Miopia pode diminuir? Entenda o que acontece com o grau ao longo do tempo

Dra. Rita Vallinoto, oftalmopediatra, explica por que a miopia costuma progredir durante a infância e a adolescência, quando pode se estabilizar e quais estratégias ajudam a controlar sua evolução.

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Minha trajetória na Oftalmologia

Minha trajetória na Oftalmologia começou há cerca de 25 anos. Ao longo desse caminho, percebi que cuidar da visão infantil vai muito além de prescrever óculos: significa acompanhar o desenvolvimento visual em uma fase decisiva para a aprendizagem, a autonomia e a qualidade de vida.

Foi essa percepção que me levou a aprofundar meus estudos em Oftalmopediatria. O contato diário com crianças e suas famílias despertou em mim um interesse especial pela prevenção e pelo acompanhamento contínuo de condições como a ambliopia e a miopia.

Com o aumento da miopia entre crianças e adolescentes, passei a me dedicar ainda mais ao controle de sua progressão, buscando oferecer uma abordagem individualizada, baseada em evidências científicas e construída em parceria com a família. Hoje, essa é uma das áreas que mais me realiza dentro da Oftalmologia.

A miopia se desenvolve pelo alongamento do olho e o grau pode aumentar ao longo do tempo 

A miopia se desenvolve, na maioria das crianças, quando o olho cresce mais do que o esperado no sentido anteroposterior, processo chamado de alongamento axial. Com isso, a imagem dos objetos distantes é focalizada antes da retina, provocando visão borrada para longe.

Sua progressão é multifatorial. Existe uma predisposição genética, especialmente quando um ou ambos os pais são míopes, mas os fatores ambientais também são muito importantes. Pouco tempo ao ar livre, atividades prolongadas de perto, distância de leitura muito curta e ausência de pausas visuais podem contribuir para o surgimento e a progressão da miopia.

As telas não devem ser consideradas a única causa, mas podem aumentar o tempo de esforço visual próximo e reduzir as atividades externas.

A idade de início também é determinante: quanto mais cedo a miopia aparece, maior tende a ser o período em que o olho continuará crescendo e, consequentemente, maior o risco de alcançar graus elevados.

Por isso, no acompanhamento, não devemos observar apenas o número do grau, mas também a velocidade de progressão e, quando possível, o crescimento do comprimento axial. Essa avaliação permite identificar precocemente as crianças de maior risco e definir uma estratégia individualizada de controle.

A miopia costuma se estabilizar no fim da adolescência ou no início da vida adulta 

A miopia costuma progredir mais rapidamente durante a infância, especialmente quando surge em idades precoces. Em muitos pacientes, essa progressão desacelera ao longo da adolescência e tende a se estabilizar no final dessa fase ou no início da vida adulta, geralmente entre 18 e 21 anos.

Entretanto, não existe uma idade única. Algumas pessoas podem continuar apresentando aumento do grau e alongamento axial após os 20 anos.

Esse processo é influenciado pela idade de início da miopia, predisposição genética, velocidade de crescimento ocular, histórico familiar, intensidade das atividades realizadas de perto e tempo ao ar livre. Quanto mais cedo a miopia começa, maior tende a ser o risco de progressão prolongada e de desenvolvimento de alta miopia.

Também é importante diferenciar diminuição da velocidade de progressão de estabilização verdadeira. Não devemos considerar a miopia estabilizada apenas pela idade ou porque o grau permaneceu semelhante em uma única consulta.

Essa confirmação exige acompanhamento ao longo do tempo, com avaliação da refração e do comprimento axial. Mesmo após a estabilização, o acompanhamento oftalmológico deve continuar, principalmente nos pacientes com graus elevados.

A miopia raramente diminui espontaneamente 

Na miopia axial verdadeira, que é a forma mais comum na infância e na adolescência, a diminuição espontânea e permanente do grau é incomum. Isso ocorre porque o olho se torna míope principalmente pelo aumento do seu comprimento axial, e esse crescimento não costuma regredir naturalmente.

Entretanto, pequenas reduções ou oscilações do grau podem aparecer entre diferentes consultas. Elas podem estar relacionadas à acomodação, à técnica utilizada no exame, ao uso ou não de colírio cicloplégico e a alterações da córnea ou do cristalino.

Por isso, uma aparente melhora na refração não significa necessariamente que o olho tenha se encurtado ou que a miopia tenha sido revertida.

Alguns tratamentos, como a ortoceratologia, podem reduzir temporariamente o grau durante o dia, enquanto outras estratégias procuram diminuir a velocidade de progressão. Porém, controlar a miopia não significa eliminá-la.

Portanto, não é correto prometer que o grau desaparecerá espontaneamente. O objetivo do acompanhamento é controlar o crescimento ocular, preservar a saúde dos olhos e reduzir o risco de alta miopia e de suas complicações futuras.

Fatores genéticos, o crescimento ocular e os hábitos visuais contribuem para o avanço da miopia 

O avanço da miopia resulta da interação entre predisposição genética, crescimento ocular e fatores ambientais. Um dos principais indicadores de risco é o início precoce: quanto mais jovem a criança ao se tornar míope, maior costuma ser a velocidade de progressão e mais tempo o olho terá para continuar crescendo.

O histórico familiar também é relevante, sobretudo quando ambos os pais são míopes.

Entre os fatores ambientais, destacam-se períodos prolongados de atividades de perto, leitura ou uso de telas a distâncias muito curtas, poucas pausas visuais, maior exigência educacional e pouco tempo em ambientes externos.

As telas não devem ser apontadas isoladamente como responsáveis. O problema está no conjunto de hábitos, especialmente no excesso de visão de perto associado à redução das atividades ao ar livre.

A velocidade de progressão varia entre as crianças e tende a ser maior durante as fases de crescimento. Por isso, é fundamental acompanhar periodicamente a refração e, quando possível, o comprimento axial.

Também é importante esclarecer que usar óculos não faz o grau aumentar. O que favorece o avanço é o próprio curso da miopia sem controle adequado. Identificar precocemente os fatores de risco permite instituir medidas para desacelerar a progressão e reduzir a possibilidade de alta miopia no futuro.

Existem estratégias atuais para controlar a progressão da miopia 

Atualmente, dispomos de diferentes estratégias para controlar a progressão da miopia. Entre elas estão os óculos com tecnologias específicas de desfocagem miópica, as lentes de contato gelatinosas especiais, a ortoceratologia — realizada com lentes rígidas de uso noturno — e a atropina em baixas concentrações.

Em alguns pacientes de maior risco ou com resposta insuficiente, pode ser considerada a associação de tratamentos.

As medidas comportamentais também fazem parte do cuidado: aumentar o tempo ao ar livre, manter uma distância adequada nas atividades de perto, fazer pausas visuais e equilibrar o uso de telas.

Elas são importantes, mas, quando a miopia já está progredindo, geralmente não substituem o tratamento óptico ou farmacológico.

A escolha depende da idade, do grau, do comprimento axial, da saúde da córnea e da superfície ocular, da maturidade para cuidar das lentes, da rotina familiar e da possibilidade de adesão.

Não existe uma única estratégia ideal para todos. Na minha prática, o tratamento é individualizado e acompanhado periodicamente por meio da refração e biometria ocular.

O objetivo não é prometer que a miopia irá parar completamente, mas reduzir sua velocidade de progressão e, consequentemente, o risco de alta miopia e de complicações oculares no futuro.

O acompanhamento oftalmológico durante o crescimento deve ser regular e individualizado 

O acompanhamento começa com uma avaliação completa: acuidade visual, refração sob cicloplegia, exame da saúde ocular, histórico familiar, idade de início da miopia e análise dos hábitos visuais, como tempo de telas, atividades de perto e exposição ao ar livre.

Realizamos também a biometria para medir o comprimento axial do olho, pois o grau pode variar sem refletir exatamente o crescimento ocular. A topografia da córnea é indicada principalmente nos pacientes que utilizarão lentes de contato ou ortoceratologia.

Durante o crescimento, as consultas costumam acontecer a cada seis meses. Nelas, avaliamos a evolução do grau, o crescimento axial, a acuidade visual, a saúde ocular, a adesão ao tratamento e a rotina da criança.

A biometria e a topografia podem ser programadas conforme o risco e o tratamento utilizado, frequentemente de forma anual, mas antecipadas quando há progressão mais rápida.

Em crianças muito pequenas, com evolução acelerada ou no início de um tratamento, o acompanhamento pode ser realizado em intervalos menores, como a cada três ou quatro meses. Pacientes em adaptação de lentes de contato, especialmente ortoteratológicas, também precisam de retornos iniciais mais próximos para avaliar a adaptação.

Esse acompanhamento deve continuar até que a estabilidade seja confirmada ao longo do tempo. O objetivo não é apenas atualizar os óculos, mas acompanhar o desenvolvimento ocular, avaliar a resposta ao tratamento e fazer ajustes precoces sempre que necessário.

A avaliação precoce faz diferença na infância

Meu principal recado para os pais é: não esperem a criança reclamar para procurar uma avaliação. Muitas vezes, ela não consegue perceber ou explicar que está enxergando mal, porque acredita que aquela é a forma normal de ver.

Aproximar-se muito das telas ou dos livros, apertar os olhos, apresentar dores de cabeça, desinteresse pela leitura ou dificuldade na escola são sinais que merecem atenção.

Na infância, o tempo faz diferença. Uma alteração visual identificada precocemente pode ser tratada ou acompanhada no momento adequado, evitando prejuízos ao desenvolvimento, à aprendizagem e à qualidade de vida.

No caso da miopia, quanto mais cedo ela começa, maior pode ser o risco de progressão. Portanto, buscar o oftalmologista não é exagero: é uma atitude de prevenção e cuidado com o futuro visual da criança.