sedativo natural ao atuar sobre receptores ligados ao relaxamento. Já a melatonina, hormônio responsável por regular o ciclo sono-vigília, também sofre redução com o envelhecimento. Na prática, essas oscilações podem aumentar o tempo necessário para adormecer, provocar despertares durante a noite, reduzir a profundidade do sono e favorecer sintomas como fadiga, irritabilidade e dificuldade de concentração. Cada fase da vida muda a forma de dormir As alterações começam ainda durante o ciclo menstrual. Na fase lútea, que antecede a menstruação, é comum que a mulher apresente sono mais fragmentado, pior qualidade subjetiva do descanso e mais despertares noturnos. Mulheres com síndrome pré-menstrual também relatam maior frequência de insônia e sono não reparador. Durante a gravidez, fatores hormonais se somam às mudanças físicas do organismo. Náuseas, aumento da frequência urinária, refluxo, dores lombares e ansiedade tornam o sono progressivamente mais difícil, especialmente no terceiro trimestre. Dados apresentados durante o congresso mostram que quase metade das gestantes relatam má qualidade do sono, enquanto cerca de um quarto desenvolve insônia clínica. Depois do parto, a privação crônica de sono e a adaptação ao ritmo do bebê aumentam o risco de alterações de humor e de transtornos mentais, como a depressão pós-parto. Na menopausa, a redução do estrogênio, da progesterona e da melatonina favorece o surgimento dos fogachos, despertares frequentes e insônia. Estudos apresentados por Campos durante o painel mostram que entre 60% e 70% das mulheres no climatério apresentam dificuldade para dormir. Veja também: Como o sono é afetado pela menopausa Dor menstrual também interfere no sono Campos também chamou a atenção para um aspecto frequentemente negligenciado no consultório: a dor menstrual. “Dor menstrual também é doença do sono”, destacou a especialista. Segundo ela, a relação funciona nos dois sentidos: a dor fragmenta o sono e reduz sua qualidade; ao mesmo tempo, noites mal dormidas aumentam a sensibilidade do organismo à dor e intensificam processos inflamatórios, criando um ciclo que pode se repetir a cada mês. Essa associação ajuda a explicar por que mulheres com cólicas intensas frequentemente também apresentam fadiga, dificuldade de concentração e sensação de cansaço mesmo após uma noite de descanso. Quando a apneia parece insônia e atrapalha o sono Outro ponto destacado por Campos durante o Brain Congress é que mulheres nem sempre apresentam os sintomas clássicos dos distúrbios respiratórios do sono. Enquanto nos homens a apneia costuma ser identificada por ronco intenso e sonolência excessiva durante o dia, nas mulheres ela frequentemente se manifesta através de: insônia; fadiga persistente; cefaleias matinais; dificuldade de memória e concentração; ansiedade; sintomas depressivos. Essa apresentação diferente faz com que muitas pacientes passem anos sem receber o diagnóstico correto. Após a menopausa, a prevalência de apneia obstrutiva do sono aumenta significativamente em razão da perda do efeito protetor dos hormônios femininos, aproximando-se da observada nos homens. Dormir mal também afeta o coração e o cérebro As consequências do sono inadequado vão muito além do cansaço. Durante o congresso, foram apresentados dados que associam menos de seis horas de sono por noite ao aumento do risco de hipertensão arterial, acidente vascular cerebral (AVC), arritmias e insuficiência cardíaca, especialmente após a menopausa. O cérebro também sofre os efeitos. Alterações de memória, dificuldade de concentração, lentidão para raciocinar e o chamado brain fog aparecem com maior frequência em mulheres que convivem com insônia ou sono fragmentado. Veja também: Hábitos que podem melhorar o seu sono Quando procurar ajuda A dificuldade para dormir merece investigação quando se torna frequente ou começa a comprometer a rotina. Para Lino, o alerta também deve ser aceso quando a insônia vem acompanhada de fadiga intensa, alterações de humor ou sonolência excessiva. Embora as alterações hormonais influenciem o sono em diferentes fases da vida, elas não explicam, sozinhas, todos os casos de dificuldade para dormir. É importante procurar avaliação médica quando: a insônia persiste por semanas; o cansaço permanece mesmo após uma noite inteira de sono; há ronco, pausas respiratórias ou sensação de sono não reparador; os sintomas pioram sempre na mesma fase do ciclo menstrual; as alterações começam ou se intensificam durante a gravidez, após o parto ou na menopausa. A ginecologista ressalta que consultas ginecológicas costumam ser a porta de entrada dessa investigação por acompanhar as diferentes transições hormonais da vida da mulher, mas que o cuidado frequentemente precisa envolver outros especialistas, como médicos do sono, endocrinologistas, psiquiatras e psicólogos. “O desafio não é decidir entre ‘é hormonal’ ou ‘não é hormonal’, mas entender como os hormônios interagem com fatores biológicos, psicológicos e comportamentais ao longo da vida”, afirma Lino. Para Campos, investigar o sono da mulher significa considerar todo o contexto hormonal e clínico da paciente. Ciclo menstrual, dor, gravidez, puerpério, menopausa, saúde mental e doenças respiratórias podem estar por trás da mesma queixa. Reconhecer essas diferenças permite identificar doenças mais cedo e oferecer tratamentos mais adequados, melhorando não apenas a qualidade do sono, mas também a saúde cerebral, metabólica e cardiovascular.The post Por que mulheres dormem diferente dos homens? first appeared on Portal Drauzio Varella.
Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL
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