Saúde além do peso: por que focar somente na balança pode ser um equívoco
Avaliar a composição corporal como um todo, como os índices de gordura e de massa magra, traz mais pistas sobre como está a saúde do indivíduo do que o peso sozinho.
A preocupação com o peso é constante na vida de muitas pessoas. E não à toa: o sobrepeso, e especialmente a obesidade, oferecem riscos para a saúde cardiovascular, óssea e metabólica. Porém, apegar-se apenas ao número na balança nem sempre é o melhor caminho. Não é que o peso corporal não seja importante, mas avaliá-lo de forma isolada pode trazer conclusões equivocadas sobre a própria saúde. “O peso isolado pode enganar. A balança mede apenas a soma total de tudo que compõe o corpo — gordura, músculo, água, ossos e até conteúdo intestinal — sem diferenciar esses componentes. Assim, duas pessoas com peso idêntico (ou seja, com o mesmo índice de massa corporal, que avalia o peso pela altura) podem ter composições corporais e níveis de saúde completamente diferentes”, afirma Felipe Henning Gaia Duarte, endocrinologista e especialista em endocrinologia e metabologia com pós-doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Dessa forma, segundo o médico, o mesmo peso pode representar excesso de gordura e pouca massa muscular em uma pessoa, o que é ruim; e boa massa muscular com pouca gordura em outro indivíduo, o que é bom. Por isso, o ideal é sempre avaliar a composição corporal como um todo. O que compõe o peso corporal e por que olhar além dele O peso total do corpo é formado basicamente por dois grandes compartimentos: massa gorda e massa magra. De acordo com o endocrinologista, a massa gorda inclui a gordura subcutânea (abaixo da pele) e a gordura visceral (ao redor dos órgãos internos), sendo esta última a de maior impacto metabólico e cardiovascular. Já a massa magra engloba tudo o que não é gordura — músculos, ossos, órgãos e água corporal —, sendo a musculatura esquelética o principal determinante do metabolismo basal. “O peso na balança soma tudo indistintamente, sem revelar a ‘qualidade’ desse peso: se vem de tecido muscular metabolicamente ativo ou de gordura. A composição corporal, especialmente a relação entre massa magra e gordura corporal (com destaque para a gordura visceral), é considerada um preditor de saúde e longevidade mais preciso do que o peso isolado ou até o IMC”, explica. Um estudo da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, publicado na Annals of Family Medicine, acompanhou mais de 4 mil pessoas por 15 anos e constatou que indivíduos com alto percentual de gordura tinham 78% mais risco de morte e três vezes mais probabilidade de morte por doença cardíaca, mesmo com IMC dentro da faixa “normal”. Veja também: IMC: Por que a fórmula não é suficiente para determinar quadro nutricional? Além do peso: o que, então, deve ser avaliado? Segundo Duarte, na rotina médica, alguns indicadores ajudam a avaliar a saúde de uma pessoa de forma mais realista do que somente o peso. Um dos mais simples é a medida da circunferência abdominal, feita com fita métrica. O ideal é que o número não ultrapasse 94 cm em homens e 88 cm em mulheres. “E melhor ainda, a relação cintura-estatura. A regra prática é manter a cintura abaixo da metade da altura: alguém com 1,70 m deveria ter cintura menor que 85 cm. É gratuito, reprodutível e informa mais sobre risco cardiometabólico do que o IMC”, esclarece. Outra análise essencial é a da composição corporal, conforme falamos anteriormente. Os percentuais de gordura e massa muscular são avaliados através dos exames de bioimpedância (mais acessível) ou da densitometria corporal total (mais precisa). Por fim, indicadores funcionais, como força de preensão palmar, capacidade de levantar de uma cadeira sem apoio e condicionamento cardiorrespiratório também são importantes. “A aptidão física é um dos preditores mais robustos de mortalidade que conhecemos, e independe do peso”, afirma o especialista. O que fazer para melhorar a composição corporal Para ter uma composição corporal mais saudável, seja para quem tem ou não excesso de peso, algumas estratégias são fundamentais: treinar força: o ideal são pelo menos duas a três sessões semanais, com sobrecarga progressiva. Segundo o médico, esse é o estímulo mais eficaz para preservar e construir massa muscular, e não há substituto farmacológico ou nutricional para ele; fazer atividade aeróbica e manter o movimento ao longo do dia: o tempo sedentário (sentado) tem efeito próprio, independentemente do quanto se treina, ou seja, não basta treinar por uma hora e passar o restante do dia em repouso; consumir a quantidade adequada de proteína: a recomendação mínima oficial (de 0,8 g por kg) foi feita para evitar deficiência, não para otimizar musculatura, destaca o especialista. Na prática, segundo ele, algo entre 1,2 g e 1,6 g por kg diariamente, distribuído ao longo das refeições, atende melhor a maioria dos adultos (é importante o acompanhamento de um nutricionista, e pessoas com doença renal precisam ajustar a quantidade ideal com o seu médico); dormir bem: dormir mal aumenta o apetite, piora a sensibilidade à insulina e prejudica a recuperação muscular. É provavelmente o fator mais subestimado dessa lista, alerta Duarte; reduzir o consumo de ultraprocessados e de álcool, com atenção especial ao álcool para quem tem gordura no fígado. “E uma observação que costumo repetir: uma composição corporal melhor às vezes vem sem nenhuma mudança no peso. Ganhar dois quilos de músculo e perder dois de gordura é um resultado excelente que a balança registra como zero”, destaca. Veja também: Treino cardio e musculação: entenda o papel de cada um para a saúde Quando o corpo dá sinais de alerta Às vezes, a preocupação excessiva com um único aspecto da saúde, como o peso, faz com que a pessoa deixe de lado outros pontos e ignore sinais de que o corpo não está bem. O especialista detalha os principais sinais de alerta, mas avisa: “O que importa não é o sintoma isolado, mas a mudança em relação ao seu padrão habitual e a persistência dele. Todo mundo tem uma noite de sono ruim ou um intestino desregulado depois de uma viagem. O que merece avaliação é o que muda e não volta ao normal em algumas semanas”, ressalta. Veja o que merece ser investigado: alterações na urina: aumento da frequência urinária e do volume de urina, especialmente à noite, acompanhado de sede intensa, pode indicar um quadro de hiperglicemia; urina espumosa persistente pode indicar proteinúria, sinal precoce de problema renal; presença de sangue ou mudança de cor persistente também exigem investigação; cansaço desproporcional: aquele que não melhora com descanso, ou que surge em atividades antes toleradas sem esforço. Pode refletir anemia, alteração de tireoide, apneia do sono, deficiência de vitamina B12 ou ferro, entre outros. Além disso, falta de ar com esforços habituais pode indicar problemas no coração ou pulmões; alterações no sono: ronco alto com pausas respiratórias relatadas por quem dorme ao lado ou sonolência diurna importante. Uma das possibilidades é a apneia do sono, que é subdiagnosticada e tem consequências cardiovasculares e metabólicas; sinais na pele e nos pelos: escurecimento aveludado da pele no pescoço e nas axilas (chamado de acantose nigricans) sugere resistência à insulina; queda de cabelo, pele muito seca, unhas quebradiças e intolerância ao frio ou ao calor apontam para alterações na tireoide; alterações hormonais e sexuais: sinais como irregularidade menstrual nova, queda de libido, disfunção erétil merecem investigação (esta última frequentemente é o primeiro sinal de doença vascular, aparecendo anos antes de um evento cardíaco); outros sinais de alarme que pedem avaliação rápida: perda de peso não intencional e significativa, febre prolongada sem causa, dor torácica aos esforços, inchaço novo nas pernas, aparecimento ou crescimento de nódulos. De acordo com o endocrinologista, esses sintomas podem refletir desde questões hormonais e metabólicas até deficiências nutricionais associadas a mudanças rápidas de peso, sendo essencial que sejam investigados de forma integrada. “Várias das condições mais relevantes que tratamos — hipertensão, diabetes no início, esteatose hepática, dislipidemia, doença renal precoce — não dão sintoma nenhum. É exatamente por isso que a avaliação periódica existe e que reduzir a saúde a um número na balança é um erro de foco. A balança tem seu lugar; ela só não deveria ter a última palavra”, conclui Duarte. Conteúdo produzido em parceria com a Smart Fit.The post Saúde além do peso: por que focar somente na balança pode ser um equívoco first appeared on Portal Drauzio Varella.
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