Lesão no menisco: ortopedista explica quando a cirurgia é realmente necessária

Dr. Eurineto Gomes do Nascimento, ortopedista e traumatologista, explica as principais causas das lesões meniscais, como é feito o diagnóstico e em quais situações a cirurgia pode ser indicada.

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Minha trajetória na Ortopedia 

Sou médico formado pela Universidade Federal do Pará e especialista em Ortopedia e Traumatologia. Realizei minha residência médica pela Universidade do Estado do Pará, no Hospital Porto Dias, e possuo título de especialista pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia.

Antes da especialização, também atuei como médico militar do Exército Brasileiro e em serviços de urgência e emergência. Essas experiências contribuíram para minha formação profissional, aprimoraram minha capacidade de tomar decisões e reforçaram meu interesse pelas condições que comprometem o movimento e a qualidade de vida.

Escolhi a Ortopedia por ser uma especialidade que reúne conhecimento clínico, raciocínio biomecânico, procedimentos e cirurgia. O que mais me motiva é a possibilidade de aliviar a dor, restaurar movimentos e ajudar o paciente a recuperar sua autonomia, retornando ao trabalho, ao esporte e às atividades que fazem parte de sua vida.

Atualmente, atuo como ortopedista e traumatologista em hospitais de alta complexidade e em serviços de referência voltados à assistência e ao ensino em Ortopedia e Traumatologia. Essa experiência me permite acompanhar diferentes condições musculoesqueléticas e manter uma atuação integrada à atualização científica e à formação médica continuada.

O papel do menisco no joelho

Os meniscos são duas estruturas de fibrocartilagem localizadas entre o fêmur e a tíbia: um menisco medial e outro lateral. Eles funcionam principalmente na distribuição das cargas e na absorção de impactos.

Também contribuem para a estabilidade, lubrificação e proteção da cartilagem do joelho. Por isso, atualmente procuramos preservar o máximo possível do tecido meniscal. A retirada excessiva aumenta a sobrecarga sobre a cartilagem e pode favorecer o desenvolvimento de artrose ao longo do tempo.

Principais causas das lesões meniscais

As lesões podem ser traumáticas ou degenerativas. As traumáticas são mais comuns em pessoas jovens e atletas, geralmente após movimentos de rotação do joelho com o pé apoiado, mudanças bruscas de direção, agachamentos ou traumas esportivos. Podem ocorrer junto com lesões ligamentares, especialmente do ligamento cruzado anterior.

As degenerativas aparecem com maior frequência a partir da meia-idade, devido ao desgaste progressivo do tecido meniscal. Nesses casos, atividades simples, como agachar, levantar ou girar o corpo, podem desencadear os sintomas. Obesidade, artrose, desalinhamentos do membro e atividades repetitivas de impacto também podem aumentar o risco.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico começa pela história clínica e pelo exame físico. Avaliamos o mecanismo do trauma, localização da dor, presença de inchaço, estalos, limitação de movimento e eventual travamento do joelho. A dor localizada na interlinha articular e testes específicos, como McMurray e Thessaly, ajudam na investigação.

As radiografias não mostram diretamente o menisco, mas são importantes para pesquisar artrose, alterações ósseas e desalinhamentos. Quando necessário, a ressonância magnética é o principal exame de imagem para avaliar o menisco e possíveis lesões associadas.

Entretanto, o resultado da ressonância deve sempre ser relacionado aos sintomas e ao exame físico, pois uma alteração no exame não significa, isoladamente, necessidade de cirurgia.

Nem toda lesão no menisco exige cirurgia

A decisão considera a idade e o nível de atividade do paciente, o mecanismo da lesão, o padrão e a localização da ruptura, a estabilidade do fragmento, o estado da cartilagem e, principalmente, os sintomas e a limitação funcional.

Lesões degenerativas, pequenas e estáveis, sem travamento verdadeiro, geralmente devem iniciar com tratamento conservador: ajuste das atividades, controle da dor e fisioterapia com fortalecimento muscular. Estudos mostram que, para muitas lesões degenerativas, a fisioterapia produz resultados semelhantes aos da meniscectomia artroscópica.

A cirurgia é considerada principalmente quando existe lesão deslocada com bloqueio do joelho, ruptura potencialmente reparável em paciente ativo, lesão de raiz meniscal, associação com instabilidade ligamentar ou persistência de dor e limitação após tratamento conservador bem conduzido.

A decisão deve ser individualizada: não se opera apenas o resultado da ressonância.

Quando a cirurgia é indicada

Na maioria dos casos, a cirurgia é realizada por artroscopia. Sempre que a lesão apresentar possibilidade de cicatrização, priorizamos a sutura ou o reparo meniscal, preservando o tecido.

Quando a ruptura é irreparável e existe um fragmento instável responsável pelos sintomas, pode ser realizada meniscectomia parcial, retirando somente a porção lesionada e preservando o máximo possível do menisco saudável. Algumas lesões específicas, como as rupturas da raiz meniscal, podem exigir técnicas próprias de reinserção.

A escolha depende do tipo, tamanho, localização e tempo da lesão, da qualidade do tecido, da vascularização, da idade biológica, das atividades do paciente e da existência de artrose ou lesões ligamentares associadas. O princípio atual é preservar o menisco sempre que tecnicamente possível.

O papel da fisioterapia na recuperação

A fisioterapia é fundamental tanto no tratamento conservador quanto após a cirurgia. Seus objetivos são controlar a dor e o inchaço, recuperar a amplitude de movimento, fortalecer quadríceps, músculos posteriores da coxa e glúteos, além de melhorar equilíbrio, controle neuromuscular e segurança para retornar às atividades.

Após meniscectomia parcial, a recuperação costuma ser mais rápida, com apoio e progressão funcional conforme a dor e o controle muscular. Depois de uma sutura meniscal, a reabilitação é mais cautelosa, podendo haver limitação temporária da carga, da flexão e dos movimentos de rotação, de acordo com o tipo e a localização do reparo.

O retorno ao esporte não deve depender apenas do tempo. Deve considerar ausência de dor e derrame, mobilidade completa, força, estabilidade e testes funcionais satisfatórios. O protocolo precisa ser individualizado e alinhado entre ortopedista e fisioterapeuta.

Dor persistente no joelho deve ser investigada

Dor persistente no joelho não deve ser considerada normal nem automaticamente atribuída ao menisco. Existem diversas causas possíveis, e o diagnóstico precoce permite escolher o tratamento mais adequado e evitar limitações maiores.

Procure avaliação especialmente se houver inchaço recorrente, travamento, sensação de falseio, dificuldade para apoiar o membro, perda de movimento ou dor que interfira no trabalho, no sono ou nas atividades diárias.

Na maioria das situações, a cirurgia não é a primeira opção. Uma avaliação adequada permite tratar a causa da dor com segurança e evita tanto procedimentos desnecessários quanto o atraso no tratamento de uma lesão importante.

Referências essenciais

Livros-texto

Campbell's Operative Orthopaedics. 14ª edição. Elsevier.

Rockwood and Green's Fractures in Adults. 10ª edição. Wolters Kluwer.

Diretrizes e evidências científicas

American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS). Management of Acute Isolated Meniscal Pathology: Evidence-Based Clinical Practice Guideline. 2024.

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Pujol N, et al. The formal EU-US Meniscus Rehabilitation 2024 Consensus: an ESSKA-AOSSM-AASPT initiative. Part I. Knee Surgery, Sports Traumatology, Arthroscopy. 2025;33:3002-3013.