Flebite (tromboflebite): especialista explica causas e quando o tratamento cirúrgico é necessário
O cirurgião vascular Dr. Marcelo Oliveira Magalhães explica os sinais da tromboflebite, os riscos de complicações e quando o quadro pode exigir anticoagulação ou outros tratamentos
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Dor, vermelhidão e uma região endurecida ao longo de uma veia são sinais frequentemente associados à chamada “flebite”. Embora muitas vezes encarada como um problema simples, especialmente quando aparece em uma perna com varizes, essa condição merece atenção.
Em determinadas situações, pode estar associada à formação de um coágulo e até evoluir para complicações mais importantes, como trombose venosa profunda e embolia pulmonar.
Flebite e tromboflebite não são a mesma coisaNa prática, considero importante diferenciar os termos. Flebite significa inflamação da parede de uma veia. Já a tromboflebite superficial, também denominada trombose venosa superficial, ocorre quando, além do processo inflamatório, existe a formação de um trombo — um coágulo — dentro de uma veia localizada próxima à superfície da pele.
O quadro típico é relativamente característico: o paciente percebe dor localizada, vermelhidão, aumento da sensibilidade e, muitas vezes, uma veia endurecida, semelhante a um “cordão” doloroso sob a pele.
Nas pernas, a tromboflebite está frequentemente relacionada às varizes. Nos braços, por outro lado, uma causa bastante comum é o trauma provocado por cateteres e acessos venosos utilizados para administração de medicamentos.
Por que a tromboflebite acontece?A formação de um trombo costuma envolver três mecanismos principais: diminuição do fluxo de sangue dentro da veia, lesão da parede vascular e aumento da tendência do organismo à coagulação.
Por isso, as varizes e a insuficiência venosa crônica estão entre os principais fatores associados à tromboflebite das pernas. Quando as veias estão dilatadas e suas válvulas deixam de funcionar adequadamente, o sangue circula com maior dificuldade e tende a permanecer represado, favorecendo a formação de coágulos.
Outras situações também aumentam o risco, como períodos prolongados de imobilidade, cirurgia recente, traumatismos, gravidez e pós-parto, uso de determinados hormônios, infecções ou processos inflamatórios, obesidade, histórico prévio de trombose e algumas condições que aumentam a coagulação do sangue.
O câncer também merece atenção especial, principalmente quando uma tromboflebite ocorre sem uma causa evidente ou apresenta episódios recorrentes.
É apenas uma inflamação superficial?Esse é um dos principais motivos pelos quais considero a avaliação médica importante. Por ocorrer em uma veia superficial, durante muito tempo a tromboflebite foi considerada uma condição de pouca gravidade. Hoje sabemos que não é sempre assim.
Estudos destacam que uma parcela relevante dos pacientes pode apresentar simultaneamente trombose venosa profunda e que a trombose superficial também pode se estender em direção às veias profundas.
Por isso, não basta avaliar somente a aparência da pele.
O ultrassom Doppler venoso é um dos principais exames nesse contexto. Além de confirmar a presença do trombo, permite determinar sua extensão, identificar quais veias estão comprometidas e, principalmente, verificar a distância entre o coágulo e o sistema venoso profundo.
Essa informação pode modificar completamente a estratégia de tratamento.
Como é feito o tratamento?Não existe um único tratamento para todos os pacientes.
Casos pequenos e de baixo risco podem ser conduzidos com medidas para controle dos sintomas, como compressão elástica, mobilidade, compressas mornas, elevação do membro e medicamentos anti-inflamatórios quando indicados.
Em outros pacientes, entretanto, é necessária anticoagulação.
De maneira geral, em trombos mais extensos e quando a trombose superficial está muito próxima da comunicação com uma veia profunda, o risco é maior e o tratamento pode seguir princípios semelhantes aos utilizados na trombose venosa profunda.
E quando é necessário operar?Esse é um ponto que gera bastante dúvida e discussão no meio médico.
Na maioria das tromboflebites agudas, a cirurgia raramente é o tratamento. A evidência científica disponível para intervenção cirúrgica durante o episódio agudo é limitada, e os procedimentos invasivos não são recomendados de rotina.
Por outro lado, após o controle da fase aguda, como cirurgião vascular, deve-se investigar o que favoreceu aquela trombose.
Em pacientes com varizes importantes ou refluxo venoso identificado pelo ultrassom Doppler, tratar a veia doente pode ser considerado para diminuir a possibilidade de novos episódios e controlar a insuficiência venosa.
Atualmente, isso pode ser feito por técnicas minimamente invasivas. Cirurgias convencionais, como ligadura ou retirada de veias, ficam reservadas a casos específicos e raramente são indicadas especificamente para flebites.
Estudos ressaltam que a evidência sobre tratamento cirúrgico ainda é mais limitada do que aquela disponível para o tratamento medicamentoso.
Mais importante do que perguntar simplesmente se uma flebite “precisa operar” é entender onde está o trombo, qual sua extensão, a causa do problema e o risco daquele paciente.
Quando procurar avaliação médica?Dor e vermelhidão que aumentam, edema importante de toda a perna ou progressão da área endurecida exigem reavaliação.
Já o aparecimento de falta de ar ou dor no peito deve motivar avaliação imediata, pois pode indicar embolia pulmonar.
A mensagem principal é simples: o tromboflebite superficial tem tratamento e, na maioria das vezes, evolui bem quando corretamente diagnosticado. Porém, não deve ser banalizada.
Uma avaliação adequada pelo cirurgião vascular permite identificar quem necessita apenas de medidas clínicas, quem precisa de anticoagulação e quem poderá se beneficiar do tratamento definitivo das varizes e da insuficiência venosa.