Colonoscopia: por que, quando bem indicada, os benefícios superam os riscos

Dra. Adrielma Athena explica os benefícios, as indicações e os possíveis riscos da colonoscopia, exame fundamental na prevenção e no diagnóstico precoce do câncer colorretal.

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A colonoscopia está entre os principais exames utilizados na prevenção, investigação e, em determinadas situações, no tratamento de doenças do intestino grosso. Embora o preparo intestinal, a sedação e a possibilidade de complicações ainda despertem inseguranças em muitos pacientes, trata-se de um procedimento considerado seguro e de baixo risco, principalmente quando realizado por profissionais habilitados e em paciente com indicação adequada.

Seu principal benefício está relacionado à prevenção e à detecção precoce do câncer colorretal. No Brasil, os tumores de cólon e reto são o segundo mais frequente em homens e mulheres, quando excluídos os cânceres de pele não melanoma. Para o triênio 2026 a 2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 53.810 novos casos da doença por ano no Brasil.

Em muitos casos, o câncer colorretal se desenvolve a partir de pólipos que, inicialmente, são benignos. Algumas dessas lesões, porém, podem sofrer alterações ao longo dos anos e evoluir para um tumor maligno. A colonoscopia permite identificar esses pólipos e, frequentemente, removê-los durante o próprio exame, interrompendo a cascata de transformação maligna.

O exame também possibilita a identificação de áreas suspeitas e a realização de biópsias, contribuindo para o diagnóstico de doenças em fases mais precoces, quando as possibilidades de tratamento tendem a ser maiores.

Quando a colonoscopia é indicada?

Em pessoas assintomáticas, de risco habitual, a partir dos 45 anos, a colonoscopia pode ser utilizada como uma das estratégias iniciais para rastreamento do câncer colorretal.

Além da prevenção do câncer colorretal, a colonoscopia tem papel importante na investigação de sintomas e alterações que podem estar relacionados a doenças do intestino. Sangramento nas fezes, anemia por deficiência de ferro sem causa esclarecida, mudanças persistentes no hábito intestinal, perda de peso sem explicação e determinados achados em exames de imagem são algumas situações que podem justificar a investigação endoscópica.

O procedimento também pode ser indicado para o acompanhamento de pessoas que já tiveram pólipos ou câncer colorretal, assim como para pacientes com histórico familiar ou condições que aumentem o risco de desenvolver a doença.

Um exame que também pode tratar

Uma das características mais importantes da colonoscopia é que ela não se limita ao diagnóstico. Durante o procedimento, o médico pode remover pólipos, realizar biópsias, tratar sangramentos, dilatar estreitamentos intestinais (estenoses) e remover lesões neoplásicas precoces.

Essa possibilidade de diagnóstico e tratamento em um único procedimento pode reduzir a necessidade de intervenções mais invasivas.

Por isso, a colonoscopia deve ser compreendida como uma ferramenta que pode atuar em diferentes etapas do cuidado: prevenir o câncer, investigar sintomas, diagnosticar doenças e tratar lesões.

E quais são os riscos?

Como qualquer procedimento médico, a colonoscopia não é completamente isenta de riscos.

A maioria dos efeitos adversos é leve e transitória e está relacionada principalmente à insuflação do intestino. Distensão abdominal, gases, cólicas e desconforto abdominal após o exame são algumas das queixas mais comuns.

A sedação também requer cuidados. Dependendo das condições clínicas do paciente e dos medicamentos utilizados, podem ocorrer alterações da pressão arterial, da frequência cardíaca e da respiração. Por isso, a avaliação prévia e o monitoramento adequado durante o procedimento são fundamentais.

Entre as complicações mais relevantes estão o sangramento e a perfuração intestinal. O sangramento pode ocorrer principalmente após a retirada de pólipos ou procedimentos terapêuticos mais avançados. Na maioria das situações, é controlável, embora, em casos menos frequentes, possa exigir tratamento adicional. A perfuração intestinal, por sua vez, consiste em uma ruptura da parede do intestino. É uma complicação rara, mas potencialmente grave, que pode exigir internação e, em alguns casos, tratamento cirúrgico.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, que reuniu dados de aproximadamente 38,5 milhões de colonoscopias, estimou uma taxa global de sangramento de cerca de 18,4 casos e de perfuração em aproximadamente 5,15 casos para cada 10 mil colonoscopias. O risco pode variar de acordo com as características do paciente e ser maior em procedimentos terapêuticos mais complexos.

Também devem ser considerados os riscos relacionados ao preparo intestinal, à desidratação e às condições clínicas preexistentes. Pacientes idosos ou portadores de doenças cardíacas, pulmonares, renais ou outras comorbidades podem apresentar maior risco de eventos adversos e, por isso, precisam de avaliação individualizada antes do procedimento.

Atenção aos medicamentos

Outro aspecto que merece atenção são os medicamentos utilizados pelo paciente, especialmente anticoagulantes e antiagregantes plaquetários. Essas informações devem ser comunicadas previamente à equipe médica, que avaliará a necessidade de manutenção, ajuste ou eventual suspensão do medicamento, de acordo com o risco de sangramento e o tipo de procedimento a ser realizado. Nenhum medicamento deve ser interrompido por conta própria.

Benefícios versus riscos

A questão mais importante, portanto, não é considerar a colonoscopia um procedimento sem riscos, mas avaliar a relação entre os riscos e os benefícios esperados para cada paciente.

Quando existe uma indicação adequada, a possibilidade de identificar e remover lesões precursoras do câncer, diagnosticar uma doença em estágio inicial ou tratar alterações durante o próprio exame pode representar um benefício significativo.

É justamente essa relação que deve orientar a decisão. O medo das complicações, quando analisado de forma isolada, pode fazer com que o paciente perca de vista o objetivo principal do exame: prevenir doenças graves ou identificá-las o mais cedo possível.

Uma decisão individualizada

A colonoscopia é uma ferramenta fundamental da medicina moderna e vai muito além de um simples exame diagnóstico. Quando bem indicada, pode prevenir o câncer colorretal, esclarecer sintomas, detectar doenças em fases iniciais e possibilitar o tratamento de lesões durante o próprio procedimento.

Seus riscos devem ser apresentados de maneira clara e individualizada, sem minimizar possíveis complicações, mas também sem superestimá-las.

Para pacientes com indicação adequada, os benefícios da colonoscopia podem superar significativamente os riscos associados ao procedimento. A decisão deve ser compartilhada entre médico e paciente, levando em consideração idade, sintomas, histórico pessoal e familiar, resultados de exames anteriores, medicamentos em uso e condições de saúde.

Mais do que vencer o medo do exame, o objetivo é tomar uma decisão consciente, baseada em informação, indicação médica, riscos e benefícios.