Sífilis: especialista explica por que a doença já é considerada uma epidemia persistente no Brasil
Dra. Brenda Lira, infectologista, explica os fatores por trás do aumento dos casos, as fases da infecção, os desafios para o diagnóstico precoce e a importância da testagem regular.
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Olá, sou médica formada pela Universidade Federal do Pará. Também fiz residência em Infectologia pela UFPA, no Hospital Universitário João de Barros Barreto, minha casinha amada.
Atualmente, estou no mestrado profissional pela UFPA, trabalho como professora em uma faculdade de Medicina e atuo pelo SUS no CTA Belém e no CASADIA.
Por que a sífilis ainda não foi controlada no Brasil?De acordo com os dados, a sífilis sempre esteve por aí. Entretanto, houve um aumento importante de sua incidência desde 2022/2024, principalmente entre adultos jovens.
Apesar de parecer ser uma infecção relativamente simples de ser diagnosticada, ela é uma IST complexa, porque reúne vários pontos, como a alta taxa de transmissão, falhas no diagnóstico e na prevenção, além da questão socioeconômica, que vai impactar diretamente no acesso aos serviços de saúde, no conhecimento do próprio corpo, na percepção do que pode estar anormal ou até mesmo na rotina de trabalho, que pode dificultar o acesso desse paciente aos serviços de saúde.
A dificuldade no controle mora justamente aí: não pela dificuldade de cura, mas pela dificuldade no cuidado integral dos pacientes, desde a prevenção até o diagnóstico, tratamento e seguimento, além da captação desses pacientes e de suas parcerias, limitando, assim, toda a cadeia de transmissão.
Há uma importância muito grande no fortalecimento da atenção primária nessa jornada de combate à sífilis.
As diferentes fases da sífilisA sífilis é uma infecção que tem suas fases bem estabelecidas.
Quando falamos de sífilis primária, estabelecendo um tempo, entre 10 e 60 dias após a exposição sexual pode haver o surgimento de sintomas, especialmente da lesão inicial chamada cancro duro, uma úlcera indolor, geralmente única, que corresponde ao local de inoculação da bactéria da sífilis, o Treponema pallidum.
Essa úlcera pode estar presente mais comumente na região genital, peniana ou vaginal, anal ou oral, nos lábios ou na mucosa. Também pode haver uma linfonodomegalia na região inguinal.
Um ponto importantíssimo nesta fase é que essa lesão tende a desaparecer espontaneamente. Isso não significa cura, mas que a infecção fica “mascarada” e continua sendo transmitida.
A sífilis secundária corresponde à disseminação dessa infecção, saindo da região da úlcera e acometendo sistemicamente o organismo do paciente. Pode haver febre, linfonodos cervicais e inguinais e exantemas difusos, que são manchas vermelhas que acometem principalmente as palmas das mãos e as plantas dos pés. Essas manifestações também podem desaparecer espontaneamente.
Temos ainda a fase latente, que é bastante frequente. Ela ocorre quando não há nenhum sinal ou sintoma e o paciente, caso não faça testagens de rotina para ISTs, não irá desconfiar que possui a infecção.
Essa fase pode ser dividida entre recente e tardia. Se for uma infecção com menos de um ano, é considerada recente. A tardia ocorre quando a infecção existe há mais de um ano.
A sífilis terciária é a fase tardia. Pode ocorrer após anos ou décadas da infecção e representa um estágio bastante grave do quadro.
Muito mais do que a disseminação da bactéria, há forte inflamação e destruição de tecidos, principalmente cardiovascular e neurológico, além das chamadas gomas sifilíticas, que são lesões destrutivas nas regiões cutânea, muscular e óssea.
As principais barreiras para o diagnóstico precoceAs barreiras são diversas. Entre as principais discussões quando falamos sobre o tema, destaco a sífilis assintomática. Nesse caso, se o paciente não fizer testagens de rotina, a infecção pode não ser diagnosticada justamente porque não gera sintomas. Essa característica inerente à sífilis acaba sendo muito influente no diagnóstico.
Outro ponto é a baixa percepção de risco. Muitas pessoas que possuem parceria fixa acreditam que não estão vulneráveis às ISTs, mas o cuidado sexual é compartilhado, deve ser contínuo e fazer parte de um acordo entre as duas pessoas. A falta de testagem rotineira nos relacionamentos é um dos fatores que dificultam a detecção.
Também temos o constrangimento e os estigmas relacionados às ISTs. Muitos pacientes fazem um autojulgamento e, devido a várias barreiras, não procuram os serviços de saúde por medo de julgamento, de serem vistos no ambiente ou de sofrerem discriminação. Essa falta de procura por receio prejudica a triagem e a prevenção das ISTs.
Outro problema é a falta de rotina na solicitação de triagem para ISTs nos serviços de saúde. Sabemos que, estatisticamente, existem populações-chave, que são aquelas com maior vulnerabilidade para adquirir algumas infecções. Mas precisamos ter a percepção de que todo indivíduo com vida sexual ativa está suscetível e deve ser testado, independentemente da orientação sexual, idade ou status socioeconômico.
Por fim, existem as dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Sabemos que o diagnóstico da sífilis pode ser relativamente simples e de fácil disponibilidade. Entretanto, o acesso ao serviço, seja por desconhecimento, postura profissional ou ausência de métodos diagnósticos, irá influenciar diretamente.
Por que a sífilis congênita continua sendo uma preocupação?Precisamos averiguar primeiramente como é realizado esse pré-natal. Ter acesso ao pré-natal não significa necessariamente que ele tenha qualidade suficiente para interromper a transmissão da sífilis e de outras ISTs.
Em 2024, de acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 82% das mães de crianças notificadas com sífilis congênita realizaram pré-natal. Em 58% dos casos, o diagnóstico foi realizado no próprio pré-natal, e 87% dessas mães não foram tratadas adequadamente.
O início tardio do pré-natal, as testagens insuficientes, os tratamentos incompletos ou não prescritos e, principalmente, a reinfecção durante o pré-natal são fatores importantes.
A gestante e/ou o parceiro podem pensar que, por ela já estar grávida, não existe necessidade de usar preservativos ou outras medidas de precaução. Associada a esse fato, há também a falta de tratamento do parceiro, que, em alguns casos, se recusa por inúmeros motivos.
São vários fatores envolvidos.
Como são feitos o diagnóstico e o tratamento?O diagnóstico é feito por meio da associação entre os sintomas clínicos e a testagem.
Temos o teste treponêmico, cujo principal representante é o teste rápido. Ele detecta anticorpos específicos contra o Treponema pallidum, é amplamente disponível no SUS e fornece resultado em até 30 minutos.
Ele serve principalmente para resultados pela primeira vez, pois pode permanecer positivo durante anos ou até pelo resto da vida.
Também temos o teste não treponêmico, principalmente o VDRL, utilizado para complementar a investigação e, sobretudo, para estabelecer um título basal e acompanhar a resposta ao tratamento.
Idealmente, utiliza-se a associação de um teste treponêmico e um não treponêmico. Como disse anteriormente, o teste treponêmico pode permanecer reagente por muitos anos ou durante toda a vida, mesmo após um tratamento adequado. Por isso, não serve para avaliar a cura.
O tratamento continua sendo realizado com penicilina benzatina, sendo o único indicado durante a gestação, pois comprovadamente é o que apresenta cura eficiente.
Também temos a doxiciclina para pacientes alérgicos à penicilina. Entretanto, ela é menos eficaz.
É preciso atenção ainda para pacientes que possuem silicone ou aplicação de outros materiais na região glútea, pois a penicilina é administrada por via intramuscular. Nesses casos, a alternativa é a doxiciclina.
O papel das políticas públicas no enfrentamento da sífilisExistem diversas ações das políticas públicas em saúde, contando com uma estratégia que combina vigilância epidemiológica, ampliação da testagem, tratamento gratuito pelo SUS, fortalecimento do pré-natal e ações específicas para interromper a transmissão vertical.
Por exemplo, a sífilis adquirida, a sífilis em gestantes e a sífilis congênita são agravos de notificação compulsória, que exigem atenção e tratamento imediato.
Dessa maneira, conseguimos acompanhar a magnitude do problema e elaborar adequadamente as ações de saúde.
Além disso, há a disponibilização da penicilina G benzatina na atenção primária em saúde, com a aplicação das injeções e o acompanhamento desses pacientes.
Testar também é uma forma de cuidadoMeu recado é: precisamos testar sempre.
Não devemos esperar sintomas ou achar que somente uma exposição que julgamos “de risco” precisa ser investigada.
Se você tem vida sexual ativa, as testagens para ISTs são formas de autocuidado e de cuidado com o outro.
Sem medo, sem estigmas, sem julgamentos. É sobre cuidado.