Julho Amarelo: diagnóstico precoce das hepatites virais pode evitar cirrose e câncer de fígado
Dra. Gabriela Justino, infectologista, explica por que essas infecções podem permanecer silenciosas durante anos e reforça a importância da vacinação, da testagem e do acesso ao tratamento.
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Sou médica formada pelo Centro Universitário do Estado do Pará e especialista em Infectologia, com residência médica realizada no Hospital Universitário João de Barros Barreto. Também tenho pós-graduação em Controle de Infecções Hospitalares e atualmente curso mestrado na Universidade Federal do Pará.
Minha atuação envolve tanto o atendimento de pessoas com doenças infecciosas, incluindo HIV, infecções sexualmente transmissíveis e hepatites virais, quanto o trabalho em controle de infecções dentro dos hospitais.
Escolhi a Infectologia porque é uma especialidade muito ampla, que reúne investigação clínica, prevenção, saúde pública e acompanhamento longitudinal. É uma área em que o diagnóstico correto e realizado no momento adequado pode mudar completamente a história de uma pessoa.
O Julho Amarelo amplia a conscientização sobre prevenção, vacinação e testagemO Julho Amarelo amplia a discussão sobre prevenção, vacinação, testagem e acesso ao tratamento das hepatites virais. A campanha é importante porque muitas pessoas convivem com hepatite B ou C, por exemplo, sem saber.
Como essas infecções podem permanecer durante anos sem sintomas, o diagnóstico frequentemente ocorre apenas quando já existe comprometimento importante do fígado. A testagem é a única forma de confirmar a infecção em uma pessoa que não apresenta manifestações clínicas.
No Brasil, os testes para as hepatites B e C estão disponíveis gratuitamente no SUS, inclusive em Unidades Básicas de Saúde.
O diagnóstico precoce permite iniciar o acompanhamento antes do aparecimento de cirrose, insuficiência hepática ou câncer de fígado. Também possibilita orientar medidas para reduzir a transmissão e avaliar familiares, parceiros e outras pessoas que possam ter sido expostas.
Por isso, não devemos esperar que surjam sintomas para pensar em testagem.
As diferenças entre as hepatites virais A, B, C, D e EAs hepatites virais são classificadas principalmente em A, B, C, D e E. Todas podem causar inflamação no fígado, mas apresentam formas de transmissão, evolução e medidas preventivas diferentes.
A hepatite A é transmitida principalmente pela via fecal-oral, por água ou alimentos contaminados e pelo contato próximo com uma pessoa infectada. É uma infecção aguda, ou seja, não se torna crônica. A maioria das pessoas se recupera completamente, embora formas graves possam ocorrer, especialmente em adultos mais velhos ou em pessoas com doença hepática prévia. Existe vacina para sua prevenção.
A hepatite B é transmitida pelo contato com sangue, sêmen e outros fluidos corporais, podendo ocorrer por relações sexuais sem proteção, compartilhamento de objetos contaminados, acidentes com material biológico e transmissão da mãe para a criança. Pode ser aguda ou tornar-se crônica, com risco de cirrose e câncer de fígado. A principal forma de prevenção é a vacinação.
A hepatite C é transmitida principalmente pelo contato com sangue contaminado. Atualmente, destacam-se o compartilhamento de seringas, agulhas ou outros instrumentos, além de procedimentos realizados sem esterilização adequada. A transmissão sexual é menos frequente, mas pode acontecer, especialmente quando há contato com sangue. A hepatite C apresenta elevada possibilidade de cronificação, mas hoje pode ser curada com medicamentos antivirais.
A hepatite D, também chamada de hepatite Delta, somente ocorre em pessoas que também apresentam infecção pelo vírus da hepatite B. Ela pode provocar doença hepática mais agressiva.
Já a hepatite E é transmitida principalmente por água e alimentos contaminados. Em geral, provoca uma infecção aguda e autolimitada, mas merece atenção especial em gestantes e em pessoas imunossuprimidas, nas quais pode apresentar evolução mais grave.
As hepatites virais podem evoluir sem provocar sintomasQuando dizemos que as hepatites virais são silenciosas, significa que a pessoa pode estar infectada e apresentar exames alterados ou lesões progressivas no fígado sem sentir nada.
Quando aparecem, os sintomas podem ser pouco específicos, como cansaço, mal-estar, falta de apetite, náuseas e desconforto abdominal. A icterícia, que deixa a pele e os olhos amarelados, não está presente em todos os casos e não deve ser considerada necessária para suspeita de hepatite.
Na hepatite B e, principalmente, na hepatite C, esse período silencioso pode durar muitos anos. A pessoa continua sua rotina normalmente, mas a inflamação persistente pode provocar fibrose, cirrose e aumentar o risco de câncer de fígado.
Esse comportamento reforça a importância de oferecer o teste mesmo para pessoas aparentemente saudáveis, sobretudo quando existe histórico de exposição ou quando nunca houve uma testagem anterior.
Quem deve priorizar a testagem para hepatites B e CA testagem deve ser considerada para todas as pessoas que nunca realizaram exames para hepatites B e C, além de ser especialmente importante para gestantes e para quem teve alguma possível exposição a sangue ou fluidos corporais.
O Ministério da Saúde orienta ampliar a busca pelo diagnóstico. Não devem deixar de realizar a testagem pessoas que receberam transfusão de sangue ou hemoderivados antes da implantação dos testes de triagem mais modernos; que realizaram cirurgias ou procedimentos invasivos em condições duvidosas; ou que compartilham ou já compartilharam seringas, agulhas ou outros instrumentos, inclusive para uso de drogas, tatuagens e piercings.
Também estão incluídos profissionais expostos a material biológico, pessoas em hemodiálise, pessoas privadas de liberdade, pessoas vivendo com HIV ou outras infecções sexualmente transmissíveis, parceiros e familiares de pessoas com hepatite B ou C e filhos de mães que apresentavam hepatite durante a gestação.
No caso da hepatite D, a investigação é particularmente importante nas pessoas com hepatite B que vivem ou viveram na região amazônica, devido à maior circulação do vírus Delta nesta região.
Como é realizado o diagnóstico das hepatites viraisO diagnóstico começa com exames realizados com amostra de sangue. Para as hepatites B e C, podem ser utilizados testes rápidos como forma de triagem.
Na hepatite B, a avaliação normalmente envolve marcadores sorológicos. A combinação desses resultados permite diferenciar infecção ativa, infecção passada, susceptibilidade e resposta à vacinação. Quando existe suspeita de infecção ativa, outros exames, incluindo a carga viral do vírus B, ajudam a determinar a fase da doença e a necessidade de tratamento.
Para a hepatite C, o primeiro exame geralmente pesquisa anticorpos contra o vírus, o anti-HCV. Um resultado reagente indica que houve contato com o vírus, mas não confirma sozinho que a infecção continua ativa. Por isso, é necessário realizar um teste molecular, o HCV-RNA, para detectar o material genético do vírus e confirmar a infecção atual.
Na hepatite A, a confirmação de infecção recente é feita principalmente pela pesquisa do anticorpo IgM contra o vírus A.
Além de identificar o vírus, a investigação inclui exames para avaliar o funcionamento do fígado, como transaminases, bilirrubinas, albumina e testes de coagulação. Dependendo do caso, também são utilizados ultrassonografia, elastografia ou outros métodos para avaliar fibrose, cirrose e possíveis complicações.
Os avanços no tratamento das hepatites viraisA maior transformação ocorreu no tratamento da hepatite C. Hoje utilizamos antivirais de ação direta, administrados por via oral. São esquemas mais simples, bem tolerados e capazes de curar mais de 95% das pessoas tratadas.
Esses medicamentos substituíram tratamentos antigos, que eram mais prolongados e causavam mais efeitos adversos.
Na hepatite B, ainda não falamos em cura para a maioria das pessoas, mas os antivirais atuais conseguem controlar a multiplicação do vírus de forma muito eficaz. Isso reduz a inflamação no fígado, diminui a progressão para cirrose e reduz o risco de complicações.
Nem toda pessoa com hepatite B precisa iniciar medicação imediatamente, mas todas devem ser avaliadas e acompanhadas para definir o momento adequado de tratar.
As hepatites A e E geralmente recebem tratamento de suporte, com acompanhamento clínico e atenção aos sinais de gravidade.
O principal avanço, portanto, não está apenas nos medicamentos, mas na possibilidade de diagnosticar mais cedo, avaliar o grau de comprometimento do fígado e oferecer uma abordagem individualizada.
O primeiro passo após o diagnóstico de uma hepatite viralÉ necessário confirmar qual vírus está envolvido, verificar se a infecção está ativa e avaliar como está o fígado. A consulta também permite investigar outras condições, revisar medicamentos e consumo de álcool, conferir a vacinação contra as hepatites A e B e orientar a testagem de parceiros ou familiares quando indicada.
Quem recebe o diagnóstico de hepatite C pode esperar, na maioria dos casos, um tratamento oral de curta duração e com elevada probabilidade de cura.
Na hepatite B, o acompanhamento permite identificar se há necessidade de medicação e manter o vírus controlado, prevenindo complicações. O SUS disponibiliza testagem, acompanhamento e tratamento das hepatites B e C.
O mais importante é não adiar a avaliação por medo ou pela ausência de sintomas. Quanto mais cedo a infecção é identificada, maior é a possibilidade de proteger o fígado, evitar a transmissão e conduzir o tratamento com segurança.
O conteúdo foi organizado em intertítulos jornalísticos, mantendo as informações e a perspectiva da Dra. Gabriela Justino.