Infecção urinária atinge até 8% das crianças: especialista explica como prevenir
Dra. Amanda Potiguar Abrahão, nefrologista pediátrica, explica os sinais de infecção urinária na infância, os fatores que aumentam o risco, como é feito o diagnóstico e quais cuidados ajudam a prevenir novos episódios e proteger a saúde dos rins.
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Minha história com a Nefrologia Pediátrica começou ainda no internato de Medicina, nos dois últimos anos da faculdade, quando tive a oportunidade de fazer um estágio na Santa Casa acompanhando a hemodiálise infantil. Foi ali que me apaixonei pela especialidade.
O que mais me marcou naquele período foi observar crianças passando por um tratamento tão difícil e intenso, mas que, ainda assim, conseguiam brincar, se divertir e ser crianças, sem carregar todo o peso que aquele tratamento representava. Aquilo me tocou profundamente e despertou em mim a vontade de cuidar dessas crianças e de suas famílias.
Depois da faculdade, fiz minha residência médica em Pediatria na PUC-Campinas e, posteriormente, escolhi seguir na subespecialidade, fazendo residência em Nefrologia Pediátrica na USP de São Paulo.
Ao longo dessa formação, fui tendo ainda mais certeza de que havia escolhido a área que fazia sentido para mim. A Nefrologia Pediátrica une a complexidade da Medicina com a possibilidade de acompanhar a criança de forma integral e, principalmente, de atuar precocemente para prevenir complicações e preservar a saúde dos rins ao longo da vida.
A infecção urinária na infância precisa ser diagnosticada e tratada adequadamenteA principal preocupação com a infecção urinária na criança é quando ela é acompanhada de febre, pois isso pode indicar que a infecção atingiu o trato urinário superior e comprometeu o rim.
Uma infecção urinária febril pode causar inflamação e lesão do tecido renal, deixando cicatrizes. Quando essas lesões são extensas ou acontecem de forma recorrente, podem, ao longo do tempo, contribuir para a perda de função renal.
Mas é importante deixar claro que uma infecção urinária sem febre também precisa ser avaliada e tratada adequadamente. Não devemos esperar que a criança desenvolva febre para procurar atendimento.
Uma infecção não tratada ou tratada de forma inadequada pode persistir, apresentar recorrências e, dependendo do contexto, evoluir para complicações.
Por isso, a mensagem principal para os pais é não banalizar os sintomas urinários. A ITU é comum na infância, mas precisa ser corretamente diagnosticada, tratada e, em algumas crianças, investigada para identificar fatores que possam favorecer novos episódios e proteger a saúde dos rins.
Os sinais de infecção urinária variam de acordo com a idade da criançaOs sintomas variam bastante de acordo com a idade. Nas crianças maiores, podemos observar dor ou ardência ao urinar, aumento da frequência urinária, urgência para fazer xixi, dor abdominal ou lombar, alteração no cheiro ou no aspecto da urina e, em algumas situações, perda urinária em uma criança que já tinha controle do xixi.
A febre, principalmente quando aparece sem outros sintomas que expliquem sua origem, também é um sinal muito importante, porque a infecção urinária está entre as principais causas de febre sem foco na infância.
Nos bebês e nas crianças pequenas, os sinais podem ser muito mais inespecíficos, como febre, irritabilidade, recusa alimentar, vômitos, prostração ou dificuldade para ganhar peso.
É importante destacar que toda criança com menos de 3 meses que apresente febre, mesmo sem outros sintomas associados, precisa ser avaliada por um médico. Nos recém-nascidos, a presença de febre sempre exige avaliação médica.
Nessa faixa etária, a infecção urinária pode se manifestar apenas como febre, sem sintomas urinários evidentes. Por isso, diante de uma febre sem foco definido, especialmente nos menores, a possibilidade de infecção urinária deve ser considerada.
O diagnóstico depende da avaliação clínica e dos exames de urinaO diagnóstico da infecção urinária é feito a partir da avaliação clínica associada aos exames de urina.
O exame de urina pode apresentar alterações sugestivas de infecção, mas a urocultura é fundamental para confirmar a presença da bactéria, identificar o agente causador e orientar a escolha do antibiótico.
A coleta da urina também precisa ser realizada de maneira adequada, porque uma amostra contaminada pode levar a um diagnóstico incorreto.
Além de confirmar a infecção, em algumas situações precisamos investigar se existe alguma alteração anatômica que tenha favorecido o episódio.
Exames de imagem podem ser indicados dependendo da idade, da gravidade e da recorrência das infecções, além dos achados da ultrassonografia.
O objetivo dessa investigação é identificar precocemente alterações que possam favorecer novas infecções ou aumentar o risco de lesão renal.
Alguns fatores aumentam o risco de infecção urinária na infânciaAlguns fatores aumentam o risco de infecção urinária na infância, como alterações anatômicas ou funcionais do trato urinário, refluxo vesicoureteral, dificuldade de esvaziamento da bexiga, constipação intestinal e hábitos urinários inadequados, como segurar o xixi por períodos prolongados.
Também merecem atenção especial as crianças com alterações neurológicas que interferem no funcionamento da bexiga, como os pacientes neuropatas, incluindo aqueles com doenças ou malformações da coluna e da medula.
Essas crianças podem apresentar disfunção da bexiga e dificuldade para esvaziá-la adequadamente, favorecendo o aparecimento de infecções urinárias.
Crianças que já tiveram uma infecção urinária, principalmente uma ITU febril, também podem apresentar maior risco de novos episódios e precisam de uma avaliação individualizada.
Da mesma forma, crianças com malformações conhecidas do trato urinário ou histórico de infecções recorrentes merecem acompanhamento mais cuidadoso.
A constipação intestinal é outro fator muito importante e frequentemente esquecido pelos pais. O intestino cheio pode interferir no funcionamento adequado da bexiga e favorecer tanto alterações na micção quanto infecções urinárias.
Alguns casos exigem uma investigação mais aprofundada da saúde dos rinsA investigação depende da idade da criança, da forma como a infecção se apresentou e da história clínica.
Um ponto especialmente importante é que toda criança com menos de 2 anos que apresenta uma ITU febril deve realizar ultrassonografia dos rins e das vias urinárias, pois nessa faixa etária existe uma maior possibilidade de alterações congênitas do trato urinário que podem ter contribuído para a infecção.
Além disso, infecções urinárias febris recorrentes, alterações encontradas na ultrassonografia, infecções por determinados agentes ou uma evolução clínica incomum podem indicar a necessidade de uma investigação mais aprofundada.
O objetivo não é apenas descobrir por que aquela criança teve uma infecção, mas principalmente identificar aquelas que apresentam maior risco de novas infecções ou de lesão renal e que precisam de acompanhamento específico para preservar a função dos rins.
Hábitos simples ajudam a prevenir infecções urinárias na infânciaAlgumas medidas simples podem ajudar bastante na prevenção das infecções urinárias na infância.
É importante estimular uma boa ingestão de líquidos, evitar que a criança segure o xixi por muito tempo e estabelecer uma rotina para que ela vá ao banheiro regularmente, sem esperar chegar ao limite da vontade de urinar.
Outro ponto fundamental é manter o intestino funcionando bem. A constipação é um fator de risco muito importante para infecções urinárias e para alterações no funcionamento da bexiga, por isso deve ser identificada e tratada adequadamente.
Também é importante orientar uma higiene íntima adequada, sem excesso de produtos ou duchas que possam irritar a região genital. Nas meninas, a higiene após evacuar deve ser feita no sentido da frente para trás.
Para crianças que já apresentam infecções recorrentes ou alguma alteração do trato urinário, o acompanhamento médico é fundamental para identificar e tratar os fatores que estão favorecendo esses episódios.
Mais do que uma medida isolada, a prevenção envolve bons hábitos urinários e intestinais e, quando necessário, o acompanhamento especializado.
Os sintomas de infecção urinária não devem ser ignoradosO principal recado para os pais é: não espere a infecção “passar sozinha” quando houver suspeita de infecção urinária em uma criança.
Sintomas como dor ou ardência para urinar, aumento da frequência urinária, urgência para fazer xixi ou alterações no aspecto e no cheiro da urina devem ser avaliados por um profissional de saúde.
E, principalmente, diante de febre sem uma causa definida, a possibilidade de infecção urinária deve ser considerada.
Quanto menor a criança, mais difícil pode ser reconhecer os sintomas. Por isso, febre em crianças pequenas merece atenção especial, mesmo quando não existem queixas urinárias.
Também é importante não oferecer antibióticos por conta própria. O diagnóstico correto depende da avaliação médica e, quando indicado, da realização de exames de urina e urocultura.
Uma avaliação adequada permite tratar a infecção corretamente e identificar, quando necessário, crianças que precisam de investigação adicional para evitar recorrências e proteger a saúde dos rins.