Uso de telas antes dos 2 anos pode afetar a fala
Mesmo conteúdos educativos não oferecem troca para a criança, algo necessário para o desenvolvimento da linguagem. Saiba mais.
A exposição precoce às telas tem sido cada vez mais debatida e apontada como um malefício para o desenvolvimento infantil. Um dos possíveis impactos são atrasos na fala, especialmente antes dos 2 anos de idade, quando a criança está justamente desenvolvendo suas habilidades de comunicação. A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é de zero tela antes dos 2 anos. Entre 2 e 5 anos, a orientação é que o tempo limite seja de até uma hora por dia; e entre 6 e 10 anos, até duas horas diárias. Porém, a realidade no Brasil segue a direção oposta. A pesquisa “Panorama da Primeira Infância: o que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida”, realizada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com o Datafolha, revelou que crianças de 0 a 2 anos ficam em média duas horas por dia usando telas. Ainda segundo o levantamento, 78% das crianças de até 3 anos estão expostas a telas diariamente. Por que a tela influencia na fala? “Nos primeiros anos de vida, o cérebro da criança está construindo as conexões que vão sustentar a linguagem e a fala. Isso acontece principalmente com a interação real com outra pessoa, o que a gente chama de ‘vai e vem da comunicação’. O bebê balbucia, olha para o adulto, o adulto responde, espera, observa a reação da criança e ela tenta de novo. Então, o adulto atribui significado às emissões da criança. Se eu não tiver outro alguém para estruturar essa linguagem, ela não vai se desenvolver”, afirma Sulene Pirana, otorrinolaringologista e foniatra e vice-presidente do Núcleo de Estudos de Desenvolvimento e Aprendizagem da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). Segundo a médica, o problema das telas é que, na grande maioria das vezes, elas não devolvem essa troca. Mesmo quando o conteúdo é educativo, ele costuma ser uma via de mão única. Ou seja, a criança recebe estímulos visuais e sonoros, mas ninguém espera a resposta dela. Outro ponto importante é que manter a televisão e o celular ligados no mesmo ambiente em que a criança está, mesmo que ela não esteja assistindo ao conteúdo diretamente, também é prejudicial, porque tende a reduzir a quantidade e a qualidade de palavras que o adulto fala com ela. “Isso acontece porque naturalmente a atenção do adulto também se dispersa quando há uma tela por perto e a espontaneidade da conversa diminui”, explica. Por isso a recomendação é de zero tela nessa fase, com uma exceção, que são as chamadas de vídeos com familiares — por exemplo, avós que moram longe —, porque nesse caso existe, de fato, uma interação, com a outra pessoa respondendo em tempo real. Veja também: Os malefícios do uso de telas na infância e na adolescência | Entrevista com Daniel Becker Como observar se a criança está com atraso na fala Quanto mais cedo uma dificuldade for identificada, mais cedo será oferecido o suporte adequado, o que comprovadamente faz diferença no desenvolvimento a longo prazo, já que o cérebro da criança tem uma capacidade de adaptação e aprendizado extraordinária, destaca Pirana. É importante buscar avaliação profissional quando: por volta de 1 ano o bebê praticamente não balbucia, não reage aos sons familiares ou não parece prestar atenção quando é chamado; aos 18 meses não fala nenhuma palavra com significado claro; próxima dos 2 anos a criança ainda tem vocabulário muito reduzido, fala poucas palavras e sem tentativa de juntar duas delas em uma frase; aos 3 anos as pessoas de fora da família praticamente não conseguem entender o que a criança fala; em qualquer idade a criança perde a habilidade de fala que já tinha antes. “Mas não é só a fala, a gente precisa olhar para a comunicação, para a linguagem como um todo: a criança olha nos olhos quando interage? Aponta para pedir alguma coisa mesmo antes de falar? Reage claramente e sempre quando chamada pelo nome? Tem interesse real e genuíno em brincar e interagir com outras pessoas, tanto adultos quanto crianças? Um atraso de fala isolado é uma situação. Porém, se ele está acompanhado de pouco interesse social, de pouco contato visual ou de comportamentos repetitivos, isso pede uma avaliação mais cuidadosa, porque pode envolver outras áreas do desenvolvimento”, alerta. Música pode ser aliada nessa fase Para Cintya Soares, fonoaudióloga e musicista, enquanto a tela oferece uma experiência passiva — a criança assiste e ouve, mas não responde — a experiência musical a coloca em posição ativa. “Uma canção de quatro frases é muito elaborada para um bebê que está desenvolvendo a linguagem. Ela traz vocabulário, ritmo, pausa, entonação e interação. Tudo o que a fala também usa”, explica. A especialista aponta ainda que a repetição, tão característica das músicas infantis, tem função direta no aprendizado. Cada vez que a criança ouve a mesma canção, o cérebro processa, antecipa, tenta completar e participa. “Criança gosta de repetição porque a repetição traz segurança e, a cada vez que se repete, o cérebro vai assimilando, criando rotina, e a criança vai adquirindo e consolidando o novo vocabulário”, afirma Soares. Inclusive, cantar junto é melhor do que só ouvir. A fonoaudióloga destaca a diferença entre música como estímulo ativo e como som de fundo: colocar uma playlist para tocar enquanto a criança brinca sozinha, por exemplo, tem efeito diferente de cantar junto com ela, nomear objetos citados na canção e fazer do momento uma troca. Além da música, outras ações que estimulam a fala são leitura de livros, brincadeiras com outras crianças, esperar pela resposta da criança (seja em palavras, olhares, sons ou gestos) e o mais importante: conversar bastante, desde cedo. Mesmo quando o bebê ainda não fala, narrar as coisas ajuda o cérebro a absorver vocabulário ao longo do tempo. Hábitos repetidos contam mais que episódios isolados Pirana reconhece que a orientação de zero tela soa exigente diante da rotina de uma família com muitas demandas, tarefas domésticas, às vezes outros filhos. Por isso, reforça que uma situação esporádica — por exemplo, a criança viu um desenho enquanto o cuidador preparava o jantar — não deve gerar preocupação. “O que é realmente importante do ponto de vista do desenvolvimento é o padrão geral ao longo das semanas, não episódios isolados. Então, vamos priorizar o tempo de conversa, de brincadeira livre, leitura de livrinhos, músicas cantadas juntos, que fazem uma diferença enorme”, pondera. A especialista reforça que um ambiente mais silencioso, com trocas reais, favorece muito mais a construção da linguagem do que qualquer conteúdo audiovisual. “O ideal é zero tela, priorizando sempre a interação face a face, presente, responsiva. Isso não é uma regra rígida para punir as famílias. É uma orientação baseada em ciência para ajudar os pais a tomarem decisões mais informados. Cada família tem sua realidade, mas é importante buscar esse equilíbrio com carinho, sem culpa e sem cobrança excessiva”, conclui. Veja também: Atrasos no desenvolvimento infantil: como identificar?The post Uso de telas antes dos 2 anos pode afetar a fala first appeared on Portal Drauzio Varella.
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