Tíbia vara de Blount: diagnóstico precoce é essencial para evitar a progressão da deformidade

Dr. Raul Boettger explica como a alteração no crescimento da tíbia pode provocar o arqueamento progressivo das pernas e quais são as possibilidades de tratamento em cada fase da doença.

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A doença de Blount, descrita originalmente em 1922, refere-se a um distúrbio de crescimento de uma ou das duas pernas que costuma aparecer até os 3 anos de idade. Ocorre uma diminuição da velocidade de crescimento da região mais medial (ou interna) da tíbia ao nível do joelho, e, com isso, há uma deformidade progressiva com arqueamento da perna acometida que piora com o passar do tempo.

A tíbia vara de Blount, como é chamada atualmente, não deve ser confundida com o varo fisiológico dos joelhos que pode estar presente ao nascimento e persistir até entre 18 e 24 meses de idade. Tanto a aparência clínica como radiográfica são diferentes, e o varo fisiológico resolve-se espontaneamente sem sequelas.

Fatores de risco

Não se sabe a causa exata da doença, mas o acometimento de outros indivíduos da mesma família aumenta a chance de desenvolver. Além disso, um dos maiores fatores de risco já identificados é a obesidade infantil, sobretudo em crianças com mais de 2 anos que estejam acima do percentil 90 de peso para a idade.

Entende-se que o início muito precoce da marcha, antes dos 10 meses de idade, favorece o arqueamento das pernas, a obesidade dificulta a recuperação espontânea que costuma ocorrer na maioria das crianças e, com o tempo, surgem alterações irreversíveis na cartilagem de crescimento.

Sinais e sintomas

No início, as crianças acometidas não costumam apresentar sintomas, e o único sinal observável é o arqueamento cada vez maior da perna. Nos casos em que apenas um membro é acometido, costuma ser mais fácil a identificação precoce pela família ou pelo pediatra.

Com a piora da deformidade, começam a surgir sintomas inespecíficos como cansaço nas pernas ou diminuição da capacidade de percorrer distâncias maiores e fazer atividades mais intensas. A dor aos esforços pode aparecer com a evolução da doença, e só melhora após a correção da deformidade.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é suspeitado pelo ortopedista pediátrico após avaliação clínica detalhada e exame físico da criança, no qual a marcha, a estabilidade e as articulações adjacentes serão avaliadas e, então, exames de imagem podem ser solicitados.

A confirmação do diagnóstico costuma ser possível na análise de radiografias dos membros inferiores, pois há alterações radiográficas típicas da doença de Blount que o ortopedista identifica. Mesmo em crianças menores e casos iniciais, os exames podem indicar maior ou menor probabilidade de desenvolver a doença, indicando a necessidade de acompanhamento médico mais próximo.

Deve-se ter em mente que a avaliação diagnóstica da criança com as pernas arqueadas envolve a exclusão, pela avaliação clínica ou exames complementares, de outras doenças, como deficiências de vitaminas e nutrientes, distúrbios do metabolismo ósseo, síndromes genéticas e lesões ósseas.

Estágios da doença de Blount

A doença de Blount possui estágios radiográficos bem conhecidos, que influenciam diretamente o tratamento. De forma geral, observa-se que a cartilagem de crescimento da tíbia começa a apresentar uma deformidade cada vez maior, até que surge uma barra óssea, lesão irreversível indicando a parada total do crescimento, com piora cada vez mais rápida da deformidade.

Tratamento com órteses

O tratamento depende da idade da criança, do grau da deformidade e do estágio da doença. Em crianças menores, com apenas uma perna acometida, deformidades mais leves e nos estágios iniciais, existe espaço para o tratamento não cirúrgico, onde são usadas órteses ou “braces”.

Não existe consenso na literatura médica sobre a melhor forma de conduzir esse tratamento, nem sobre o melhor formato da órtese. Na maioria dos serviços, utiliza-se uma órtese chamada KAFO, que vai da raiz da coxa até o pé e permite que seja feito um apoio no sentido contrário.

O tempo de uso também é controverso, mas varia desde 12 horas por dia de uso, incluindo sono e a noite toda, a esquemas de uso por tempo integral, 23 horas por dia, sendo que o tempo total do tratamento não deve ser maior que um ano. Sabe-se, porém, que o tratamento com órtese é inadequado para crianças com mais de 3 anos, limitando seu uso.

Quando o tratamento cirúrgico é indicado

Dessa forma, em crianças maiores, com deformidades mais avançadas, recomenda-se o tratamento cirúrgico. As opções vão desde técnicas menos invasivas, como o crescimento guiado, eficaz nos estágios iniciais da doença, até opções mais complexas, como a correção aguda da deformidade, onde o osso é realinhado e fixado com pinos ou placas.

Em estágios mais avançados, a deformidade pode ser tão grande que não é possível ser corrigida em tempo único – nesses casos, costuma-se realizar a correção gradual com fixador externo.

Blount juvenil e do adolescente

A tíbia vara de Blount, mais raramente, pode acometer crianças maiores, sendo chamada de Blount juvenil (tíbia vara juvenil) quando se inicia entre os 3 e 8 anos de idade, e Blount do adolescente (tíbia vara do adolescente) quando se inicia após os 8 anos.

O problema central é o mesmo – um distúrbio de crescimento da tíbia ao nível do joelho – mas a idade de surgimento representa formas bastante diferentes de acometimento.

Quando surge mais tardiamente, no Blount do adolescente, a deformidade costuma ser menos grave, ter uma evolução mais lenta, melhor resposta ao tratamento e menor chance de recorrência. Enquanto isso, nas formas juvenis, o prognóstico é mais reservado e a necessidade de múltiplas cirurgias e procedimentos mais complexos é mais frequente.

Diagnóstico precoce é fundamental

Independentemente da idade de início, o fator mais importante para o sucesso do tratamento e para minimizar possíveis complicações ou sequelas é o diagnóstico precoce seguido pela intervenção adequada.

A doença de Blount deve ser suspeitada e descoberta o mais cedo possível, ainda no início, para que tratamentos menos invasivos possam ser alternativas a cirurgias de grande porte.