Endometriose e câncer de ovário: especialista explica a relação e o que as pacientes devem saber
Dra. Maiana Rocha Bastos explica o que conecta as duas condições, quais pacientes precisam de maior atenção e como deve ser feito o acompanhamento ginecológico.
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Primeiramente, gostaria de agradecer o convite para participação no portal. É um prazer contribuir para a formação médica e da população sobre temas importantes.
A escolha pela Ginecologia e Obstetrícia vem muito do prazer em cuidar da mulher em todas as fases da vida, entendendo o corpo feminino e suas mudanças como algo mágico. Durante minha formação acadêmica, que iniciou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Pará (UFPA), passando pela residência de Medicina de Família e Comunidade e pela de Ginecologia e Obstetrícia, pude vivenciar vários aspectos da saúde da mulher que me encantaram para essa especialidade.
A relação entre endometriose e câncer de ovárioPrimeiramente, é importante entender de maneira geral a definição dessas duas condições.
A endometriose é uma doença inflamatória benigna em que as células do endométrio, tecido que reveste a cavidade uterina e descama na menstruação, se deslocam para fora do útero. A doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no Brasil.
Já o câncer de ovário, apesar de menos prevalente que outros tipos de câncer ginecológico, como o de colo do útero, continua sendo um dos mais letais. É um câncer de evolução silenciosa, sem um método de rastreio eficaz até o momento e, frequentemente, diagnosticado em estágios avançados. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), no Brasil, a estimativa é de cerca de 6 a 7 mil casos anuais.
Estudos epidemiológicos recentes, como o publicado na JAMA em 2024, demonstram um aumento do risco desse tipo de câncer em mulheres com endometriose. Mas, antes de criarmos uma situação de preocupação exacerbada, é preciso entender que o risco absoluto, para a maioria das mulheres, de desenvolver uma neoplasia de ovário é, por si só, extremamente baixo.
O risco varia conforme o tipo de endometrioseSim. De maneira geral, mulheres com endometriose possuem cerca de quatro vezes mais chance de desenvolver câncer de ovário do que aquelas sem endometriose. Já as pacientes com endometriomas de ovário e/ou endometriose profunda têm cerca de nove vezes mais risco.
Alguns tipos de câncer de ovário apresentam maior associação com a endometrioseA associação entre endometriose e câncer de ovário muda de acordo com os subtipos histológicos do câncer.
É importante entender essa subdivisão dos tumores ovarianos. Os tumores Tipo 1, como seroso de baixo grau, carcinoma endometrióide, mucinoso e carcinoma de células claras, apresentaram uma relação muito mais forte com a endometriose do que os Tipo 2, como o carcinoma seroso de alto grau.
Essa é uma boa notícia, já que os cânceres Tipo 1 têm uma evolução menos agressiva e costumam ser identificados em estágios mais iniciais.
O acompanhamento deve considerar o risco individual de cada pacienteAntes de tudo, sem pânico. É fundamental entender a diferença entre risco relativo e absoluto: embora a chance proporcional de câncer de ovário seja maior em quem tem a doença, o risco real de uma mulher com endometriose desenvolver a doença ao longo da vida continua sendo baixo.
Por isso, a chave do acompanhamento é a estratificação de risco. Pacientes com endometriomas ou endometriose profunda precisam de um olhar mais atento e check-ups periódicos.
Mulheres com mutação genética, como nos genes BRCA1 e BRCA2, devem ter atenção redobrada e podem, inclusive, se beneficiar de uma abordagem preventiva, como a salpingooforectomia bilateral, que consiste na retirada dos ovários e das trompas.
Além disso, algumas medidas profiláticas também podem ser adotadas por essas pacientes. Hábitos de vida saudáveis, como cessar o tabagismo e o consumo de álcool e praticar atividade física, são essenciais.
Outra medida seria o uso de anticoncepcionais hormonais contínuos. Isso porque esse tipo de medicamento está associado à redução de 50% do risco de câncer ovariano.
Mudanças nos sintomas podem indicar a necessidade de investigaçãoO principal alerta é a mudança repentina na dor. Se aquela dor de cólica que você já conhecia mudar de intensidade, tornar-se contínua ou parar de responder aos remédios e hormônios habituais, é hora de investigar.
Outros sinais importantes incluem o crescimento rápido de um cisto que estava estável há anos, sensação constante de barriga estufada ou empachada logo após comer, aumento do volume abdominal, alterações nos hábitos intestinais ou urinários e sintomas gerais, como perda de peso sem explicação, cansaço excessivo e sangramentos fora do período menstrual.
A investigação combina exames de imagem e avaliação clínicaA confirmação definitiva de qualquer tumor só acontece após a análise em laboratório da lesão retirada em cirurgia, mas a investigação começa bem antes.
O exame de imagem mais importante é a ultrassonografia transvaginal com mapeamento de endometriose, que consegue diferenciar o aspecto clássico de um endometrioma comum de uma lesão suspeita. A ressonância magnética também pode ser usada para dar ainda mais precisão.
Quanto aos exames de sangue, vale um aviso importante: o conhecido marcador CA-125 costuma apresentar níveis elevados na própria endometriose comum, o que assusta muitas pacientes.
Em 2016, o ACOG recomendou que o CA-125 não deve ser utilizado isoladamente para a diferenciação de tumores benignos e malignos de ovário.
Por isso, hoje tem sido utilizado o cálculo do escore ROMA, muito mais específico para câncer e que não se eleva apenas por causa da endometriose benigna.
O acompanhamento ginecológico regular é fundamentalA endometriose, por si só, é uma doença com as mais variadas sintomatologias e que necessita de acompanhamento rigoroso e multiprofissional.
O seguimento regular com um profissional capacitado é capaz de detectar sinais de alarme para outras condições, como o câncer de ovário.
É de extrema importância que essas pacientes recebam aconselhamento sobre os riscos que a endometriose traz, além de orientações sobre medidas de prevenção e investigação diante de qualquer sinal de alarme.
O medo do diagnóstico e do tratamento não deve ser maior que a busca pelo cuidado e pelo acompanhamento adequado.
ReferênciasBarnard ME, Farland LV, Yan B, et al. Endometriosis Typology and Ovarian Cancer Risk. JAMA. 2024;332(6):482–489. doi:10.1001/jama.2024.9210
SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA ONCOLÓGICA. Endometriose e câncer: existe relação? SBCO Blog, 9 set. 2025.
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Tumores anexiais. Femina. 2026;54(4):319-24.