Pré-eclâmpsia: sintomas e riscos para o bebê que você precisa conhecer

Dra. Amanda Guedelha, ginecologista e obstetra, explica como identificar os sinais de alerta da pré-eclâmpsia, quais gestantes apresentam maior risco e de que forma a condição pode afetar a saúde da mãe e do bebê.

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  Minha trajetória na Ginecologia e Obstetrícia

Sou médica formada pela UEPA. Desde o início da graduação, eu sempre soube que queria trabalhar com mulheres. Conforme fui passando pelas várias clínicas durante o curso, esse sentimento foi sempre se fortalecendo.

Eu me apaixonei cada vez mais pelo cuidado com o corpo feminino e pela possibilidade de poder estar presente em vários momentos e fases da vida da mulher.

A obstetrícia tem um espaço muito especial no meu coração, pela possibilidade de poder acompanhar uma vida se formando, uma família nascendo ou aumentando, a transformação de uma mulher em mãe e o momento mais especial de todos, que é poder ser testemunha de uma nova vida chegando a esse mundo ao receber os bebês no momento do parto.

O que é a pré-eclâmpsia e como ela se desenvolve durante a gestação

A gestação é uma fase em que ocorrem várias mudanças no corpo feminino. O corpo precisa se adaptar para poder gerar uma vida. Um órgão inteiro é criado nesse período com o intuito de nutrir e proteger o bebê: a placenta.

A pressão alta na gestação é, principalmente, uma alteração do funcionamento placentário que pode levar a complicações tanto para a mãe quanto para o bebê. Existe um espectro de manifestações clínicas que podem ocorrer em casos de doenças hipertensivas na gestação.

Podemos ter desde uma hipertensão arterial sem outras alterações mais graves, que conseguimos controlar bem com medicações específicas, até quadros mais graves. A pré-eclâmpsia é a pressão alta que já cursa com sinais progressivos de complicações.

Podem haver alterações em um ou vários órgãos maternos, como rins, fígado, pulmões e vasos sanguíneos. Também existem casos bem mais complexos, como a Síndrome HELLP, em que ocorrem alterações simultâneas nos rins, fígado e sangue, com um potencial de gravidade muito grande e que geralmente indica um parto imediato para garantir a proteção da vida materna.

Há ainda a eclâmpsia, que é quando ocorre a convulsão, conhecida por algumas pessoas como “crise de albumina”. Geralmente, é o último estágio de gravidade das doenças hipertensivas na gestação e, usualmente, também indica o parto imediato para preservação da vida materna.

Os sintomas que devem chamar a atenção da gestante

Pressão alta na gravidez nunca é normal e sempre deve ser bem investigada, para que seja feito o diagnóstico correto e o tratamento seja instituído o mais precocemente possível, visando diminuir as chances de complicações potencialmente mais graves.

Os sinais clínicos que a paciente deve valorizar, especialmente após as 20 semanas e se forem acompanhados de pressão alta, acima de 140 x 90 mmHg, são: inchaço nos pés, principalmente logo ao acordar, doloroso e de grande volume, que pode progredir para os membros superiores e face; aumento de peso importante, acima do esperado e repentino, que pode inclusive estar associado ao edema; dor de cabeça intensa que não melhora com medicações comuns; dor na parte superior do abdome ou estômago; náuseas persistentes; alterações da visão, em que começam a aparecer pontinhos brilhantes no campo visual; e episódio de convulsão.

Os principais fatores de risco para pré-eclâmpsia

Durante as primeiras consultas de pré-natal e repetidamente ao longo do acompanhamento, o risco de pré-eclâmpsia deve ser avaliado e recalculado constantemente.

Existe uma medicação que deve ser iniciada preferencialmente entre 12 e 16 semanas se for identificado que a mulher tem um risco aumentado para pré-eclâmpsia: o AAS, ácido acetilsalicílico.

Entre os principais fatores de risco estão: histórico pessoal de pressão alta antes de engravidar ou logo nas primeiras consultas, sobrepeso e obesidade, idade materna acima de 35 anos, histórico de pressão alta ou pré-eclâmpsia em gestação anterior, doenças crônicas como diabetes, doenças renais e autoimunes, como lúpus, histórico familiar de pressão alta na gravidez, especialmente em mãe e/ou irmãs, entre outras situações que sempre devem ser investigadas nas consultas.

O ultrassom morfológico do primeiro trimestre também faz uma avaliação do fluxo sanguíneo placentário, usando o Doppler de artérias uterinas, capaz de predizer o risco dessa placenta sofrer alterações que podem facilitar a ocorrência de pré-eclâmpsia. Isso permite que possamos dar todas as instruções para a mãe a fim de diminuir esses riscos.

Os riscos da pré-eclâmpsia para o bebê

Como a pré-eclâmpsia é uma doença que começa na placenta, os riscos para o bebê passam principalmente pela possibilidade dessa placenta não conseguir nutrir o feto de forma adequada.

Dessa forma, as principais complicações possíveis para o bebê são a diminuição do líquido amniótico e a restrição de crescimento intrauterino, quando o bebê não está crescendo ou ganhando peso da forma esperada para a idade gestacional.

Quanto mais precoces e mais graves as alterações, maior é a chance de prematuridade e de necessidade de internação em UTI neonatal após o nascimento, além de baixo peso ao nascer e, inclusive, risco de complicações tardias, como maiores chances de pressão alta, diabetes, obesidade e doenças metabólicas na vida adulta daquele bebê de mãe com pré-eclâmpsia.

Muitas vezes, o nosso principal objetivo nem é evitar que a pressão alta ocorra, mas evitar que ela ocorra de forma tão precoce, uma vez que o tratamento definitivo é a retirada da placenta por meio do parto. Quanto mais precoce for o parto, mais prematuro aquele bebê vai ser e maior será a possibilidade de morbidade neonatal.

Como é feito o diagnóstico e o monitoramento durante o pré-natal

É importante ressaltar que ter risco de pré-eclâmpsia é diferente de ter, de fato, a pré-eclâmpsia. Nem todas as mulheres que têm risco aumentado vão desenvolver a doença.

O diagnóstico deve ser individualizado nas consultas de pré-natal. A pressão arterial deve ser avaliada em todas as consultas, além do peso, presença de edema e queixas da paciente.

Se a pressão arterial está se elevando, são solicitados exames específicos para confirmar essa alteração e rastrear sinais de complicação nos órgãos-alvo, além da avaliação fetal por meio de ultrassonografia.

Manejo clínico e prevenção da pré-eclâmpsia

Existe medicação específica para prevenção do risco de pré-eclâmpsia naquelas pacientes com indicação. É importante ressaltar que o AAS não é remédio para a pressão e não baixa a pressão alta. Ele serve, na verdade, para melhorar o funcionamento dos vasos sanguíneos da placenta e diminuir o risco da pré-eclâmpsia se instalar, especialmente de forma precoce.

Quando a pressão alta ou a própria pré-eclâmpsia se instala, precisamos lançar mão de um ou mais anti-hipertensivos, sempre dependendo da avaliação individualizada das condições maternas e fetais e da idade gestacional.

A atividade física é uma das formas mais efetivas de prevenção da pré-eclâmpsia e, muitas vezes, é ignorada por muitas mulheres. Ela ajuda a controlar o ganho de peso, auxilia no funcionamento dos vasos sanguíneos e da placenta, além de prevenir outras condições, como diabetes gestacional e dores que as grávidas sentem, principalmente no final da gestação.

Eu costumo dizer para as minhas pacientes que o exercício físico deve fazer parte da vida da gestante assim como as vitaminas que ela toma todos os dias.

Informação e atenção aos sinais do corpo durante a gravidez

Converse com seu obstetra e, se não houver uma indicação real de não realização de exercícios, faça atividade física durante a gestação. Não pare a atividade física ao descobrir que está grávida. Se não fazia antes de engravidar, comece durante a gestação.

Se exercite. Se alimente de forma saudável. Faça acompanhamento com um obstetra atualizado e qualificado. Estude sobre gravidez, parto e puerpério. Leve perguntas para as consultas de pré-natal. Acompanhe profissionais sérios nas redes sociais.

Se prepare para esse momento tão especial e que não volta no tempo. Cada gravidez é diferente, cada corpo reage de um jeito, e a mesma mulher vai passar por gestações diferentes, sem que uma seja igual à outra.

Ouça os sinais do seu corpo e sempre tire as suas dúvidas em consultório. A informação é a principal ferramenta que a gestante pode ter durante o pré-natal.