Parurese: o transtorno que dificulta urinar perto de outras pessoas

Ansiedade, medo do julgamento e falta de privacidade podem bloquear a micção e afetar a rotina de quem convive com a parurese, conhecida como bexiga tímida.

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Fazer xixi no banheiro do trabalho ou da universidade é algo natural e trivial para a maioria das pessoas. Mas não para todas. Existe uma condição chamada parurese, conhecida popularmente como “bexiga tímida”, que faz homens e mulheres terem dificuldade ou até não conseguirem urinar em locais fora de casa. E não pense que isso é raro. Uma revisão sistemática sobre o tema, publicada no Journal of Psychosomatic Research em 2017, revelou que entre 2,8% e 16,4% da população sofrem desse transtorno. Considerando apenas a população adulta, isso representa milhões de indivíduos ao redor do mundo.  

Por que algumas pessoas não conseguem urinar em público? A parurese está ligada à ansiedade e à ansiedade social, embora nem todas as pessoas que apresentam a condição se enquadrem nesses diagnósticos. Segundo Livia Barreto Silva, psicóloga e mestre em psicologia social e do desenvolvimento pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), a pessoa tem a percepção de estar sendo observada ou avaliada enquanto usa o banheiro. “Essa sensação ativa a resposta de alerta do organismo, aumentando a tensão muscular justamente em um momento em que o corpo precisa relaxar para urinar”, explica. Mariana Ramos, psicóloga clínica, neuropsicóloga e professora do curso de psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, lembra que urinar é uma função fisiológica automática, mas que depende de um delicado equilíbrio entre o cérebro, o sistema nervoso e a musculatura da bexiga. “Quando nos sentimos seguros, o cérebro permite o relaxamento da musculatura necessária para o esvaziamento da bexiga. Entretanto, diante de uma situação percebida como ameaçadora ou constrangedora, nosso organismo ativa o chamado modo de sobrevivência, liberando substâncias como a adrenalina”, afirma Ramos. Nesse estado, segundo a especialista, o corpo se prepara para lutar ou fugir. Isso gera aumento da tensão muscular, dificultando funções que não são consideradas prioritárias naquele momento. Com isso, a musculatura responsável pela micção pode permanecer contraída, tornando difícil ou até impossível urinar.   Quando a bexiga “trava” Os sintomas da parurese costumam aparecer em locais com pouca privacidade ou com muitas pessoas, como banheiros públicos, no trabalho ou na universidade, além de situações em que há outras pessoas aguardando para utilizar o banheiro. E isso pode gerar problemas. “A parurese pode comprometer significativamente a qualidade de vida. Muitas pessoas passam a evitar viagens, reuniões prolongadas, eventos sociais ou qualquer situação em que precisem utilizar um banheiro compartilhado”, destaca Silva. Segundo a psicóloga, também é comum que pessoas com a condição diminuam a ingestão de líquidos para evitar a necessidade de urinar, o que pode trazer prejuízos físicos, além de aumentar o sofrimento emocional, o isolamento e as limitações na rotina. Veja também: Entenda por que você não deve segurar xixi   Segurar a urina oferece riscos à saúde física Além dos impactos emocionais e sociais, a parurese também pode trazer consequências físicas quando a pessoa passa longos períodos segurando a urina. Segundo Osni Silvestri, urologista do Hospital Vita, em Curitiba (PR), esse hábito pode enfraquecer a musculatura da bexiga e favorecer sua dilatação ao longo do tempo. “Nessas pessoas que seguram demais a urina, se isso acontece vez ou outra, não há problema para a saúde. Mas, quando isso ocorre com frequência, a pessoa pode desenvolver problemas mais para frente, porque a bexiga pode ficar mais frágil, aumentar, dilatar e enfraquecer sua musculatura, levando à possibilidade de complicações”, explica. Entre as complicações, estão o risco de infecções urinárias recorrentes e, em situações mais graves e prolongadas, problemas renais. E quantas vezes ir ao banheiro diariamente? De acordo com Silvestri, considerando uma pessoa que ingere entre 1,5 e 2 litros de líquidos por dia, é esperado que ocorra uma micção a cada três ou quatro horas.   Tratamento da parurese A parurese tem tratamento e a bexiga pode perder parte da timidez com o acompanhamento adequado. A principal abordagem utilizada é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), linha da psicologia que busca identificar padrões que geram sofrimento e criar estratégias práticas para modificá-los. “Durante o tratamento, o paciente aprende a identificar pensamentos automáticos que alimentam a ansiedade, como: ‘todos estão me observando’, ‘vou passar vergonha’ ou ‘nunca vou conseguir’. Esses pensamentos são trabalhados para que se tornem mais realistas e menos ameaçadores”, explica Ramos. Segundo Silva, outra estratégia utilizada é a exposição gradual, feita sempre de maneira planejada e respeitando o ritmo de cada pessoa. “Aos poucos, o cérebro aprende que essas situações não representam uma ameaça real, reduzindo a resposta de ansiedade ao longo do tempo”, afirma.   Quando procurar ajuda A parurese não deve ser motivo de constrangimento. Segundo os especialistas, buscar acompanhamento psicológico é recomendado quando a condição passa a causar sofrimento ou interfere na rotina e nas atividades cotidianas. “Por trás da dificuldade de usar um banheiro público pode existir alguém que enfrenta diariamente o medo do julgamento, a ansiedade e a sensação de não ter controle sobre o próprio corpo. Falar sobre saúde mental também é reconhecer essas dificuldades invisíveis e compreender que pedir ajuda não é motivo de vergonha”, destaca Ramos. Veja também: Fazer xixi sentado é melhor opção para a saúde?The post Parurese: o transtorno que dificulta urinar perto de outras pessoas first appeared on Portal Drauzio Varella.

Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/saude-mental/parurese-o-transtorno-que-dificulta-urinar-perto-de-outras-pessoas/
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