Diálogo é o caminho para uma saúde suplementar mais sustentável
Em meio à pressão por custos, judicialização e desequilíbrios na cadeia, interlocução entre os diferentes agentes ganha força como caminho para uma saúde suplementar mais sustentável e centrada no paciente.
Ronaldo Sampaio* A saúde suplementar brasileira vive um momento decisivo. O aumento da judicialização, a pressão por redução de custos, a incorporação acelerada de novas tecnologias e os desafios econômicos impõem a necessidade de uma mudança de postura entre todos os atores que compõem esse ecossistema. Mais do que nunca, é preciso substituir relações marcadas pela desconfiança por uma cultura baseada no diálogo, na transparência e na construção de soluções conjuntas. É nesse contexto que ganha relevância a participação da ABRAIDI no Integra 2026 – Meeting Nacional de Integração entre Fontes Pagadoras e Prestadores, que ocorreu nos dias 29 e 30 de julho, em Salvador. A entidade integrou a mesa de debates “Como o recém-criado Instituto Consenso pode contribuir para a convergência e o diálogo mais produtivo na Saúde Suplementar Brasileira”, levando para a discussão a visão das empresas responsáveis pelo fornecimento de dispositivos médicos e produtos para saúde. O setor de importação e distribuição ocupa uma posição estratégica na cadeia assistencial. São essas empresas que garantem que hospitais e profissionais de saúde tenham acesso, no momento certo, às tecnologias necessárias para salvar vidas, reduzir complicações e melhorar a qualidade da assistência. Entretanto, há anos convivem com distorções que comprometem não apenas sua sustentabilidade financeira, mas também o equilíbrio de toda a cadeia. A mais recente pesquisa da ABRAIDI evidencia a dimensão desse problema. Em 2026, o montante de pagamentos pendentes ou não realizados atingiu R$ 5,787 bilhões, o maior valor desde o início da série histórica, em 2017. Esse montante decorre de três grandes distorções que já se tornaram crônicas no setor. A retenção de faturamento representa R$ 2,077 bilhões. Trata-se da situação em que, mesmo após uma cirurgia previamente autorizada e efetivamente realizada, hospitais ou operadoras impedem que o fornecedor emita a nota fiscal e o boleto para cobrança. O prazo médio para essa autorização chegou a 170 dias. Somam-se ainda R$ 167,17 milhões em glosas consideradas injustificadas, quando cobranças são contestados ou pagamentos adiados, apesar de toda a documentação e autorização prévia estarem devidamente regularizadas. Completa esse cenário um volume de R$ 3,543 bilhões em inadimplência. Os impactos são profundos. Para manter suas operações funcionando, 64% das empresas precisaram recorrer a empréstimos bancários, enquanto o comprometimento médio do faturamento alcançou 36%. Em outras palavras, recursos que poderiam estar sendo direcionados para investimentos, inovação, qualificação profissional e ampliação do acesso às tecnologias acabam sendo consumidos pelo custo financeiro provocado pela demora nos recebimentos. O desafio de construir uma cadeia mais equilibrada Esse ambiente revela uma transformação estrutural no mercado. A concentração do número de compradores, associada ao elevado poder de negociação exercido por poucos agentes, criou uma relação assimétrica entre fornecedores, hospitais e operadoras. Ao mesmo tempo em que cresce a responsabilidade dos distribuidores sobre aspectos assistenciais, financeiros e tributários, aumentam também as pressões sobre margens, prazos e riscos operacionais. Nenhum elo da cadeia, entretanto, conseguirá enfrentar esses desafios de forma isolada. A sustentabilidade da saúde suplementar depende da construção de um ambiente de negócios mais previsível, transparente e equilibrado. Isso exige diálogo permanente entre operadoras, hospitais, distribuidores, fabricantes, órgãos reguladores e entidades representativas. É justamente por isso que iniciativas voltadas à convergência de interesses, como o Instituto Consenso, representam uma oportunidade importante para aproximar diferentes visões e construir soluções que beneficiem todo o sistema. O consenso não significa ausência de divergências, mas sim a disposição de enfrentá-las por meio da negociação, da produção de evidências e do respeito institucional. A ABRAIDI acredita que dados concretos qualificam o debate. Ao longo dos últimos anos, a entidade tem levado às autoridades públicas, órgãos reguladores e demais representantes da cadeia informações consistentes sobre retenções de faturamento, glosas e inadimplência, contribuindo para que a discussão deixe de ser baseada apenas em percepções e passe a considerar evidências capazes de orientar políticas e decisões mais eficientes. Esse compromisso também se traduz na capacitação contínua dos associados, na disseminação de boas práticas e na articulação de iniciativas que reduzam riscos sistêmicos. Essas ações são especialmente importantes para pequenas e médias empresas, mais vulneráveis aos impactos financeiros provocados pelas distorções existentes. Os desafios permanecem relevantes, mas também abrem espaço para avanços importantes. Quanto maior a qualidade das informações compartilhadas e mais transparente for o relacionamento entre os diferentes agentes, maiores serão as condições para construir uma cadeia de suprimentos mais eficiente, sustentável e preparada para responder às demandas crescentes da sociedade. No centro dessa discussão, porém, existe um personagem que frequentemente fica em segundo plano: o paciente. Embora hospitais, operadoras, fornecedores, fabricantes e prestadores exerçam papéis fundamentais, é o cidadão quem está na ponta desse sistema e o financia, direta ou indiretamente, por meio do pagamento do plano de saúde ou dos serviços utilizados. É para ele que toda a cadeia deve, em última instância, entregar valor. Garantir relações mais equilibradas entre seus diversos participantes não representa apenas uma questão financeira ou empresarial, mas um compromisso com a qualidade da assistência, a continuidade do acesso às melhores tecnologias e, sobretudo, o respeito ao consumidor que sustenta esse sistema. *Ronaldo Sampaio é presidente Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI) The post Diálogo é o caminho para uma saúde suplementar mais sustentável appeared first on Saúde Business.
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