Imunoterapia e câncer colorretal: veja novos e animadores estudos
Pesquisas apresentadas em congresso europeu mostram como as alterações moleculares do tumor ajudam a escolher a terapia mais eficaz
Entre no nosso Grupo Whatsapp — Receba as principais notícias do diaParticipar O tratamento do câncer colorretal, um dos mais frequentes entre os brasileiros, avança em direção a uma abordagem cada vez mais personalizada.
Em vez de considerar apenas a localização e o estágio da doença, a oncologia já usa alterações moleculares que ajudam a explicar o comportamento de cada tumor e orientam a escolha da terapia.
Essa estratégia foi destaque no congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (Esmo, na sigla em inglês), que termina no dia 27 de outubro, em Madri, na Espanha.
Três estudos apresentados no encontro evidenciaram o potencial de tratamentos baseados em achados moleculares: um medicamento experimental direcionado à mutação KRAS G12D, a combinação de dois imunoterápicos para tumores com características genéticas específicas e uma outra imunoterapia que demonstrou bons resultados em pacientes com câncer de reto avançado.
Embora atuem por mecanismos diferentes, as três abordagens têm um ponto em comum: a identificação de características biológicas do tumor que podem tornar o tratamento mais eficaz.
Continua após a publicidade
Os resultados reforçam a importância de investigar o perfil molecular da doença para selecionar os pacientes com maior probabilidade de se beneficiar de cada terapia.
O que são as mutações no gene KRAS
O câncer colorretal é uma doença heterogênea, que pode surgir de alterações genéticas nas células do intestino. Entre elas estão as mutações no gene KRAS, responsáveis por metade dos casos.
Essas alterações podem manter ativadas as vias moleculares que propiciam o crescimento e a multiplicação celular, favorecendo a progressão do tumor.
Continua após a publicidade
Por mais de quatro décadas, a proteína KRAS foi considerada uma molécula impossível de ser atingida por medicamentos. Os inibidores da proteína vêm sendo avaliados contra tumores com alterações específicas.
Recentemente a agência regulatória norte-americana Food and Drug Administration (FDA) aprovou um inibidor de KRAS contra o câncer de pâncreas.
Remédio experimental contra a mutação KRAS G12D
No encontro da ESMO, foi apresentado um estudo fase 1 sobre uma dessas estratégias. Trata-se do medicamento experimental QTX3034, que inibe uma mutação no gene KRAS G12D.
Continua após a publicidade
A droga atua por um mecanismo alostérico, ligando-se a uma região da proteína diferente da envolvida em sua atividade. A junção não depende da formação de uma ligação química permanente.
A pesquisa reuniu 36 pacientes com câncer colorretal avançado com a mutação. Todos já haviam recebido quimioterapia. Na dose preliminar recomendada, 26% deles apresentaram redução mensurável do tumor.
A taxa de controle da doença chegou a 79%, considerando tanto os indivíduos que tiveram diminuição tumoral quanto aqueles cujo quadro permaneceu estável.
Continua após a publicidade
Por se tratar de uma pesquisa de fase 1, os resultados ainda são preliminares. Estudos adicionais serão necessários para confirmar a eficácia, aprofundar a avaliação da segurança e determinar o papel do medicamento em comparação às opções terapêuticas disponíveis.
Quando o tumor fica mais visível para o sistema imune
Outra frente de pesquisa explora alterações moleculares que tornam determinadas células cancerosas mais suscetíveis à ação do sistema imunológico. É o caso dos tumores com instabilidade de microssatélites alta ou deficiência no sistema de reparo de erros do DNA.
Em condições normais, os mecanismos de reparo corrigem erros que surgem na duplicação do material genético. Quando o sistema falha, as células acumulam alterações no DNA.
Continua após a publicidade
Em alguns tumores, esse processo aumenta a produção de sinais que permitem ao sistema imunológico reconhecê-los, favorecendo a resposta a drogas que estimulam as defesas do organismo.
+Leia também: Imunoterapia: conheça tipos, indicações e limitações
Imunoterapia pode evitar cirurgia no câncer de reto
O estudo Azur-1 fase 2 avaliou a eficácia da primeira imunoterapia para o câncer de reto avançado para pacientes com tais características. O tratamento tradicional pode envolver uma combinação de quimioterapia, radioterapia e cirurgia.
O sucesso do uso da imunoterapia abre espaço para discutir meios de evitar a extirpação do órgão.
O trabalho científico analisou o imunoterápico dostarlimabe em 154 indivíduos. Deste total, 47% alcançaram remissão completa da doença por pelo menos 12 meses. Antes mesmo deste período, outros 38 pacientes já não manifestavam sinais do câncer.
Segundo os médicos que fizeram o tratamento em hospitais, a doença ficou sem evidências por um ano em 68% dos participantes e houve redução significativa ou desaparecimento do tumor em 82%. Após um ano ou mais de seguimento, 76% não tinham evidências da doença.
O estudo trouxe dados sobre a possibilidade de evitar procedimentos cirúrgicos em parte dos pacientes. Dos participantes, 12 precisaram passar por cirurgia. No tecido retirado, não foram achadas células tumorais vivas.
Entre os pacientes que responderam favoravelmente ao tratamento, não houve registro de recidiva por mais de dois anos.
As características moleculares são essenciais para a definição da abordagem. Embora esse perfil genético não seja comum nos tumores malignos do reto, sua identificação pode representar uma vantagem para os pacientes elegíveis.
A análise molecular deve preceder à escolha do tratamento para identificar os que podem ter acesso a uma terapia diferenciada.
O dostarlimabe recebeu aprovação da agência regulatória norte-americana Food and Drug Administration (FDA) em 19 de outubro. Até o momento, não há previsão de aprovação no Brasil.
Combinação de imunoterápicos mantém benefício por cinco anos
A terceira abordagem também avaliou os benefícios a longo prazo da imunoterapia para pacientes com câncer colorretal avançado, com instabilidade de microssatélites alta ou deficiência no sistema de reparo de erros do DNA.
O estudo de fase III CheckMate 8HW analisou a eficácia por cinco anos do uso combinado dos imunoterápicos nivolumabe e ipilimumabe, em relação à monoterapia com nivolumabe. A associação de drogas reduziu em 39% o risco de morte de pacientes, em comparação àqueles que receberam nivolumabe.
A análise do acompanhamento prolongado sobre o uso combinado dessas drogas, já adotado na prática clínica, ajuda a avaliar a persistência do benefício da combinação.
A pesquisa envolveu 582 participantes: 296 receberam a combinação e 286 foram tratados apenas com nivolumabe. Passados 60 meses, a sobrevida estimada foi de 74% no grupo que recebeu os dois medicamentos, contra 62% entre aqueles tratados com a monoterapia.
Outro dado relevante é que a mediana de sobrevida global ainda não havia sido alcançada em nenhum dos grupos no momento da análise. Isso significa que mais de 50% dos participantes de cada grupo permaneciam vivos, não sendo possível definir o tempo mediano de sobrevida.
Prevenção e diagnóstico continuam essenciais
Os três estudos ilustram como o conhecimento sobre a biologia dos tumores vem modificando o desenvolvimento de drogas contra o câncer colorretal. A relevância desses avanços está relacionada à dimensão do problema.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que 53.810 brasileiros serão diagnosticados com câncer colorretal até o fim de 2026.
A prevenção segue indispensável. Tabagismo, sedentarismo, excesso de gordura corporal, consumo de bebidas alcoólicas e ingestão elevada de carnes vermelhas e processadas estão entre os fatores de risco para a doença.
Uma alimentação rica em cereais integrais, leguminosas, frutas e vegetais integra as recomendações para reduzir riscos.
O progresso das terapias baseadas em achados moleculares não elimina a importância da prevenção, do diagnóstico precoce ou dos tratamentos convencionais.
Acrescenta a perspectiva cada vez mais relevante: escolher a estratégia terapêutica a partir das características do tumor amplia as chances de controle da doença e, em determinados grupos, de remissão completa.
* Maria Ignez Braghiroli é oncologista clínica, com especialização em tumores do trato digestivo, da Oncologia D’Or, e membro do Grupo de Tumores Gastrointestinais do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP).
Manual anticâncer: 14 formas de evitar a doença
Publicidade
As notícias oriundas assim como as imagens tem como fonte de referência: https://saude.abril.com.br/ultimas-noticias
FONTE: https://saude.abril.com.br/coluna/com-a-palavra/imunoterapia-e-cancer-colorretal-veja-novos-e-animadores-estudos/