Prevenção de morte súbita no esporte

A morte súbita no esporte pode ser prevenida. O atendimento padronizado e rápido mais do que dobra as chances de reversão de parada cardiorrespiratória.

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A morte súbita relacionada à prática esportiva é um evento raro. Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), sua incidência é de 1  a 2 casos a cada 100 mil pessoas por ano. Desse modo, por que as notícias de mortes durante provas esportivas têm aumentando nos últimos anos? A resposta é simples: o número de pessoas que têm praticado atividade física e participado de provas de rua cresceu muito nas últimas década, portanto é esperado que as mortes relacionadas a esse tipo de evento também aumentem. Veja também: Como sair do sedentarismo e incluir exercícios na rotina Isso nos deixa uma pergunta: será que estamos preparados para prevenir as mortes súbitas no esporte (MSE)? Como os organizadores de eventos esportivos podem se adequar para atender pessoas que eventualmente passem mal durante uma prova de rua? E nas academias, escolas e clubes? Com o objetivo de reduzir os casos de morte súbita no esporte, a Confederação Pan-Americana de Medicina do Esporte (Copamede) e a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) atualizaram, em julho deste ano, suas diretrizes para a prevenção da morte súbita no esporte. “O objetivo foi estabelecer uma padronização de prevenção e atendimento de casos de parada cardiorrespiratória durante a prática esportiva”, conta o médico Marcelo Leitão,  editor do documento.   Casos recentes Como foi dito, eventos de parada cardiorrespiratória (PCR) no esporte são infrequentes, mas seus desfechos são geralmente graves e, muitas vezes, letais. No futebol, a morte do zagueiro Paulo Sérgio Oliveira da Silva, o Serginho, de 30 anos, jogador do São Caetano, após sofrer uma arritmia cardíaca seguida de parada cardiorrespiratória em campo no Estádio do Morumbi, em São Paulo, chocou a população em 2004.  Vinte anos depois, no mesmo estádio, outro zagueiro morreu em campo, Juan Izquierdo, de 27 anos, jogador do Nacional (Uruguai),  Nas provas envolvendo corrida, apenas em 2026 ocorreram pelo menos cinco casos de morte súbita no país, todos em pessoas com idades entre 40 e 50 anos. Cabe ressaltar que embora não sejam frequentes, os casos impressionam por seu desfecho trágico. E isso por si só já é suficiente para levar médicos do esporte a exigirem mais segurança nos esportes.   Benefícios e riscos da prática esportiva Os benefícios da prática de exercícios físicos já estão consolidados na literatura médica. Os dados de inúmeras revisões sistemáticas e estudos observacionais demonstram que a atividade física regular reduz significativamente o risco de mortalidade por todas as causas, além de diminuir, também, o risco de várias doenças, como as doenças cardiovasculares, diabetes, câncer, obesidade, entre outras. Embora essencial para promover a saúde geral, a prática esportiva também pode estar associada a um risco mais elevado de ocorrência de eventos adversos, dentre os quais se destaca a MSE. Embora o número absoluto desses eventos seja baixo, com o aumento de praticantes de atividade física, a tendência é que os casos de MSE aumentem. Portanto, pensar em mais segurança para a prática de atividade física não significa, de forma nenhuma, incentivar as pessoas a se afastarem dos esportes, ao contrário, é uma maneira de evitar desfechos que possam levá-las a isso. De acordo com as novas diretrizes da Copade/SBMEE: “Os benefícios do exercício são dose-dependentes, progressivos e amplamente superiores aos riscos associados à sua prática, mesmo quando considerados os eventos adversos raros que serão abordados neste documento. Portanto, qualquer discussão sobre segurança na prática esportiva deve ser precedida e permanentemente contextualizada pela afirmação central: a atividade física deve ser incentivada, prescrita e praticada por toda a população“.   Avaliação Médica Pré-Participação As novas diretrizes visam a atualizar as orientações técnico-científicas para atletas (profissionais ou não), entidades esportivas, corpo técnico, organizadores de eventos, profissionais de saúde, entre outros. A última atualização do documento havia sido feita em 2005, após a morte do jogador Serginho. Entre as atualizações está a exigência de uma avaliação médica pré-participação, para identificar as condições clínicas pré-existentes Isso porque, de acordo com o documento, a MSE ocorre, em sua maioria, por doença cardiovascular previamente não diagnosticada, incluindo cardiomiopatias, canalopatias, doença coronariana e anomalias estruturais. Por isso a necessidade de cobrar dos organizadores de eventos que os inscritos se submetam à avaliação médica prévia, que deve incluir, segundo as sociedades médicas, eletrocardiograma de repouso, ecocardiograma e teste de esforço e avaliação genética quando aplicável, além, é claro, do exame físico.   Prevenção Secundária: atendimento da PCR O documento afirma que em praticantes de modalidades esportivas, atletas competitivos apresentam um risco de MSE duas a quatro vezes maior do que em não atletas da mesma faixa etária. Assim, a educação para identificar e agir em caso de paradas cardiorrespiratórias (PCR) e a presença de desfibriladores externos automáticos (DEAs) nos locais da prática esportiva são fundamentais para a segurança de todos, afirmam as sociedades médicas. Toda a equipe técnica dos eventos deve saber como agir e como comunicar os casos com rapidez, pois há uma janela de 3 a 5 minutos para agir nessas situações. Por isso, o documento pede que haja um DEA a cada quilômetro, caso o aparelho precise ser deslocado a pé. “Essa janela de tempo é fundamental. O índice de sucesso [da ressuscitação cardiorrespiratória, RCP] mais que dobra quando agimos em até 5 minutos“, afirma Leitão.   Plano de ação de emergência O plano apresentado pelas sociedades médicas visa a identificar os casos de parada cardiorrespiratória para ação imediata. Entre as medidas estão: acesso à RCP e DEAs: definir a localização dos DEAs e os procedimentos para seu acionamento célere; coordenação com serviços de emergência locais: estabelecer protocolos claros para o acionamento de unidades de suporte avançado e hospitais de referência; treinamento e simulação regulares: realizar simulações periódicas para validação do plano e assegurar a prontidão de todos os envolvidos; reconhecimento rápido: capacitar o corpo técnico a identificar sinais de PCR (perda de consciência, ausência de pulso palpável, respiração agônica ou ausente). Cada local deve contar com DEAs, equipamentos para ressuscitação, como ressuscitadores manuais (ambu), suprimento de oxigênio, suprimentos médicos básicos, como materiais para curativos, meios de transporte e um sistema de comunicação eficiente. “Precisamos atuar antes e durante a prova. Antes, com avaliação pré-participação e identificação de pessoas de maior risco. Durante, com um plano de emergência realmente estruturado: equipes treinadas, DEA acessível rapidamente, ambulâncias bem posicionadas e comunicação eficiente. Não adianta apenas ter uma ambulância ou um DEA; é preciso que todo o sistema funcione e que a resposta seja rápida”, explica Cidinha Ikegiri, ginecologista e médica do esporte e uma das colaborados do documento.   Implementação Mas será que é viável cobrar exames prévios de todos os inscritos em provas de rua, como corridas?  Leitão acha que sim. “E não falo apenas como um ‘achismo’. Fui diretor médico da Maratona Internacional de Foz do Iguaçu (PA), organizada pelo Sesc Paraná, e eles concordaram em instituir a obrigatoriedade da avaliação médica. Houve algumas reclamações, mas isso não alterou o número de inscritos”, diz A avaliação exigida teria a validade de um ano, e os atletas poderiam apresentar a mesma avaliação em vários eventos, sem necessidade de se submeter à nova nesse período. A aplicação das recomendações para o atendimento de emergências cardíacas requer adaptação e integração dos distintos locais onde a atividade física e esportiva é desenvolvida. Isso engloba clubes, instituições de ensino, academias, eventos esportivos e demais organizações correlatas. É preciso conscientizar e educar praticantes de atividades físicas e preparar as equipes dos eventos e locais onde a prática é realizada. Todos devem estar prontos para identificar os casos de parada cardiorrespiratória que, embora raros, podem ser fatais. “A mensagem mais importante é que não queremos criar medo em relação ao exercício Muito pelo contrário: atividade física é uma das ferramentas mais importantes que temos para promover saúde e deve continuar sendo incentivada. O que precisamos é fazer com que cada vez mais pessoas pratiquem esporte, mas dentro de uma cultura que trate segurança e prevenção como parte da própria organização do evento, e não como algo opcional”, finaliza Ikegiri. “Queremos criar uma cultura em que as pessoas entendam que é importante elas terem conhecimento da sua situação de saúde e que consequentemente possam se beneficiar desse tipo de atitude preventiva”, explica Leite. The post Prevenção de morte súbita no esporte first appeared on Portal Drauzio Varella.

Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/coluna-da-mariana-varella/prevencao-de-morte-subita-no-esporte/