Ansiedade no ambiente corporativo: quando a pressão do trabalho ultrapassa o limite saudável

Dra. Luana Barros explica como a cultura da alta performance, a hiperconectividade e as cobranças constantes têm impactado a saúde mental dos profissionais, quais são os sinais de alerta e quando é hora de buscar ajuda.

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Ia

 

Sou médica pela Universidade do Estado do Pará (UEPA) e médica de família pela Universidade Federal do Pará (UFPA). No início de 2023, me mudei para São Paulo e continuei atuando como médica de família, onde notei que cerca de 60-70% das queixas na atenção primária se relacionam com questões de saúde mental. Decidi me qualificar nisso e, em fevereiro de 2025, passei na residência médica de Psiquiatria na Universidade Nove de Julho (UNINOVE), onde atualmente estou cursando o segundo ano.

A cultura da alta performance e seus impactos na saúde mental

Noto que hoje impera a cultura da alta performance, na qual há uma cobrança constante por resultados, mas também a expectativa por uma performance extraordinária e pela disponibilidade ininterrupta. A normalização dessa perspectiva empurra os indivíduos para além dos seus aspectos biológicos e psicológicos, manifestando-se como o fenômeno do presenteísmo: o paciente está fisicamente (ou digitalmente) ativo, mas mentalmente exaurido e improdutivo.

Esse contexto pode ser a porta de entrada para o esgotamento físico e mental completo, acompanhado de sentimentos de ineficácia, cinismo em relação à carreira e distanciamento afetivo.

A diferença entre pressão saudável e ansiedade patológica

Sim, existe essa diferença. A pressão normal causa um pico de adrenalina que aumenta o foco, a velocidade de raciocínio e a produtividade. O sono é reparador, a vida social, familiar e o autocuidado (alimentação e exercícios) são mantidos. A curto prazo, pode gerar cansaço físico ao fim do dia, mas, a longo prazo, constrói resiliência.

Já na ansiedade patológica, a angústia e o estado de alerta tornam-se desproporcionais aos estímulos e ultrapassam os limites do contexto laboral. Há declínio da funcionalidade e o trabalho passa a ser encarado como um ambiente que gera pavor e invalidação pessoal, comprometendo a estrutura psíquica e biológica do indivíduo.

Os primeiros sinais de que a ansiedade saiu do controle

Os prejuízos na funcionalidade são inicialmente sutis: o paciente começa a procrastinar por medo de falhar, comete erros por falta de concentração, esquece compromissos simples e se sente constantemente sobrecarregado, mesmo diante de tarefas rotineiras.

Podem ainda surgir sintomas iniciais como irritabilidade, sono não reparador, fadiga e indisposição ao longo do dia. Posteriormente, podem aparecer alterações mais importantes no sono, no apetite, na cognição e sintomas somáticos que durem pelo menos de duas a três semanas.

Metas, prazos e hiperconectividade aumentam o risco de ansiedade

O imediatismo e a cobrança diária e ininterrupta mantêm os níveis de cortisol cronicamente elevados, provocando hiperatividade da amígdala cerebral e, consequentemente, um estado de ansiedade generalizada e hipervigilância.

Como agravantes para esse contexto, emergem a hiperconectividade e a consolidação do regime de home office ou dos modelos híbridos, provocando em muitos pacientes a sensação de "plantão permanente". O recebimento de mensagens profissionais fora do horário de expediente, por exemplo, gera um estado de alerta constante, já que o sistema nervoso central interpreta isso como uma ameaça contínua e impede o relaxamento real, retroalimentando a ansiedade.

Os profissionais mais vulneráveis ao adoecimento emocional

Do ponto de vista organizacional e segundo o modelo de estresse de Karasek, os cargos mais vulneráveis são aqueles que combinam alta demanda com baixo controle.

Podemos citar três categorias: cargos de alta responsabilidade e baixa autonomia (gerentes, coordenadores e supervisores); profissões de atendimento ao público e linha de frente (profissionais de saúde, operadores de call center, analistas de suporte ao cliente e professores); e cargos com culturas de imediatismo e métrica rígida (setor financeiro, tecnologia da informação e equipes de vendas com metas agressivas).

O tratamento exige uma abordagem multidisciplinar

É necessária uma intervenção terapêutica estruturada com abordagem multidisciplinar.

Na fase aguda, pode-se lançar mão de psicofármacos como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), visando à estabilização biológica.

Na fase intermediária, a psicoterapia, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental, é fundamental, visando à reestruturação cognitiva, por meio da identificação de gatilhos corporativos, do estabelecimento de limites saudáveis (aprender a dizer "não") e da separação da identidade pessoal do cargo laboral.

Na fase de manutenção, o foco é o manejo do estilo de vida, com regulação rigorosa do ciclo sono-vigília, prática de atividade física aeróbica regular e retirada estratégica de estimulantes em excesso, como a cafeína e o uso de telas antes de dormir.

A fase de sustentabilidade envolve o manejo ambiental e a modificação da relação com o trabalho, desde desligar notificações de e-mail e aplicativos de mensagens profissionais fora do expediente até decisões mais complexas, como solicitar uma realocação de área, por exemplo.

Importante ressaltar que o afastamento (licença médica) é uma ferramenta clínica e serve para retirar o estímulo estressor temporariamente, permitindo que a medicação e a terapia comecem a fazer efeito em um ambiente seguro e controlado.

Buscar ajuda é um ato de cuidado com a própria saúde

Em primeiro lugar, validar e acreditar no sofrimento do paciente é fundamental.

O que você, paciente, está sentindo não é fraqueza, não é falta de competência e não é frescura... é exaustão biológica. O seu cérebro e o seu corpo têm um limite de produtividade e podem, sim, ficar saturados.

Quando você começa a ter insônia crônica, palpitações, crises de choro antes de ir trabalhar ou aquela angústia paralisante no domingo à noite, o seu organismo não está falhando — ele está gritando por socorro.

Lembrem-se sempre: ajuda não é uma sentença, é um recurso; o trabalho é substituível, a sua saúde não; quanto mais se espera, mais difícil e complexo é o tratamento.

Então, se a pressão cruzou a linha, não enfrente isso sozinho. Busque ajuda.