Sou formada há 15 anos pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e, durante todo o curso, sempre quis fazer cirurgia. Por isso, cursei a residência em Cirurgia Geral pela Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará (FSCMPA).
Porém, após formada, ainda não sabia exatamente qual caminho seguir. Foi quando a Mastologia me encontrou, me escolheu e eu me apaixonei pela especialidade, paixão que permanece até hoje.
A Mastologia é uma das especialidades mais fascinantes e desafiadoras que existem, pois trabalhar com câncer de mama representa um desafio diário, principalmente por ser um dos cânceres mais ligados à vaidade feminina. Saber que posso fazer a diferença na vida dessas mulheres torna a Mastologia uma especialidade mais do que gratificante.
Na verdade, a mastectomia profilática, também conhecida como mastectomia redutora de risco ou preventiva, é bem conhecida pelo público feminino, porém por outro nome: “a cirurgia da Angelina Jolie”.
Essa cirurgia tornou-se mais conhecida depois que a atriz realizou o procedimento e divulgou sua experiência, em 2013.
A mastectomia profilática nada mais é do que a remoção de uma ou ambas as mamas saudáveis em uma paciente pertencente à população de alto risco de desenvolver câncer de mama ou que já tenha câncer de mama.
Para que uma paciente seja elegível à cirurgia de mastectomia profilática, é necessário observar alguns critérios, como:
Mutações genéticas, como BRCA1, BRCA2, TP53, PALB2 e PTEN;
Histórico familiar relevante, com mãe, filha, irmã, tia ou avó com câncer de mama e/ou ovário;
Lesões precursoras de alto risco, como carcinoma lobular in situ (CLIS), carcinoma ductal in situ (CDIS) e hiperplasias atípicas;
Histórico de radioterapia prévia;
História pessoal de câncer de mama.
Sendo assim, após conversa, anamnese, exame físico e exames complementares, essa decisão não é imposta à paciente. Ela é construída por meio de um processo que leva em consideração a medicina baseada em evidências e o acolhimento da dor e do medo da paciente.
O histórico familiar é de extrema importância e deve ser considerado quando a paciente possui múltiplos casos de câncer de mama e/ou ovário em parentes de primeiro grau, principalmente quando os diagnósticos ocorreram antes dos 50 anos de idade.
Da mesma forma, os testes genéticos são imprescindíveis. Pacientes com alterações em genes como BRCA1, BRCA2, TP53, PALB2 e PTEN, entre outros, devem ser consideradas pertencentes à população de alto risco e, assim, elegíveis à cirurgia diante da grande probabilidade de desenvolver câncer de mama.
A mastectomia profilática tornou-se extremamente importante na vida das mulheres pertencentes à população de alto risco, pois consegue reduzir o risco de desenvolvimento do câncer de mama em aproximadamente 90% a 95%.
As evidências científicas atualmente indicam a mastectomia profilática como uma estratégia eficaz para redução do risco de câncer de mama. Porém, ela deve ser recomendada de forma personalizada e consciente.
O cirurgião, em conjunto com a paciente e após o exame físico, escolhe qual tipo de cirurgia será realizada, levando em consideração o que pode e como pode ser preservado.
Entre as possibilidades estão:
Skin-sparing: remoção da mama, do mamilo e da aréola;
Nipple-sparing: remoção da mama, com preservação do mamilo e da aréola.
No planejamento da reconstrução mamária, também são levados em consideração fatores como tamanho e localização do tumor, estágio da doença, qualidade e integridade da pele, biotipo e volume mamário, saúde geral da paciente, comorbidades e hábitos como o tabagismo.
A decisão de realizar a mastectomia profilática é intensa e complexa. Embora seja um procedimento capaz de reduzir o risco em mais de 90%, o impacto na saúde mental e na identidade da mulher é profundo.
Medo, culpa e luto podem fazer parte dessa decisão. Por isso, procuro manter uma escuta ativa e acolhedora e agir com empatia, pois se trata de um procedimento irreversível.
A paciente precisa sentir-se segura, estar muito bem esclarecida e compreender os riscos e benefícios para que, juntas, possamos traçar um caminho para uma boa cirurgia.
Para as mulheres com histórico familiar de câncer de mama que ainda não buscaram avaliação, o primeiro passo é procurar um mastologista para conversar e esclarecer todas as dúvidas.
Muitas vezes, um caso de câncer de mama na família, mesmo que seja em um parente de primeiro grau, não significa necessariamente que a mulher pertença à população de alto risco, apesar de poder existir uma alteração no risco de desenvolver a doença.
Isso pode deixar a paciente confusa. Por isso, é importante entender que o histórico familiar não sentencia a paciente, mas deve servir como um alerta para que ela procure o mastologista e realize os exames necessários.
O medo é natural, porém antecipar-se à doença pode mudar esse jogo. Procure uma avaliação especializada.