Diabetes tipo 2 no Brasil: endocrinologista alerta para o avanço da doença

Dra. Thais Novaes, endocrinologista, explica por que os casos de diabetes tipo 2 têm aumentado no Brasil, quais grupos apresentam maior risco e como o diagnóstico precoce e as mudanças de hábito podem reduzir complicações.

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Ia

  Minha trajetória até a Endocrinologia

Minha trajetória até a Endocrinologia foi tudo menos linear. Na universidade, cogitei ir para a área cirúrgica, mas o destino tinha outros planos e acabei iniciando residência em Medicina de Família e Comunidade.

Nela, pude me apaixonar pela parte clínica da Medicina, pelo contato mais próximo, humanizado e contínuo com os pacientes. Durante a residência de Clínica Médica, várias especialidades me chamaram atenção novamente, mas acabei me apaixonando pela Endocrinologia, sua complexidade e desafios, sua variedade e conexão com diversos órgãos e outras especialidades.

Mas, acima de tudo, me apaixonei por perceber o quão grande era a possibilidade de transformar a saúde das pessoas, com prevenção e um acompanhamento mais próximo e humano, que se encaixa tão bem nessa especialidade e nas necessidades dos pacientes acometidos pelas suas doenças.

O diabetes tipo 2 tem sido diagnosticado com mais frequência e em pacientes mais jovens

Na prática, o que mais tenho observado é o diagnóstico com maior frequência e cada vez mais em pacientes mais jovens.

Muitas vezes, ele aparece em exames de rotina, sem sintomas prévios, mas também com grande associação com obesidade, sedentarismo e histórico familiar, retrato do nosso estilo de vida urbano atual.

O avanço do diabetes tipo 2 no Brasil é multifatorial

Não podemos negar que esse cenário é um problema multifatorial. É reflexo de um estilo de vida que se transforma: maior consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo e obesidade mais frequente.

Além disso, existem outros fatores específicos brasileiros, como a desigualdade no acesso à saúde preventiva e a transição nutricional muito rápida, sem tempo e condições de promover boas políticas públicas.

O diabetes tipo 2 pode evoluir de forma silenciosa por anos

A grande questão é que o diabetes tipo 2 continua sendo silencioso por anos, podendo apresentar sintomas clássicos apenas quando a doença já está avançada.

Muitas pessoas não têm o costume de realizar exames de rotina. Além disso, sintomas muito inespecíficos, como cansaço e visão embaçada, podem ser atribuídos a outras causas.

Então, sinais que não podemos ignorar são: sede constante, aumento da frequência urinária, perda de peso persistente, visão turva e perda de peso sem explicação.

Alguns grupos precisam de atenção especial no rastreamento

Merecem atenção especial pessoas com obesidade ou sobrepeso, especialmente aquelas com maior acúmulo de gordura abdominal; histórico familiar de diabetes; mulheres com diagnóstico prévio de diabetes gestacional; pessoas com mais de 35 anos; hipertensos; e pessoas com níveis de colesterol e triglicérides aumentados, além de grupos com menor acesso a exames preventivos regulares.

Esses grupos concentram diferentes fatores de risco, o que torna o rastreamento precoce essencial para reduzir o risco de diagnóstico tardio e suas complicações.

O tratamento do diabetes tipo 2 passou a considerar também os riscos cardiovascular e renal

A principal mudança no tratamento do diabetes tipo 2 nos últimos anos foi passarmos a pensar além do controle glicêmico como única meta, considerando também o risco cardiovascular e renal na escolha do tratamento.

Classes como os inibidores de SGLT2 e os agonistas do receptor de GLP-1 trouxeram benefícios adicionais — como proteção cardiovascular e renal e perda de peso —, tornando o tratamento mais individualizado.

Na prática, isso representa uma abordagem menos “engessada”: em vez de seguir uma única sequência de medicamentos, a escolha do tratamento já considera as características e as comorbidades do paciente desde o início.

Para quem vive com diabetes, isso pode significar maior chance de prevenir complicações e alcançar benefícios clínicos que vão além do controle da glicemia.

Mudanças de hábito têm impacto importante no controle do diabetes tipo 2

Perda de peso e atividade física regular estão entre as medidas de maior impacto no controle do diabetes tipo 2.

Reduções de 5% a 10% do peso corporal já podem melhorar significativamente o controle glicêmico, e perdas mais expressivas podem levar à remissão do diabetes em parte dos pacientes.

Exercícios que combinam atividade aeróbica com treinamento de força ajudam a melhorar a sensibilidade à insulina.

Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados e açúcares adicionados, manter um sono adequado e cuidar da saúde emocional e do estresse também são importantes.

No fim, o que mais conta é a consistência: a criação e o fortalecimento de hábitos mais saudáveis, que, ao longo do tempo, tendem a trazer resultados mais duradouros do que intervenções radicais e temporárias.

O diagnóstico precoce amplia as possibilidades de prevenção

Meu principal recado é: não espere os sintomas aparecerem para cuidar da sua saúde.

O diabetes tipo 2 pode evoluir de forma silenciosa durante anos, e pessoas com fatores de risco devem fazer uma avaliação e manter o acompanhamento regular.

Quanto mais cedo identificamos o problema, maior é a oportunidade de agir, prevenindo ou retardando suas complicações.