O câncer leva anos para dar sinais, e é nesse intervalo que podemos agir
Durante congresso em Hong Kong, o mundo discutiu como enxergar a doença mais cedo e cuidar melhor de quem a enfrenta
Entre no nosso Grupo Whatsapp — Receba as principais notícias do diaParticipar Muitos cânceres levam anos, às vezes décadas, para dar o primeiro sinal. Nesse tempo, as mutações se acumulam em silêncio, sem dor e sem incômodo, e a pessoa segue a vida sem saber. Foi com essa imagem que um especialista de Abu Dhabi abriu sua apresentação no World Cancer Congress, que acompanhei em Hong Kong no fim de setembro. Ele deu um nome ao intervalo: tempo invisível. E contou como os Emirados tentam torná-lo visível, com sequenciamento genômico em larga escala e exames de sangue para monitorar a população antes que os sintomas apareçam. A aposta tem lógica. Quando o tumor é identificado antes dos sintomas, as chances de cura com plenitude física e mental passam de 95%, segundo dados do A.C.Camargo Cancer Center. A genômica detecta mutações causadas por agentes de risco para o câncer. Melhor ainda seria eliminar esses fatores das nossas vidas. Continua após a publicidade O novo relatório da Organização Mundial da Saúde avaliou o avanço em 16 áreas do controle do câncer e apontou progresso moderado em apenas uma, a redução do tabagismo, com queda de 27% desde 2010. Em oito áreas o avanço é insuficiente, e na obesidade e no sedentarismo houve piora. A Declaração Mundial do Câncer propõe metas para 2035, entre elas diagnosticar 60% dos casos em estágio inicial e reduzir em 25% a mortalidade global. O que Hong Kong ensina sobre viver mais e morrer menos de câncer Hong Kong mostra o que isso significa na prática. Seus moradores vivem, em média, 86 anos, dez a mais que os brasileiros, e por isso recebem mais diagnósticos de câncer. Continua após a publicidade Ainda assim, a mortalidade ajustada por idade caiu cerca de 2,8% ao ano entre os homens e 1,7% entre as mulheres de 2014 a 2023, resultado de diagnóstico precoce e acesso a tratamento no tempo certo. Viver mais traz mais câncer, mas, com um bom programa de detecção, o câncer se torna um problema gerenciável. O Brasil precisa de sistemas que cheguem até as pessoas O Brasil precisa olhar para esses dados. Com o envelhecimento gradual da nossa população, devemos ter 85% mais casos nos próximos 20 anos, e nossas taxas de mortalidade ainda estão muito altas. Nos países de renda alta, mais de 60% dos cânceres de mama são diagnosticados nos estágios 1 e 2. Nos de renda baixa e média, são 28%. Não é questão de comportamento individual, e sim de sistemas que não facilitam a jornada da detecção precoce. Continua após a publicidade É clara a necessidade de organizar o rastreamento e o diagnóstico precoce, com alertas e convocações dos indivíduos assintomáticos nas datas certas, em vez de deixar que cada cidadão se lembre de fazer seus exames. Ensinar a população a reconhecer sinais e sintomas suspeitos também é fundamental. Quem tem sintoma não deve esperar o ano que vem: a investigação precisa começar nas semanas seguintes. Aproveitamos para levar a mensagem da Rede de Patologia Digital, que tem permitido avançar com o diagnóstico de câncer entre 3 e 8 dias nos casos suspeitos de pacientes que vivem em áreas remotas do Brasil. Continua após a publicidade Esse projeto despertou interesse em países de grande território e áreas remotas, como Índia, Canadá, Quênia e Suécia. A crise humana no tratamento do câncer Um alerta contundente foi feito pela Comissão da Lancet Oncology sobre a crise humana no câncer: avançamos em medicina de precisão e terapias inovadoras, mas falhamos em atuar sobre o sofrimento psicológico dos pacientes. Em levantamento citado no documento, 64% das pessoas com câncer disseram não ter recebido apoio psicossocial da equipe que as atende, e só 17% dos oncologistas se sentiam preparados para as necessidades emocionais e sociais dos pacientes. Continua após a publicidade A falha, segundo a comissão, é de desenho do sistema, de formação insuficiente e de incentivos, e não de falta de compaixão dos profissionais. Há consenso de que a inteligência artificial vai transformar a oncologia na próxima década. A tecnologia deve ampliar nossa capacidade de cuidar, nunca substituir presença, escuta e empatia. Se devolver tempo e atenção a médicos e enfermeiros, organizar jornadas e informar melhor pacientes e familiares, sua implementação terá valido a pena. As cinco mensagens do congresso Em resumo, são cinco as mensagens que trago do congresso: Detectar cedo muda o desfecho; Prevenir ainda é o caminho mais acessível; O Brasil precisa de sistemas que cheguem até as pessoas; A tecnologia deve encurtar distâncias; Nada disso funciona sem cuidado humano. Detectar mais cedo e cuidar melhor são, no fim, a mesma agenda. Não existe excelência oncológica sem excelência humana. Victor Piana, CEO do A.C.Camargo Cancer Center Manual anticâncer: 14 formas de evitar a doença Publicidade
As notícias oriundas assim como as imagens tem como fonte de referência: https://saude.abril.com.br/ultimas-noticias
FONTE: https://saude.abril.com.br/coluna/cancer-sem-tabu-e-com-ciencia/o-cancer-leva-anos-para-dar-sinais-e-e-nesse-intervalo-que-podemos-agir/