Despertar intraoperatório: anestesiologista explica por que o fenômeno pode acontecer durante uma cirurgia

Dr. Antonio Junior explica o que é a consciência intraoperatória acidental, por que ela pode ocorrer durante a anestesia geral e com que frequência esse evento é registrado.

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Despertar intraoperatório: anestesiologista explica por que o fenômeno pode acontecer durante uma cirurgia
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Uma trajetória construída dentro da Anestesiologia

Venho de uma família de médicos: meus pais e minhas duas irmãs também seguiram a Medicina. Meu pai, que era anestesiologista, sempre foi a minha maior inspiração. Desde que entrei na faculdade, em 1997, eu o acompanhava diariamente pelos hospitais e pude conhecer de perto a rotina, a responsabilidade e a importância da especialidade.

Assim, a Anestesiologia entrou naturalmente na minha vida. É uma área desafiadora e apaixonante, que exige conhecimento técnico, raciocínio rápido, atenção permanente e capacidade de cuidar de pacientes em momentos de grande vulnerabilidade. Com o tempo, ela me conquistou e me preencheu por completo.

Atuo há quase 20 anos no Hospital Adventista de Belém, onde recebemos pacientes para cirurgias das mais diversas especialidades. Essa variedade me permite vivenciar a Anestesiologia de forma muito ampla, enfrentando diferentes desafios e cuidando de pacientes com necessidades bastante distintas.

Desde 2007, também atuo como preceptor da residência médica em Anestesiologia. Ensinar aumenta ainda mais a nossa responsabilidade: exige estudo contínuo, atualização científica e disposição para questionar a própria prática. Ao mesmo tempo em que procuro transmitir o melhor da especialidade aos futuros colegas, essa convivência também me estimula a continuar aprendendo e evoluindo como médico e anestesiologista.

A consciência intraoperatória acidental é um evento raro durante a anestesia geral

O termo mais preciso é consciência intraoperatória acidental durante a anestesia geral. Ela ocorre quando o paciente recupera algum grau de consciência em um período no qual deveria permanecer inconsciente e, posteriormente, pode recordar sons, sensações ou acontecimentos da cirurgia.

Isso não significa necessariamente abrir os olhos ou acordar completamente. Em geral, é um episódio breve, mais frequente durante a indução ou o despertar da anestesia. Pode acontecer quando há interrupção ou administração insuficiente do anestésico, falha em bombas ou linhas intravenosas, necessidade de limitar as doses por instabilidade cardiovascular ou uma necessidade anestésica acima da esperada.

É um evento raro. A frequência varia conforme a forma de investigação: aproximadamente 5 casos em 100 mil anestesias nos relatos espontâneos, mas cerca de 1 a 2 casos em mil quando os pacientes são entrevistados ativamente. Essa diferença ocorre porque muitos casos breves não são relatados espontaneamente.

Alguns fatores podem aumentar o risco de consciência durante a anestesia

O principal fator associado é o uso de bloqueadores neuromusculares. Esses medicamentos são importantes para determinadas cirurgias, mas impedem o paciente de se movimentar. Portanto, se a anestesia estiver insuficiente, um dos principais sinais de alerta desaparece. O bloqueador não causa a consciência, mas pode mascará-la e tornar a experiência de paralisia mais angustiante.

O risco também aumenta em cirurgias de emergência, trauma, cesariana sob anestesia geral e operações cardíacas ou torácicas. Outros contextos relevantes são intubação difícil, indução em sequência rápida, anestesia venosa total associada a bloqueio neuromuscular, falhas em bombas ou acessos venosos e situações nas quais doses menores precisam ser utilizadas por hipotensão ou grave instabilidade clínica.

A história anterior de consciência intraoperatória deve sempre ser comunicada. O uso crônico de álcool, opioides, sedativos, estimulantes ou outras drogas também precisa ser informado, pois pode alterar a resposta aos anestésicos.

Sexo feminino, idade mais jovem, obesidade e cirurgia fora do horário habitual aparecem como associações em alguns estudos, mas não determinam isoladamente que o evento ocorrerá.

A prevenção depende de diferentes formas de monitorização

Ainda não existe um monitor capaz de medir diretamente e com certeza absoluta se uma pessoa está consciente. A segurança vem da combinação de várias informações e barreiras preventivas.

Durante o procedimento, acompanho continuamente pressão arterial, frequência cardíaca, movimentos, sudorese, lacrimejamento e resposta ao estímulo cirúrgico, embora esses sinais não sejam específicos. Nas anestesias inalatórias, monitoramos a concentração do anestésico que o paciente expira e utilizamos alarmes para detectar concentrações inadequadas.

Na anestesia venosa total, são fundamentais a conferência da bomba, da programação, da seringa, do acesso e de toda a linha intravenosa, porque não existe uma medida rotineira da concentração de propofol no organismo.

Quando há maior risco, especialmente em anestesia venosa total associada a bloqueio neuromuscular, podemos utilizar monitores derivados do eletroencefalograma, como BIS, Entropia ou PSI.

Esses monitores são auxiliares, não detectores infalíveis de consciência. Seus valores podem ser afetados por medicamentos, idade, atividade muscular, artefatos e características individuais.

Também empregamos monitorização neuromuscular quantitativa para usar apenas o bloqueio necessário e confirmar sua reversão antes de permitir o despertar.

A experiência durante um episódio pode variar entre os pacientes

A experiência varia muito. Alguns pacientes relatam apenas ter ouvido conversas ou ruídos. Outros percebem toque, pressão, manipulação, o tubo respiratório ou a sensação de não conseguir se mover.

Dor pode acontecer, mas não está presente em todos os episódios e parece ser menos frequente do que as lembranças auditivas ou táteis.

A combinação de consciência e paralisia costuma ser a experiência mais angustiante, porque a pessoa pode tentar falar ou se movimentar e não conseguir. Isso pode provocar sensação de sufocamento, pânico ou medo de morrer.

Também é importante distinguir consciência de memória: uma pessoa pode apresentar momentaneamente alguma conexão com o ambiente e não guardar lembrança posterior. Da mesma forma, sonhos e recordações da sala de recuperação não são, por si só, consciência intraoperatória.

O despertar intraoperatório pode provocar repercussões psicológicas

Muitos pacientes não desenvolvem consequências permanentes, especialmente quando o episódio foi breve, sem dor ou paralisia e recebeu uma explicação adequada.

Entretanto, uma parcela pode apresentar ansiedade, insônia, pesadelos, flashbacks, medo de hospitais, recusa de novas cirurgias, sintomas depressivos, transtorno de estresse agudo ou transtorno de estresse pós-traumático.

O risco de repercussão psicológica é maior quando há paralisia, dor, pânico ou percepção de ameaça à vida. Por isso, o relato nunca deve ser descartado como apenas um sonho.

A conduta adequada inclui ouvir o paciente sem julgamento, registrar detalhadamente a experiência, revisar o prontuário e o funcionamento dos equipamentos, explicar o que pode ter ocorrido e manter acompanhamento.

Perguntas estruturadas podem ser repetidas, porque algumas lembranças surgem somente dias depois. Havendo sofrimento persistente, o paciente deve ser encaminhado precocemente para avaliação psicológica ou psiquiátrica e acompanhado até a resolução dos sintomas.

Os protocolos anestésicos passaram a utilizar diferentes barreiras de segurança

A principal mudança foi abandonar a ideia de que um único aparelho resolveria o problema. Hoje trabalhamos com um conjunto de barreiras: identificação prévia dos pacientes de risco, checagem sistemática do equipamento, monitorização contínua da administração do anestésico, alarmes de baixa concentração dos agentes inalatórios e protocolos específicos para anestesia venosa total.

Também houve maior preocupação com a visualização e segurança das linhas intravenosas, programação das bombas, continuidade da anestesia durante transferências e passagens de caso, além do uso de EEG processado nos contextos em que ele acrescenta segurança.

Outro avanço importante foi a monitorização neuromuscular quantitativa. O objetivo é utilizar a menor quantidade de bloqueador necessária e só permitir o despertar quando a recuperação muscular estiver objetivamente confirmada.

Por fim, foram criados protocolos de investigação e acompanhamento psicológico para os casos suspeitos.

Essas medidas reduziram falhas evitáveis, mas o risco não chegou a zero e a implementação ainda varia bastante entre instituições.

Comunicação antes da cirurgia também contribui para a segurança

Meu primeiro recado é que esse medo é compreensível, mas a consciência intraoperatória é rara. A anestesia moderna utiliza várias camadas de monitorização, e o anestesiologista permanece acompanhando continuamente o paciente e a administração dos medicamentos.

Na consulta pré-anestésica, o paciente deve falar abertamente sobre esse medo e informar se já teve alguma lembrança durante uma anestesia anterior. Também precisa relatar todos os medicamentos utilizados, consumo de álcool, opioides, cannabis, estimulantes ou outras substâncias. Esconder essas informações por vergonha pode atrapalhar justamente o planejamento que aumenta a segurança.

O paciente pode perguntar qual técnica será utilizada e como a administração do anestésico será monitorada. Isso não significa exigir um aparelho específico, porque o melhor conjunto de monitores depende da cirurgia, da técnica e das condições clínicas.

Não existe anestesia com risco absolutamente zero, e prometer isso seria desonesto. Mas uma avaliação cuidadosa, uma equipe treinada, equipamentos conferidos e comunicação franca tornam esse evento extremamente incomum.


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