Casos de doença inflamatória intestinal aumentam quase 60% em cinco anos no Brasil 

Casos de doença inflamatória intestinal crescem rapidamente no Brasil, mas diagnóstico ainda enfrenta barreiras no SUS.

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A prevalência de casos de doença inflamatória intestinal (DII) no Brasil aumentou em quase 60% em apenas cinco anos. Os dados são de uma pesquisa apresentada durante o 74° Congresso Brasileiro de Coloproctologia por Abel Quaresma e Paulo Kotze, ambos membros da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP).  O estudo com base no DataSUS atualiza outra pesquisa feita com informações de 2012 a 2020. Nesse período, a prevalência da doença já havia mais que triplicado, indo de 30 para 100,1 casos a cada 100 mil habitantes. A partir de 2018, os pesquisadores identificaram uma aceleração no crescimento. Hoje, já são 158 casos a cada 100 mil habitantes. Considerando todo o período analisado, de 2012 a 2025, as doenças inflamatórias intestinais cresceram mais de cinco vezes no país. Mantendo o ritmo atual, a previsão é de que o número de pessoas vivendo com DII possa ser 1,7 vez maior nos próximos dez anos. Outro achado foi a mudança na relação entre os dois principais tipos de DII. A retocolite ulcerativa apresentou um crescimento mais acelerado do que a doença de Crohn. Em 2012, havia 1,5 caso de retocolite ulcerativa para cada caso de doença de Crohn. Em 2025, a proporção subiu para 2,1 casos de retocolite para cada caso de Crohn.  “O normal na América Latina é ter quatro pacientes com retocolite para cada um com Crohn. O Brasil, tendo números parecidos para as duas, aproxima-se muito mais da Europa ou dos Estados Unidos, onde a relação é de quase um para um“, explicou o coloproctologista Abel Quaresma ao Portal Drauzio durante o congresso. As DII têm aumentado no mundo todo, porém de forma mais lenta do que no Brasil. Com números que o diferenciam dos vizinhos latino-americanos, os pesquisadores avaliam fatores ambientais, sociais e assistenciais que podem estar influenciando na evolução da doença no país.   Possíveis causas “As DII são doenças de países desenvolvidos. Isso mostra que o desenvolvimento traz um preço. Há 20 anos, fazia-se pão em casa; em dois dias o pão estava duro e em sete dias estava mofado. Hoje em dia, compra-se um pão de forma e, três meses depois, ele é consumido e está perfeito. Por quê? Porque o pão de antigamente levava farinha, ovo, leite e fermento. O pão de hoje leva 20 ingredientes cujos nomes conhecemos como aromatizantes e espessantes. A alimentação mudou completamente, isso barateou a comida e deu acesso a mais pessoas, mas o custo é cobrado”, alerta o especialista. A alimentação, no entanto, não é o único fator envolvido. A genética também cumpre seu papel, já que cerca de 30% das pessoas com DII possuem um gene específico para a doença.  Além disso, alterações da microbiota intestinal, perda de biodiversidade e diferentes exposições ambientais, como aos defensivos agrícolas, interferem nesse processo.  O estresse é outro componente que, apesar de não causar a doença, piora os sintomas, reduz a imunidade e deixa o indivíduo mais suscetível a novas crises.   Dificuldade de diagnóstico de doença inflamatória intestinal O estudo trouxe ainda dados de maior prevalência nas regiões Sul e Sudeste, com destaque para São Paulo (278 casos a cada 100 mil habitantes), Paraná (251/100 mil) e Santa Catarina (204/100 mil). O Norte e o Nordeste, por sua vez, apresentam taxas significativamente menores. A diferença pode estar nas barreiras de acesso ao exame diagnóstico: a colonoscopia. “Em Santa Catarina, solicita-se uma colonoscopia e consegue-se em dois ou três meses, o que é ótimo. Em regiões do Norte, o prazo é de seis meses a um ano. Uma pessoa que está sangrando e perdendo peso — eles chegam a perder 20 kg e a ter 10 episódios de diarreia por dia — enfrenta uma situação complicada”, afirma Quaresma.  Além da colonoscopia, há a calprotectina fecal, um exame incorporado na rede pública em 2024, mas que só foi incluído na tabela de procedimentos do SUS em julho deste ano, após pressão de pacientes, sociedade civil e especialistas. Em relação aos tratamentos disponíveis, o Brasil está avançado: é um dos poucos países da América Latina a oferecer medicamentos biológicos para retocolite e doença de Crohn. Para ter acesso, no entanto, é preciso ter o diagnóstico comprovado. “Ou seja, há acesso ao medicamento, mas não ao exame”, pontua o médico.   Custos para o SUS “Antigamente, considerava-se [a DII] uma doença rara, com um caso ou outro, mas agora não. O Canadá, por exemplo, é um dos países com maior prevalência, atingindo 1% da população adulta. Aqui no Brasil, estamos com 0,17%. De 0,17% para 1%, imagine o quanto pode aumentar. Ninguém está preparado. Não há recursos, não há colonoscopia nem medicamentos para todos. A Constituição determina que a saúde é um dever do Estado, mas a conta não vai fechar”, opina o autor do estudo. As políticas públicas atuais são baseadas em estudos antigos, que colocavam o Brasil como uma região de baixa incidência das DII. No entanto, com o rápido crescimento, essa será uma demanda importante para o SUS. As doenças inflamatórias intestinais são, muitas vezes, diagnosticadas em pacientes ainda jovens. Como não há cura, eles precisarão de acompanhamento por décadas. Hoje, os medicamentos mais modernos são os biológicos, que podem chegar a custar até 500 mil reais por ano. “Isso tem que ser alertado tanto para os planos de saúde quanto para os governos, para que se preparem. Haverá um custo muito grande. E são doenças que, aqui no Brasil, também devem ter muita subnotificação. Imagine quanta gente tem essa doença e a está tratando como verminose, intolerância alimentar ou como algo que comeu e fez mal”, questiona Quaresma. Veja também: Você já ouviu falar sobre doença de Crohn e retocolite ulcerativa?  The post Casos de doença inflamatória intestinal aumentam quase 60% em cinco anos no Brasil  first appeared on Portal Drauzio Varella.

Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/gastroenterologia/casos-de-doenca-inflamatoria-intestinal-aumentam-quase-60-em-cinco-anos-no-brasil/