TDAH: remédio na infância aumenta o risco de dependência química?

Entenda a relação entre TDAH, risco de dependência e o que as evidências mostram sobre o tratamento medicamentoso na infância.

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Quando uma criança recebe o diagnóstico de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), uma preocupação comum entre pais e responsáveis é se o uso de medicamentos estimulantes pode aumentar o risco de dependência química no futuro. Esse receio costuma estar relacionado ao fato de esses remédios atuarem em sistemas cerebrais também envolvidos nos mecanismos de recompensa.As evidências científicas, porém, não mostram que o tratamento adequado aumente essa vulnerabilidade. O próprio TDAH, por outro lado, está associado a maior probabilidade de desenvolver problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. “Essa é uma preocupação bastante comum entre os pais. Essa comparação, além de ser bastante simplista, pode gerar um medo desnecessário em famílias que precisam tomar uma decisão sobre o tratamento dos seus filhos”, afirma Gabriel França, psiquiatra especialista em psiquiatria intervencionista e docente de medicina. O que dizem as evidências Uma pesquisa publicada no JAMA Psychiatry acompanhou 579 crianças com TDAH, inicialmente com idades entre 7 e 9 anos, até uma média de 25 anos. Os pesquisadores não encontraram evidências de que o tratamento com estimulantes estivesse relacionado ao aumento do uso frequente de álcool, maconha, cigarro ou outras substâncias, nem à maior ocorrência de transtornos por uso de substâncias. “Contrariando o receio histórico de que estimulantes ‘sensibilizariam’ a criança para o uso futuro de drogas, as evidências mais robustas e recentes indicam que o tratamento farmacológico adequado do TDAH na infância não aumenta o risco de dependência química”, explica o médico. Isso não significa que esses medicamentos possam ser usados sem critérios. A indicação deve ser individualizada e acompanhada por um especialista, considerando os prejuízos causados pelos sintomas, a resposta ao tratamento e possíveis efeitos adversos. O uso na dose prescrita também não deve ser confundido com o uso indevido da substância. Por que pessoas com TDAH têm maior risco de dependência química? Uma meta-análise com 37 estudos e mais de 762 mil participantes encontrou maior risco de problemas relacionados ao uso de álcool, nicotina e outras drogas entre pessoas diagnosticadas com TDAH na infância. Quando analisados especificamente os transtornos por uso de substâncias, a associação encontrada foi cerca de 2,6 vezes maior. Isso não significa que toda pessoa com TDAH desenvolverá dependência química. O risco também é influenciado por fatores individuais, familiares e ambientais. Características do próprio transtorno podem ajudar a explicar essa relação, entre elas a impulsividade e diferenças na forma como o cérebro responde à motivação e às recompensas. “No TDAH, existem alterações nos circuitos dopaminérgicos envolvidos em motivação, recompensa e reforço. Uma das hipóteses é que haja uma menor responsividade ou menor valor atribuído a recompensas naturais e atrasadas, fazendo com que estímulos capazes de produzir uma ativação dopaminérgica mais rápida e intensa possam adquirir maior valor reforçador”, explica França. Na prática, recompensas imediatas podem exercer maior influência sobre algumas pessoas com TDAH. A impulsividade também pode dificultar o adiamento de uma gratificação e a avaliação das consequências antes de agir. “A tendência a buscar recompensas imediatas, ter maior dificuldade em adiar gratificações e agir antes de avaliar completamente as consequências pode facilitar tanto a experimentação quanto a manutenção de comportamentos relacionados ao uso de substâncias.” Assim, parte da maior vulnerabilidade ao uso problemático de substâncias pode estar relacionada às características do próprio TDAH, e não ao uso de medicação. Veja também: Quando a Ritalina é indicada e por que usá-la sem diagnóstico é arriscado O tratamento pode ter um efeito protetor? Alguns estudos sugerem que o tratamento medicamentoso pode estar associado à redução de problemas relacionados ao uso de substâncias, embora o tamanho e a duração desse possível efeito protetor ainda sejam debatidos. Um estudo publicado no The BMJ em 2025 analisou dados de 148.581 pessoas com TDAH, de 6 a 64 anos, na Suécia. O início do tratamento farmacológico esteve associado a uma redução de 15% na taxa do primeiro episódio de uso indevido de substâncias. Para eventos recorrentes, a redução foi de 25%. Também foram observadas menores taxas de comportamento suicida, acidentes de trânsito e criminalidade entre as pessoas que iniciaram o tratamento. Como o estudo é observacional, porém, os resultados mostram associação e não permitem afirmar que a medicação, isoladamente, tenha provocado essas reduções. Para o especialista, há uma explicação biológica que pode ajudar a entender por que identificar e tratar o TDAH precocemente pode fazer diferença. A intervenção ainda na infância permite atuar sobre sintomas como impulsividade e dificuldade de controle inibitório, relacionados a comportamentos de risco. “TDAH e transtorno por uso de substâncias compartilham traços de impulsividade, busca por sensação e um estado hipodopaminérgico com baixa responsividade a recompensas”, complementa. As drogas de abuso também aumentam a ação da dopamina no cérebro, o que sustenta a hipótese de que, em algumas pessoas, o uso de substâncias possa funcionar como uma tentativa de compensar essa baixa responsividade. “Ao tratar o TDAH precocemente com estimulantes, que também atuam aumentando a atividade dopaminérgica de forma terapêutica e controlada, a hipótese é que se reduza o impulso de automedicação com substâncias ilícitas e se melhore o controle inibitório que, sem tratamento, predispõe à experimentação precoce de drogas”, afirma. Isso não significa que tratar uma criança com TDAH impeça uma futura dependência. Como falamos, o uso problemático de álcool e outras drogas envolve diversos fatores, e os estudos ainda divergem sobre a dimensão e a persistência de um possível efeito protetor. O dado mais consistente é que o tratamento farmacológico adequado do TDAH na infância não demonstrou aumentar o risco futuro de dependência química. Importância do acompanhamento individualizado desde cedo Por isso, quando existe indicação de tratamento, a decisão deve considerar as necessidades de cada criança, os prejuízos causados pelos sintomas e a avaliação do especialista. O acompanhamento ao longo do desenvolvimento também é importante para observar mudanças de comportamento, resposta ao tratamento e outros fatores que possam exigir atenção. A relação entre TDAH, uso de substâncias e prevenção também esteve entre os temas discutidos no Congress on Brain, Behavior and Emotions 2026, realizado em junho, em Porto Alegre (RS).Durante a palestra “Do TDAH na infância ao transtorno por uso de substâncias: caminhos de risco e oportunidades de prevenção”, a psicóloga Brooke S. G. Molina, professora de psiquiatria, psicologia, pediatria e ciência translacional da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, destacou que “sintomas e danos são parte da via de risco desde a infância”. A fala ajuda a colocar a prevenção em perspectiva: o cuidado com o TDAH não se resume à prescrição de um medicamento e não começa apenas diante do uso de álcool ou outras drogas. Identificar prejuízos, acompanhar o comportamento e oferecer o tratamento adequado desde cedo também fazem parte desse processo. Veja também: TDAH e TOD: o que fazer quando os transtornos aparecem juntos? The post TDAH: remédio na infância aumenta o risco de dependência química? first appeared on Portal Drauzio Varella.

Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/psiquiatria/tdah-remedio-na-infancia-aumenta-o-risco-de-dependencia-quimica/