Rivotril: quando o medicamento usado para ansiedade passa a ser um risco
O Rivotril é amplamente utilizado, mas nem sempre da forma correta. Entenda quando ele é indicado e quais são os riscos do uso indiscriminado.
A dificuldade para dormir, a ansiedade diante da rotina e o estresse do dia a dia fizeram do Rivotril (clonazepam) um dos medicamentos mais conhecidos pelos brasileiros. Em muitos casos, ele acaba sendo visto como uma solução rápida para aliviar o sofrimento emocional. O problema é que essa facilidade de uso também favorece a automedicação, o consumo prolongado e o risco de dependência. Embora seja um medicamento seguro quando bem indicado, o clonazepam pertence à classe dos benzodiazepínicos, fármacos que exigem acompanhamento médico e que, na maioria das situações, são recomendados apenas por períodos curtos. Apesar da eficácia no alívio dos sintomas, especialistas alertam que o clonazepam não deve ser encarado como uma solução permanente para a ansiedade. Para a maior parte dos transtornos ansiosos, o tratamento envolve outras estratégias capazes de controlar os sintomas sem o mesmo potencial de dependência.
O que está por trás do uso indevido O crescimento do consumo do medicamento não tem uma única explicação. Para Felipe Dias, psiquiatra do Hospital Vitória, da Rede Américas, em São Paulo (SP), diversos fatores ajudam a explicar esse cenário. “Venda ilícita e indiscriminada da substância, sem receita; banalização da prescrição do fármaco pelos próprios médicos, sobretudo os não especialistas; confusão entre queixas de ansiedade e sofrimento subjetivo com transtornos de ansiedade propriamente ditos. A partir daí, observa-se uma ‘epidemia de diagnósticos’, percebida de forma indireta pelo grande volume de vendas e produção dessa droga”, destaca Dias. Outro fator importante é a rapidez com que o medicamento reduz os sintomas. Segundo Luiz Zoldan, psiquiatra e gerente da Unidade de Saúde Mental do Hospital Israelita Einstein, também na capital paulista, o clonazepam aumenta a ação do GABA, uma substância natural do cérebro que funciona como um ‘freio’ para a atividade dos neurônios. Com esse efeito, o cérebro fica menos acelerado, o que reduz a ansiedade, promove o relaxamento e facilita o sono. Para ele, a popularidade do medicamento também reflete uma característica da sociedade atual. “Vivemos na era da sociedade do imediatismo e do desempenho, essa dinâmica reforça a crença na busca de soluções imediatas, que não necessariamente têm sustentabilidade”, afirma. Quando o Rivotril é realmente indicado? Apesar da popularidade, o medicamento possui indicações bastante específicas. Segundo a bula, entre elas estão crises epilépticas, crises de ausências típicas e atípicas, transtorno do pânico, fobia social, depressão maior, entre outras. Na prática, o clonazepam funciona como um tratamento de apoio em situações específicas, e não como uma solução de longo prazo para a ansiedade na maioria dos pacientes. Veja também: 8 estratégias para enfrentar crises de pânico Os riscos da automedicação Tomar Rivotril por conta própria pode aliviar temporariamente a ansiedade ou a insônia, mas também atrasar o diagnóstico da causa real dos sintomas. Segundo Daniel Oliva, psiquiatra do Espaço Einstein Bem-estar e Saúde Mental, esses sinais podem estar relacionados a diferentes condições de saúde e precisam ser investigados antes do início de qualquer tratamento. “O primeiro risco de tomar sem orientação é mascarar o problema real. Você acaba tendo crises, tendo ansiedade, tendo insônia e vai tomando essas medicações sem investigar se é um transtorno de ansiedade que precisa ser tratado de outra maneira. Pode ter questões orgânicas, então a pessoa está mais ansiosa, não consegue dormir, mas pode estar lá com hipertireoidismo, por exemplo”, exemplifica o médico. Além de mascarar doenças que exigem outra abordagem, o uso indiscriminado do clonazepam pode provocar sonolência, lentificação dos reflexos, redução da atenção e aumentar o risco de acidentes, especialmente entre idosos ou quando associado ao consumo de álcool e outros medicamentos depressores do sistema nervoso central. Uso prolongado pode levar à dependência Um dos principais motivos para que o clonazepam seja utilizado com cautela é seu potencial de causar dependência. Com o tempo, o organismo pode desenvolver tolerância ao medicamento, fazendo com que doses cada vez maiores sejam necessárias para produzir o mesmo efeito. “[O medicamento] pode gerar tolerância, que é [a necessidade de] aumentar a dose para gerar o mesmo efeito; dependência, que é a necessidade de a pessoa ficar tomando uma determinada substância todo dia; e abstinência, que é quando é retirada bruta da medicação sem nenhum critério”, explica Bruno Pascale Cammarota, psiquiatra da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. Além da dependência física, especialistas alertam para a dependência psicológica, quando a pessoa passa a acreditar que só consegue dormir ou controlar a ansiedade com o medicamento. Segundo Oliva, os dois processos costumam caminhar juntos. O uso prolongado também pode comprometer a memória, a atenção e a velocidade de raciocínio, sobretudo em pessoas idosas. Apesar disso, é importante diferenciar esses efeitos de doenças neurodegenerativas. “Ele pode prejudicar a memória, principalmente chamada memória anterógrada, que é a memória recente, mas ele não provoca Alzheimer”, esclarece Cammarota. Outro cuidado importante diz respeito à interrupção do tratamento. Como o organismo se adapta ao medicamento, suspender o uso de forma abrupta pode desencadear sintomas importantes de abstinência, como ansiedade intensa, insônia e, em casos mais graves, convulsões. “Caso a pessoa entenda que está fazendo uso sem orientação, um uso desmedido, que ela procure um profissional para fazer uma retirada gradual”, alerta Oliva. Existem alternativas ao Rivotril? A resposta dos especialistas é praticamente unânime: sim. Na verdade, o tratamento da ansiedade vai muito além do uso de medicamentos. Na maioria dos casos, a psicoterapia faz parte da abordagem principal e pode ser associada, quando necessário, a antidepressivos, que apresentam eficácia comprovada e menor potencial de dependência do que os benzodiazepínicos. Mas o tratamento não se resume ao consultório. Hábitos diários também exercem um papel importante no controle dos sintomas e ajudam a reduzir a necessidade de medicamentos ao longo do tempo. Dias destaca que exercícios físicos, técnicas de respiração, práticas de mindfulness e o acompanhamento conjunto de psiquiatra e psicoterapeuta fazem parte da abordagem recomendada para a maioria dos transtornos de ansiedade. Na mesma linha, Oliva ressalta que cuidar do sono, reduzir o consumo de álcool e cafeína contribuem para melhorar o equilíbrio emocional. “A atividade física é um dos fatores que estão mais relacionados à ajuda para a ansiedade e outros quadros psiquiátricos. E a questão do sono é muito importante para a gente restabelecer a nossa vitalidade”, afirma o psiquiatra. Ainda assim, não existe uma fórmula única. A escolha do tratamento depende das características de cada paciente, da intensidade dos sintomas e da causa da ansiedade. Veja também: Como os exercícios físicos ajudam na saúde mental?The post Rivotril: quando o medicamento usado para ansiedade passa a ser um risco first appeared on Portal Drauzio Varella.
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