Dispneia: especialista explica principais condições que podem causar falta de ar e quando procurar auxílio médico

Dra. Yuka Tsuchiyama, pneumologista, explica como diferenciar falta de ar de cansaço, quais condições podem estar associadas ao sintoma e em quais situações é necessário buscar atendimento médico.

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  Minha trajetória até a Pneumologia 

Minha trajetória até a Medicina e, depois, até a Pneumologia, foi um caminho cheio de descobertas e algumas mudanças de direção.

Cresci no interior do Pará, em Paragominas, e não tive referências médicas na família. A Medicina não era um sonho que eu carregava desde criança. Na verdade, ela apareceu na minha vida de uma maneira um pouco inesperada.

Depois do ensino médio, comecei a cursar Psicologia. Foi durante as aulas de Anatomia, no primeiro ano da faculdade, que percebi o quanto gostava de estudar o corpo humano e de entender como ele funcionava. Aquela experiência despertou em mim uma vontade que até então eu não conhecia: a de fazer Medicina.

Eu sempre tive o desejo de estudar na UFPA e, para conseguir esse objetivo, fiz dois anos de cursinho. Em 2017, finalmente me formei em Medicina.

Depois da graduação, veio outra grande dúvida: qual especialidade escolher? Eu não tinha uma resposta pronta. Cheguei a iniciar a residência de Otorrinolaringologia e permaneci por seis meses. Sair foi uma decisão muito difícil, porque significava abrir mão de um caminho que eu já havia começado.

Enquanto tentava entender qual área realmente fazia sentido para mim, entrei na residência de Clínica Médica. E foi justamente nesse período que aconteceu algo que acabou sendo decisivo: a pandemia de COVID-19.

Durante a pandemia, tive contato intenso com pacientes com doenças respiratórias e com toda a complexidade que envolve cuidar de alguém com dificuldade para respirar. Foi nesse cenário, tão desafiador, que percebi que a área respiratória despertava em mim um interesse diferente.

Quando terminei a residência de Clínica Médica, a escolha ficou mais clara. Logo depois, entrei na residência de Pneumologia no IAMSPE, em São Paulo.

Hoje, olhando para trás, vejo que minha trajetória não foi linear — e talvez justamente por isso tenha sido tão importante. Eu precisei experimentar, ter dúvidas, mudar de caminho e me permitir descobrir, ao longo do processo, qual área realmente fazia sentido para mim. A Pneumologia acabou sendo essa escolha.

A dispneia é diferente de uma simples sensação de cansaço

A falta de ar, ou dispneia, é a sensação de dificuldade ou desconforto para respirar. É aquela percepção de que o ar não está sendo suficiente, de que é preciso fazer mais esforço para respirar ou até de que existe uma sensação de “aperto” ou “sufocamento”.

Já o cansaço é diferente. Ele está mais relacionado à sensação de perda de energia ou de incapacidade de continuar uma atividade, podendo acontecer mesmo quando a pessoa está respirando normalmente.

Doenças pulmonares, cardíacas e outras condições podem causar falta de ar

As condições clínicas mais frequentes estão relacionadas ao sistema cardiorrespiratório.

Entre as doenças pulmonares, temos as doenças pulmonares obstrutivas, como asma e DPOC, doenças intersticiais com fibrose pulmonar, hipertensão pulmonar e, em casos mais agudos, as infecções pulmonares.

Na parte cardíaca, é sempre importante investigar insuficiência cardíaca e arritmias.

Além disso, deve-se descartar o descondicionamento físico, obesidade, anemia e fatores emocionais.

Na avaliação clínica, é importante obter a história do início do sintoma, identificar fatores que melhoram ou pioram e verificar se existem outros sintomas associados, como chiado no peito, tosse ou edema de membros inferiores.

Além disso, exames complementares são essenciais para o diagnóstico da causa.

A investigação busca identificar se a origem da dispneia é pulmonar, cardíaca ou de outra natureza

É essencial obter a história clínica do sintoma desde o início do quadro, pesquisar fatores que pioram ou melhoram e verificar se existem outros sintomas associados, como tosse, sibilos, dor torácica ou edema de membros inferiores.

Após isso, são solicitados exames complementares, como prova de função pulmonar, ecocardiograma, eletrocardiograma e hemograma.

Alguns sinais associados à falta de ar exigem atendimento de urgência

Deve-se procurar atendimento de urgência quando a falta de ar é súbita ou intensa, especialmente se estiver piorando rapidamente ou ocorrer mesmo em repouso.

Também é importante ficar atento quando ela vem acompanhada de dor ou pressão no peito, desmaio ou confusão mental, lábios ou extremidades arroxeados, dificuldade para falar frases completas, sudorese intensa, palpitações importantes ou uso de musculatura acessória para respirar.

Outro sinal de alerta é quando a pessoa apresenta uma queda importante da saturação de oxigênio, principalmente se isso for diferente do seu padrão habitual.

Exames respiratórios e cardíacos fazem parte da investigação da dispneia

Os exames iniciais para investigação da dispneia incluem a avaliação da parte respiratória com espirometria com broncodilatador e da parte cardíaca com eletrocardiograma e ecocardiograma.

Se houver necessidade, também podemos solicitar exames de esforço, como o teste de exercício cardiopulmonar, que avalia o sistema cardiorrespiratório e periférico.

O tratamento depende da causa identificada

Se a causa da dispneia for pulmonar, o tratamento vai depender da doença.

Se o paciente tiver diagnóstico de asma ou DPOC, existem no mercado diversos medicamentos inalatórios com efeito broncodilatador e anti-inflamatório. A escolha do melhor dispositivo vai depender do resultado da espirometria, do status funcional e da condição financeira do paciente.

Se for uma doença intersticial, o tratamento vai depender da etiologia. Atualmente, existem terapias imunossupressoras e antifibróticas que reduzem a perda funcional pulmonar.

Além disso, a reabilitação cardiorrespiratória é essencial para a melhora da qualidade de vida desses pacientes.

Nas etiologias cardiológicas, o cardiologista avaliará o melhor tratamento.

A falta de ar não deve ser normalizada

Meu principal recado é: cuidar da respiração é cuidar da sua vida.

Muitas pessoas passam a reduzir suas atividades, evitam exercícios ou simplesmente acreditam que estão “fora de forma”, quando, na verdade, pode existir uma causa que precisa ser investigada e tratada.

A falta de ar é um sintoma, e não um diagnóstico. Ela pode estar relacionada a diferentes condições, desde problemas respiratórios e cardíacos até anemia, descondicionamento físico e outras situações.

Se você percebe que está ficando sem ar com atividades que antes realizava normalmente, que os episódios estão se tornando mais frequentes ou que sua capacidade de fazer exercícios diminui, vale a pena procurar uma avaliação médica.

Investigar não significa necessariamente que exista uma doença grave. Significa entender o que está acontecendo e, quando houver uma causa tratável, ter a oportunidade de cuidar dela e recuperar qualidade de vida.