Como a translactação e a relactação podem ajudar mães no resgate da amamentação
Técnicas de translactação e relactação ajudam mães a resgatar a amamentação sem precisar recorrer à mamadeira.
A Semana Mundial do Aleitamento Materno, celebrada em agosto, lembra a importância do ato para a saúde dos bebês. O objetivo é promover e apoiar a amamentação, mas sobretudo compartilhar conhecimentos para auxiliar mulheres que, mesmo optando por amamentar, enfrentam desafios durante essa jornada. Entre as opções para ajudar mães no resgate da amamentação estão a translactação e a relactação. Segundo Ana Carolina Viegas, pediatra especializada em saúde da família e pós-graduada em emergências pediátricas pelo Hospital Albert Einstein, em São Paulo (SP), do ponto de vista mecânico, as duas técnicas são praticamente idênticas: “Usa-se uma sonda fina fixada próxima ao mamilo, conectada a um reservatório (seringa, copo ou frasco tipo mamadeira adaptada). O bebê é colocado para sugar o peito e a sonda simultaneamente, recebendo leite pela sonda enquanto estimula a mama com a sucção”, explica. A diferença está no que se coloca no reservatório: na translactação usa-se exclusivamente leite humano (da própria mãe, ordenhado, ou de banco de leite pasteurizado). Já na relactação usa-se fórmula infantil, leite de outra origem ou, eventualmente, leite humano pasteurizado, quando o objetivo é reconstituir uma produção láctea. Uma analogia útil, de acordo com a médica, é pensar na sonda como um “cateter de reforço”, como um soro que complementa uma via oral insuficiente, sem substituí-la. “O objetivo não é alimentar por ela indefinidamente, mas usá-la como ponte enquanto o ‘motor’ da lactação (a sucção ao seio, que estimula prolactina e ocitocina) é remontado”, destaca. Quem pode se beneficiar? As indicações típicas da translactação são: prematuros com sucção ainda ineficiente; recém-nascidos com hipotonia (comum na síndrome de Down), cardiopatias ou doenças neurológicas que limitam o esforço de sucção; descida tardia do leite; freio lingual curto em avaliação para frenotomia, como ponte até a correção. Já as indicações típicas da relactação são: mães que interromperam a amamentação por doença, hospitalização ou separação mãe-bebê e desejam retomar; mães adotivas que desejam amamentar (lactação induzida); bebês que nunca mamaram no peito desde o nascimento. Quais são os benefícios da translactação e da relactação? Conforme a pediatra, os benefícios passam pela questão nutricional, mantendo o aporte calórico-hídrico sem abrir mão do estímulo à mama — ao contrário da mamadeira, que resolve a fome, mas não estimula a produção; vínculo mãe-bebê, sustentando a liberação de ocitocina materna, associada ao apego e à redução do estresse; e desenvolvimento orofacial, já que a sucção ao peito exige um padrão motor distinto do uso de bicos artificiais, com maior participação de língua, lábios e musculatura mandibular. Documentos do Ministério da Saúde, inclusive, destacam que esse exercício é importante para o desenvolvimento adequado da cavidade oral e o desmame precoce pode prejudicar a mastigação, deglutição, respiração e articulação dos sons da fala. “Preservar a sucção ao seio durante o período de dificuldade protege esse desenvolvimento”, afirma a especialista. Veja também: Bancos de leite humano: como funciona a doação? Buscar ajuda especializada é essencial Os riscos de tentar as técnicas sem acompanhamento profissional existem: o posicionamento incorreto da sonda pode causar lesão de mamilo e piora da pega e o preparo inadequado de fórmula improvisada ou uso de leite de origem não controlada expõe a criança a risco nutricional e infeccioso. É importante aliar acompanhamento de pediatra, fonoaudióloga e consultora de lactação. Segundo Yamê Alves, enfermeira, mestre em enfermagem e especialista em amamentação, a família não deve enfrentar esse caminho sozinha. “Buscar ajuda de um profissional habilitado em aleitamento materno logo no início pode evitar muitas dificuldades, reduzir o desgaste emocional e aumentar as chances de sucesso”, afirma. Cuidados ao realizar a translactação e a relactação Como destacado, na translactação o bebê suga a mama da mãe enquanto também recebe leite por meio de uma pequena sonda posicionada ao lado do mamilo. “O mais importante é que o bebê esteja bem posicionado e faça uma boa pega. Embora pareça simples, o ideal é que as primeiras vezes sejam acompanhadas por um profissional capacitado em amamentação, porque pequenos ajustes fazem toda a diferença para que a técnica funcione bem e seja confortável para mãe e bebê”, orienta Alves. Já o segredo da relactação é o tempo e a persistência. “A primeira coisa que eu costumo dizer às mães é: tenham paciência consigo mesmas. A relactação é um processo e dificilmente acontece de um dia para o outro. Nos primeiros dias, é comum que a produção de leite ainda seja pequena, mas isso não significa que não esteja funcionando”, completa. De acordo com a enfermeira, o corpo precisa receber o estímulo repetidas vezes para entender que aquele leite precisa voltar a ser produzido. “Por isso, oferecer o peito com frequência, inclusive durante a noite, é um dos fatores mais importantes. Além disso, manter bastante contato pele a pele com o bebê, fazer ordenha após as mamadas quando orientado e contar com uma boa rede de apoio fazem muita diferença.” Processo exige paciência Também é importante lembrar que, muitas vezes, o complemento ainda será necessário por um período. Isso não representa um fracasso. Pelo contrário, é uma forma de garantir que o bebê continue bem alimentado enquanto a produção de leite aumenta gradativamente. “Muitas famílias acabam desistindo cedo, quando, na verdade, a produção ainda está começando a responder ao estímulo. Cada mulher responde de uma maneira. Algumas percebem melhora em poucos dias; outras levam algumas semanas. O mais importante é entender que a evolução costuma ser gradual e que cada pequena conquista merece ser valorizada”, aconselha Alves. Mais do que olhar apenas para a quantidade de leite produzida, é importante acompanhar se o bebê está ganhando peso adequadamente, mamando bem e se a mãe está conseguindo viver esse processo com acolhimento e segurança. A amamentação é construída aos poucos e cada avanço é um passo importante nessa caminhada. Veja também: 6 fatores que afetam a produção de leite maternoThe post Como a translactação e a relactação podem ajudar mães no resgate da amamentação first appeared on Portal Drauzio Varella.
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