Quanto mais cedo, melhor: os benefícios da atividade física na infância

Estimular o movimento desde cedo não é benéfico apenas para saúde física, mas também promove o desenvolvimento mental e social das crianças.

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Atividade física não tem idade. Os primeiros estímulos de movimento podem ser realizados já nos primeiros dias de vida. E a tendência é que crianças ativas se tornem adultos ativos, com maior chance de se beneficiar do hábito por toda a vida. A atividade física na infância cumpre um papel que vai muito além do que a maioria das pessoas imagina. Não se trata apenas de “gastar energia” — ela é o alicerce do desenvolvimento integral da criança, afirma Roberto Bittar, pediatra e presidente do Núcleo de Estudos da Prática de Atividade Física e Esportes da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). “Estima-se que cerca de 20% da saúde ao longo da vida pode ser explicada por genes herdados. Isso significa que pelo menos 80% do risco de doença na vida adulta se deve ao meio ambiente, incluindo nutrição, atividades físicas, vínculos afetivos e estilo de vida”, explica Bittar.  Segundo o especialista, existe um conceito chamado alfabetização física, que envolve quatro dimensões: a competência motora (saber se mover); a dimensão afetiva (ter confiança e prazer no movimento); a cognitiva (entender o corpo e o espaço); e a social (interagir e cooperar através do movimento).  “Quando estimulamos a atividade física desde os primeiros meses de vida, estamos construindo todas essas dimensões simultaneamente”, destaca.   Principais benefícios para a saúde  Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a atividade física promove a saúde óssea, estimula o crescimento e desenvolvimento muscular saudáveis ​​e melhora o desenvolvimento motor e cognitivo de crianças e adolescentes. Outros benefícios para essa população incluem melhora da aptidão cardiorrespiratória, saúde metabólica e redução da adiposidade (acúmulo de gordura corporal).  “Um dado muito relevante: crianças que desenvolvem competência motora precoce têm probabilidade significativamente maior de se manterem ativas ao longo da vida. Ou seja, o que plantamos na infância colhemos décadas depois”, afirma o médico.  Veja também: Crianças e adolescentes podem fazer musculação?   Prevenção da obesidade infantil e outras doenças crônicas A obesidade é um problema de saúde pública. No Brasil, as taxas de obesidade infantil são mais altas que as globais, com mais de 14% das crianças menores de 5 anos com sobrepeso ou obesidade. As evidências científicas são claras em apontar a atividade física como uma estratégia eficaz na prevenção da doença.  “Uma meta-análise publicada em 2024, que analisou 204 ensaios clínicos randomizados, concluiu que a característica mais eficaz de intervenções comportamentais para prevenir a obesidade infantil foi justamente a atividade física direcionada. Uma revisão Cochrane de 2024 também demonstrou que intervenções focadas em atividade física conseguem reduzir o risco de obesidade em crianças de 6 a 18 anos a médio prazo”, exemplifica o pediatra.  Mas o impacto vai além do peso. Segundo ele, há evidência forte de que o peso e os comportamentos relacionados, como a atividade física, quando estabelecidos na infância, tendem a persistir pela vida toda, reforçando a importância de intervir nessa janela precoce.  “Crianças ativas na pré-escola, por exemplo, ganham substancialmente menos gordura subcutânea ao longo dos anos em comparação com crianças inativas. E a atividade física regular melhora a sensibilidade à insulina, o perfil lipídico e a pressão arterial, reduzindo o risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares na vida adulta”, completa Bittar.   Os impactos no desenvolvimento cognitivo e social  Os benefícios do exercício vão muito além da balança. No corpo, o movimento constrói força, equilíbrio, coordenação e saúde óssea. Mas ele também está diretamente ligado ao desenvolvimento cognitivo e social.  “Quando uma criança explora o ambiente, gerencia situações de risco ou interage com outras crianças em movimento, ela está ativando circuitos de planejamento, tomada de decisão e memória. A atividade física estimula o crescimento de neurônios, melhora a atenção e a memória de trabalho, e pesquisas mostram correlação direta entre desenvolvimento motor precoce e desempenho futuro em leitura e matemática”, afirma Bittar.  Na saúde mental, a atividade física funciona como um cuidado de baixo custo e alto impacto — com benefícios simultâneos sobre sono, autoestima, impulsividade e socialização. “Ela não substitui psicoterapia, suporte familiar ou, quando necessário, medicação. Mas é um componente valioso de qualquer cuidado integrado.” Já no campo social, de acordo com o especialista, o brincar ativo ensina cooperação, negociação e resolução de conflitos. “O faz de conta, a brincadeira simbólica, permite que a criança pratique empatia, gerencie emoções e construa vínculos, processando papéis sociais e aprendendo a se colocar no lugar do outro”, detalha.  E há um detalhe importante que a ciência mais recente destaca: não basta se mover, importa como e o quão variado é esse movimento.  “Quanto maior a diversidade de atividades físicas, maior a ativação de regiões frontais do cérebro associadas ao raciocínio e ao aprendizado em crianças e adolescentes. O movimento, em resumo, é uma das ferramentas mais poderosas — e mais subestimadas — que temos para promover saúde integral na infância e na adolescência.” Veja também: Por que as crianças precisam brincar?   Quanto tempo de atividade é recomendado? O movimento deve ser estimulado desde o nascimento. Os dois primeiros anos de vida, inclusive, são a janela com mais oportunidades de impacto no desenvolvimento, segundo o pediatra. Ele detalha as orientações por idade:  0 a 6 meses: nessa fase, é recomendado fazer o chamado tummy time (o tempo de bruços). Os pais podem começar aos poucos, com 1 a 2 minutos após cada troca de fralda, e ir aumentando gradativamente;  6 a 12 meses: a recomendação é maximizar o tempo de chão livre e minimizar equipamentos restritivos (cadeirinhas, carrinhos e cercadinhos). Andadores são contraindicados pelo risco de acidentes e por não estimular a marcha e equilíbrio. O tempo sedentário em equipamentos não deve ultrapassar uma hora consecutiva;  12 a 24 meses: a recomendação passa para pelo menos 180 minutos diários de atividade física de qualquer intensidade. Isso inclui toda a exploração ativa: andar, subir, descer, empilhar blocos, brincar com massinha, transferir objetos. Variar texturas no chão — tapete, espuma, almofadas — desafia o equilíbrio e o sistema proprioceptivo; a partir dos 2 anos: mantêm-se os 180 minutos diários, com inclusão progressiva de atividade moderada a vigorosa. A partir dos 3 anos, pelo menos 60 minutos devem ser de atividade enérgica; crianças e adolescentes de 5 a 17 anos:  a OMS recomenda pelo menos 60 minutos diários de atividade moderada a vigorosa, predominantemente aeróbica, com fortalecimento muscular e ósseo pelo menos três vezes por semana. “Vale sempre lembrar: fazer alguma atividade é melhor do que não fazer nenhuma. O importante é criar o hábito”, ressalta. The post Quanto mais cedo, melhor: os benefícios da atividade física na infância first appeared on Portal Drauzio Varella.

Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/atividade-fisica/quanto-mais-cedo-melhor-os-beneficios-da-atividade-fisica-na-infancia/