Prevenção de transtornos mentais: especialista orienta sobre cuidados no ambiente de trabalho
Dra. Fernanda Estanislau explica como hábitos saudáveis, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e um ambiente corporativo acolhedor podem reduzir o risco de transtornos mentais e melhorar a qualidade de vida.
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Sou médica, casada, mineira, amo pets (tenho três cachorros), adoro ler, viajar, cuidar do meu lar, estar próxima da família e dos amigos. Atualmente, resido e trabalho em São Paulo (capital), mas trago uma bagagem de dez anos morando e trabalhando nos estados do Pará, Amapá e Amazonas.
Escolhi a medicina por ser encantada com a possibilidade de ajudar ao próximo através do cuidado, sendo na Universidade de Uberaba (UNIUBE) no ano de 2016 que conclui minha graduação. Já a psiquiatria me fisgou por ser uma área complexa, muitas vezes mal compreendida, que não possui uma “receita de bolo” para todos, pelo contrário, cada paciente é único e como tal necessitam de tratamento individualizado. Sendo assim, fiz pós-graduação em psiquiatria na CENBRAP (Centro Brasileiro de Pós-Graduações Ltda), turma de Ribeirão Preto-SP, e há mais de seis anos sigo acolhendo, proporcionando um atendimento humanizado, empático, com escuta e atenção totalmente voltada para meus pacientes, buscando atualização constante para oferecer o melhor acompanhamento àqueles que me procuram em sofrimento.
A importância da prevenção da saúde mental no ambiente de trabalhoO debate sobre saúde mental tem ganhado espaço em todos os ambientes e, embora estejamos longe do cenário ideal, já percebemos uma clara diminuição do preconceito. Há uma aceitação maior de que o sofrimento psíquico é uma doença que exige cuidado e tratamento específico. Como os transtornos mentais envolvem fatores genéticos, familiares, ambientais, neurobiológicos, entre outros, o ambiente corporativo funciona como uma via de mão dupla: pode ser tanto um fator de proteção quanto um potente estressor no desenvolvimento de patologias psiquiátricas.
Se analisarmos nossa rotina, passamos mais tempo no trabalho do que em nosso próprio lar. Mesmo quem atua em regime remoto dedica a maior parte do dia às demandas profissionais. Portanto, a preocupação com a saúde mental nesse ambiente é mais do que justificada. Um colaborador inserido em um local harmonioso produz mais, constrói relações amistosas, tem clareza e confiança para tomar decisões e mantém o foco no que se propõe a fazer. Esse equilíbrio reflete positivamente em sua performance e atua como um escudo protetor para a sua mente.
Por outro lado, um ambiente marcado por metas inatingíveis, cobranças excessivas, ausência de diálogo, ameaças frequentes, assédio moral e jornadas de trabalho extrapoladas torna-se um gatilho altamente estressor. Fica evidente, assim, a urgência de abrir espaço para a prevenção de transtornos mentais dentro das empresas. Infelizmente, na minha prática clínica, o que observo diariamente é que, apesar de ter havido melhora, ainda estamos muito distantes do que seria o ideal.
Os primeiros sinais de alerta não devem ser ignoradosOs sinais de alerta relacionados à saúde mental manifestam-se de forma individualizada, variando em intensidade e características de acordo com cada indivíduo.
Entre as manifestações psicológicas e cognitivas mais comuns, destaco:
- preocupação excessiva;
- sentimento de incapacidade;
- queda da produtividade;
- dificuldade de foco e atenção;
- agitação mental;
- esquecimentos;
- irritabilidade;
- angústia;
- medo excessivo;
- tristeza persistente;
- isolamento.
Já entre os sintomas físicos, estão:
- taquicardia;
- dispneia (falta de ar);
- sensação de "bolo na garganta";
- tremores;
- tensão muscular;
- insônia;
- alteração de apetite, para mais ou para menos;
- fadiga crônica.
Todos esses sintomas podem ser indicadores de sofrimento psíquico, a depender da frequência, intensidade e impacto negativo na rotina. Diante de prejuízos nos variados campos da vida (pessoal, familiar, profissional e social), o sofrimento psíquico deixa de ser um estresse passageiro e passa a exigir cuidado individualizado e avaliação especializada.
Hábitos diários que fortalecem a saúde mentalMesmo diante de uma rotina de trabalho intensa, é indispensável manter hábitos de autocuidado que incluem alimentação balanceada, atividade física regular, sono de qualidade e momentos de lazer.
Quanto à alimentação, estudos comprovam a relação direta do sistema digestivo com o funcionamento cerebral, mostrando que a qualidade do que comemos faz toda a diferença. Já a atividade física regular ajuda a reduzir a ansiedade, além de melhorar a disposição, o foco e a qualidade do sono, sem contar os inúmeros benefícios físicos e biológicos.
Dedicar um tempo para se desligar do trabalho e praticar uma atividade prazerosa também é de grande importância.
Para o descanso, práticas como evitar telas no mínimo uma hora antes de deitar, reduzir o consumo de estimulantes (como a cafeína), evitar líquidos próximo ao horário de dormir, ir ao banheiro antes de deitar e ir para a cama apenas quando estiver com sono — evitando usá-la como local de trabalho — compõem a chamada higiene do sono. Esses hábitos refletem diretamente na qualidade do descanso e, consequentemente, na disposição, estabilidade do humor e desempenho diário.
Adotar essas medidas é fundamental para manter a saúde mental nutrida e garantir mais qualidade de vida.
O equilíbrio entre vida pessoal e profissional é essencialSaber não viver no limite é algo extremamente importante; buscar esse equilíbrio é, inclusive, uma questão de autoconhecimento e inteligência emocional.
É preciso entender que nós, como pessoas, somos compostos por diversas facetas: somos filhos, irmãos, amigos, cônjuges, pais e também profissionais. É esse conjunto que nos caracteriza. Sendo assim, priorizar apenas uma dessas partes é um erro, pois viver no limite de um único papel destrói o nosso bem-estar.
A inteligência emocional é a chave para distribuir nossa energia de forma justa entre todas as nossas faces. Quando negligenciamos uma parte para focar excessivamente em outra — como priorizar a carreira e esquecer o lado pessoal —, geramos um colapso emocional.
Precisamos acolher todas as nossas faces, em vez de exaltar umas e deixar outras ao relento. Devemos buscar o equilíbrio entre elas, pois é isso que nos guiará por uma jornada com menos sofrimento psíquico.
O papel das lideranças na prevenção dos transtornos mentaisComo dito anteriormente, o trabalho carrega uma dualidade profunda: pode ser um fator protetor — promovendo propósito, dignidade e realização — ou um elemento estressor, gerando adoecimento, absenteísmo e alta rotatividade.
Diante disso, cabe às lideranças e às organizações assegurar um ambiente corporativo psicologicamente seguro. Essa construção exige um olhar atento, escuta ativa, metas tangíveis, carga de trabalho justa e canais transparentes de diálogo.
Tornar o trabalho um vetor de proteção é a escolha mais produtiva e sustentável para todos. Afinal, a jornada profissional não se resume a uma troca de força de trabalho por salário; ela é parte central da identidade e do bem-estar do indivíduo.
Para que essa realidade se consolide, é indispensável que as lideranças também cuidem de sua própria saúde mental. Líderes que desenvolvem inteligência emocional servem como exemplo, gerenciam suas equipes com maior empatia e cultivam um clima organizacional harmônico, saudável e de alto desempenho.
Por que ainda é tão difícil buscar ajuda psiquiátrica?Apesar de a saúde mental ser um tema discutido de forma cada vez mais aberta, ainda há muito preconceito. Muitos entendem o sofrimento psíquico como "frescura" ou "falta de vergonha na cara", ou pensam que "logo tudo passa e é somente uma fase ruim". Com isso, o cuidado nunca se torna uma prioridade e é colocado de lado, o que apenas agrava os transtornos.
De forma geral, as pessoas não têm a visão de que os transtornos mentais devem ser tratados como qualquer outra doença física, necessitando de avaliação especializada, acolhimento, orientações e, por vezes, do uso de medicação. Um indivíduo fazer acompanhamento médico especializado para tratar hipertensão, diabetes ou gripe não causa estranheza, mas tratar depressão, ansiedade ou outros transtornos mentais ainda gera muito espanto.
Acredito também que, muitas vezes, falta conhecimento e autoconhecimento para perceber que os sintomas persistentes — que se manifestam e prejudicam os mais variados campos da vida — são de ordem psíquica, e não algo orgânico.
Por vezes, o sofrimento psíquico se manifesta através de sintomas físicos persistentes, os chamados sintomas psicossomáticos, como cansaço, dores musculares e de cabeça sem causa física, problemas gastrointestinais, além de alterações no sono e no apetite. Sendo assim, desenvolver o autoconhecimento ajuda diretamente na identificação desses sinais e na busca por ajuda profissional.
Uma mensagem para quem deseja cuidar da saúde mentalBusque viver de forma equilibrada, não perfeita. Inclua na sua rotina doses diárias de atividade física, alimentação saudável, espiritualidade, autoconhecimento, trabalho e lazer.
Lembre-se: alegrias e conquistas fazem parte da vida, assim como problemas e frustrações. Saber lidar com as adversidades exige resiliência.
Porém, se mesmo buscando o equilíbrio você sentir que não consegue trilhar esse caminho sozinho, procure acolhimento especializado.