Doença renal: quando o olhar do nefrologista vai além das alterações urinárias.
Dra. Mônica Rossy Furlan, nefrologista, explica quais alterações urinárias merecem atenção, como é feita a investigação e quando esses sinais indicam a necessidade de atendimento médico especializado.
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O interesse pela Nefrologia surgiu ainda na faculdade, quando percebi na especialidade a oportunidade de aprofundar o conhecimento na área clínica sem me distanciar do cuidado integral do paciente.
Concluí a graduação pela Universidade Federal do Pará. Ingressei na residência médica em Clínica Médica e, depois, em Nefrologia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, no Rio de Janeiro, pela UFRJ. Em 2015, recebi o Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Nefrologia.
Quando falamos em doença renal, é importante classificá-la quanto ao tempo de evolução em aguda ou crônica. A lesão renal aguda evolui em dias ou semanas, com sinais e sintomas mais evidentes, enquanto a lesão renal crônica pode evoluir de maneira silenciosa, sem sintomas tão aparentes, mas com alterações laboratoriais que persistem por mais de 3 meses.
Essa primeira abordagem permite ao médico avaliador direcionar o raciocínio para os possíveis diagnósticos diante das diferentes alterações renais e urinárias.
Alterações urinárias macroscópicas que merecem atençãoEntre as alterações urinárias percebidas com maior frequência, merecem destaque as alterações na coloração, como urina mais escura ou avermelhada, e o odor urinário mais forte que o habitual, podendo sugerir quadro infeccioso.
No entanto, existem alterações microscópicas que só serão identificadas com o auxílio de exames laboratoriais específicos.
Condições renais que podem se manifestar por alterações urináriasUma urina com coloração avermelhada ou mesmo sangue vivo ao urinar, chamada hematúria macroscópica, acompanhada de disúria, com ou sem alteração no odor urinário, pode estar relacionada a presença de cálculos urinários ou quadros infecciosos.
O exame físico clínico, junto à análise urinária e ao exame de imagem renal, auxilia no diagnóstico diferencial.
Espuma e sangue na urinaO relato de urina com presença de espuma merece avaliação com a análise quantitativa de proteína e albumina em amostra ou em urina de 24 horas.
É importante destacar que, em um exame de urina de rotina, também chamado urina EAS, a análise qualitativa só identifica a presença de albumina em cruzes quando superior ao equivalente a 300 mg em análise qualitativa (albuminúria clínica).
A presença macroscópica de sangue na urina está frequentemente relacionada a infecção ou cálculo renal. No entanto, a história clínica do paciente, a faixa etária e as comorbidades são fundamentais para a investigação do diagnóstico diferencial, que inclui a possibilidade de neoplasias do trato urinário.
Algumas alterações só aparecem nos exames laboratoriaisQuando falamos de doença renal, as alterações urinárias perceptíveis a olho nu são apenas a ponta de um grande iceberg, que inclui fatores como idade, comorbidades associadas, alterações metabólicas, uso de medicamentos e hábitos alimentares influenciando de forma silenciosa na qualidade da saúde renal.
Atualmente, o principal foco na prevenção secundária da doença renal crônica é identificar a presença de microalbuminúria, um marcador precoce de disfunção endotelial na microvascularização renal, além de preditor de aumento no risco cardiovascular.
Outro cenário frequente são pacientes formadores de cálculos renais, que podem apresentar alterações no perfil metabólico urinário, identificadas apenas com exame laboratorial detalhado, sem que isso resulte em alteração no aspecto macroscópico da urina.
Como é feita a investigação nefrológicaPacientes apresentando sintomas urinários, aumento de marcadores sanguíneos de disfunção renal, como ureia e creatinina, alterações urinárias macroscópicas ou microscópicas persistentes devem ser avaliados de maneira criteriosa pelo médico nefrologista.
A investigação inicia no momento da anamnese, com história clínica detalhada, identificando comorbidades e medicações de uso contínuo que possam alterar o aspecto da urina ou favorecer a lesão do tecido renal.
A rotina nefrológica básica inclui exame de imagem renal, análise da amostra urinária, além da dosagem de marcadores e eletrólitos no sangue.
Quando uma alteração urinária pode ser uma urgênciaDiante de sintomas agudos como lombalgia em cólica, acompanhada de disúria, febre, vômitos e/ou presença de sangue na urina, a avaliação médica de urgência é indicada devido ao risco de pielonefrite ou cálculo urinário complicado.
Alterações urinárias não devem ser ignoradas mas podem não estar presentesAs alterações urinárias são apenas a ponta do iceberg quando pensamos na doença renal, que inclui um amplo espectro de causas, desde situações de menor complexidade, como baixa ingestão de água, até cenários complexos, como glomerulopatias, que podem cursar com perda rápida e irreversível da função renal.
Pacientes diabéticos, hipertensos, em tratamento oncológico ou de doenças autoimunes apresentam maior risco de apresentar lesão renal silenciosa e merecem avaliação médica criteriosa, capaz de identificar os sinais de alarme que devem direcionar o acompanhamento ao médico nefrologista, garantindo o cuidado integral focado na saúde renal.