Lesão do plexo braquial: neurocirurgião explica os impactos, diagnóstico e possibilidades de tratamento

Dr. Andrew Monteiro, neurocirurgião, explica como as lesões do plexo braquial podem comprometer os movimentos e a sensibilidade do membro superior, quais exames ajudam no diagnóstico e por que o tempo é um fator importante para a recuperação.

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Uma trajetória dedicada à Neurocirurgia 

Sou médico formado por uma universidade no estado do Pará, em 2019. No ano seguinte, servi por um ano como médico no Exército Brasileiro, no estado do Amapá.

Em 2021, iniciei a residência médica no Hospital Ophir Loyola, grande centro de referência em neuro-oncologia do Norte do Brasil. Após a conclusão, em 2026, comecei o fellowship em cirurgia de nervos periféricos no Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

O plexo braquial controla grande parte dos movimentos e da sensibilidade do membro superior

Infelizmente, por ser pouco conhecida, uma lesão do plexo braquial pode passar despercebida e ter um diagnóstico tardio, o que piora o resultado do tratamento cirúrgico.

O plexo braquial é formado por uma série de nervos que saem da medula espinhal no nível do pescoço. É uma estrutura complexa, na qual os nervos se agrupam, separam e emitem múltiplos ramos, como nervos terminais e colaterais.

Esses nervos dão sensibilidade e movimento a praticamente todo o membro superior. Ombros, braço, cotovelo, punho e mão são controlados por essa estrutura.

Por isso, uma lesão no plexo braquial pode causar perda de movimentos do membro superior, perda da sensibilidade ou dor crônica.

Acidentes de trânsito estão entre as principais causas da lesão

Existem múltiplas causas de lesão do plexo braquial, mas a principal, sem dúvida, são os traumas automobilísticos, em especial os acidentes de motocicleta.

Durante uma colisão de moto ou carro, os nervos do plexo braquial podem sofrer um estiramento, ou seja, são esticados. Dependendo da gravidade do trauma, esses nervos podem inclusive ser arrancados da medula.

Porém, existem muitas outras causas, como a paralisia neonatal do plexo, que ocorre nos bebês durante o trabalho de parto.

Nessa situação, diversos fatores, como o alto peso do bebê ao nascer, acima de 4 kg, diabetes gestacional e trabalho de parto prolongado, aumentam o risco de distócia dos ombros, na qual essa estrutura pode ficar presa no canal de parto, provocando o estiramento dos nervos.

Ferimentos por arma branca ou de fogo, tumores e doenças inflamatórias também podem comprometer o plexo braquial.

O diagnóstico é principalmente clínico

O diagnóstico é essencialmente clínico. Por isso, é fundamental a avaliação por um neurocirurgião especialista na área de nervos periféricos.

Contudo, alguns exames são importantes nessa investigação para estimar a gravidade e a extensão da lesão, além de permitir um estudo anatômico que ajude a escolher a melhor estratégia cirúrgica para cada paciente.

Entre eles, destaca-se a eletroneuromiografia, que permite estudar os potenciais motores e a condução sensitiva dos nervos.

A ressonância magnética do plexo braquial também é um método de imagem fundamental para o estudo anatômico, pois permite identificar quais nervos foram arrancados ou estirados durante o trauma.

Recentemente, também se expandiu muito o uso da ultrassonografia de nervos para o estudo dessas situações.

A perda funcional pode comprometer autonomia, trabalho e qualidade de vida

Os impactos podem ser inúmeros, pois o membro superior e as mãos são algumas das ferramentas mais importantes para que possamos interagir e transformar o meio em que vivemos.

Eles variam desde a perda de autonomia nas atividades da vida diária, como higiene, vestimenta, autocuidado e escrita, até o comprometimento definitivo das atividades profissionais do indivíduo.

Essa perda funcional, somada ao quadro de dor crônica intensa, está associada à redução da qualidade de vida e à maior prevalência de problemas como a depressão.

O tratamento pode incluir reabilitação e cirurgia

Existem múltiplas opções de tratamento atualmente, que variam desde fisioterapia até cirurgias.

O primeiro passo para definir qual conduta será realizada é o diagnóstico. Na sequência, precisamos acompanhar o paciente para verificar se haverá melhora até o terceiro mês após o acidente.

E por que esse tempo? Porque se espera que, nas lesões mais leves, nas quais o nervo foi apenas estirado e parou de funcionar, haja melhora espontânea.

Se, até cerca de três meses após o trauma, não houver melhora, está indicada a cirurgia. Caso se observe retorno progressivo dos movimentos, geralmente se mantém o tratamento com reabilitação, junto aos colegas da fisioterapia e terapia ocupacional.

Além disso, o tratamento da dor é algo que caminha lado a lado, pois, como mencionei, a dor é um sintoma muito importante nesses pacientes, muitas vezes até mais do que a perda de movimentos.

A cirurgia é um dos principais pilares nos casos mais graves

A cirurgia hoje é o grande pilar de tratamento dos pacientes que não apresentam melhora após o período inicial de observação ou daqueles que possuem lesões muito graves.

As opções de tratamento incluem a interposição de enxertos entre os nervos e a transferência neural, na qual utilizamos nervos saudáveis, que não irão comprometer outras regiões, até o nervo que foi lesionado.

O diagnóstico precoce pode influenciar as chances de recuperação

É fundamental entender que existe possibilidade de tratamento.

Muitos pacientes são diagnosticados com uma lesão do plexo braquial e recebem, muitas vezes, de alguns profissionais, uma sentença de que não existe mais nada a ser feito. Mas gostaria de conversar com todos aqueles que convivem com a perda de função dos braços, ombro e mão após um acidente.

Busque ajuda especializada com profissionais que sejam capacitados nessa área.

O maior determinante para a recuperação é o diagnóstico precoce e o tratamento cirúrgico adequado. A janela de tempo ideal para a cirurgia é entre três e seis meses após o acidente.

Após esse período, a cirurgia ainda pode ser realizada, mas a taxa de sucesso reduz conforme o tempo passa.