Eleições 2026: o que os candidatos à Presidência pensam sobre as mudanças climáticas?
As mudanças climáticas vieram para ficar. Saiba o que os planos de governo dos candidatos à presidência propõem para combatê-las.
As mudanças climáticas estão longe de ser um problema exclusivamente ambiental. Ondas de calor, secas prolongadas, enchentes e outros eventos extremos afetam não só a saúde da população, mas também a capacidade de resposta do próprio Sistema Único de Saúde, o SUS. Hoje, no Brasil, 29% dos estabelecimentos de saúde, 26% dos leitos e 20% dos leitos de UTI estão localizados próximos a áreas com alto ou muito alto risco de desastres naturais. Crianças e adultos de baixa renda são os mais vulneráveis. Depois da pandemia de covid-19, que acumulou quase 670 mil mortes, o país passou por avanços nesse sentido. A criação do Departamento de Emergências em Saúde Pública na Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), a entrada do Brasil na Rede Global de Alerta e Resposta a Surtos (ou Global Outbreak Alert and Response Network), a ativação de Centros de Operações de Emergência (COE) e a institucionalização da Força Nacional do SUS após as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 foram algumas delas. No entanto, a Lei 13.979/2020, criada emergencialmente para permitir ao poder público responder à pandemia, expirou e nenhuma outra medida permanente foi aprovada no lugar. Propostas dos candidatos à presidência para a emergência climática Segundo especialistas, um dos principais obstáculos é a falta de uma resposta coordenada entre os diferentes órgãos públicos. É nesse contexto que as propostas dos cinco candidatos à Presidência mais bem colocados na última pesquisa de intenção de voto da Quaest, divulgada em 14 de setembro, ganham relevância: Lula (PT) Luiz Inácio Lula da Silva propõe a preparação das cidades e dos campos para o desafio climático através de obras de contenção de encostas, drenagem urbana sustentável, conservação dos solos, modernização dos sistemas de alerta precoce para os produtores, entre outras estratégias. Ele também se compromete a elaborar critérios de sustentabilidade para orientar as práticas produtivas e cumprir compromissos climáticos, como o de cortar entre 59% e 67% das emissões de gases do efeito estufa até 2035, assinado durante a COP29. Em relação aos impactos dos desastres naturais para a saúde, Lula não cita um plano de prevenção, apenas sugere a integração das políticas de assistência social como uma forma de proteger famílias atingidas por eventos extremos. Flávio Bolsonaro (PL) Flávio Bolsonaro também propõe a construção de infraestrutura voltada ao combate de eventos climáticos extremos, como a construção de barragens, reservatórios de controle de cheias, diques, canais e obras de drenagem e macrodrenagem. Como estratégia preventiva, o candidato sugere o fortalecimento do monitoramento, alerta e resposta da Defesa Civil frente às emergências climáticas, mas não detalha como isso será feito e nem quais serão os desdobramentos para a saúde pública. Augusto Cury (Avante) Augusto Cury, por sua vez, sugere, no campo, a ampliação do plano de seguro que cobre prejuízos relacionados ao clima ao produtor rural; e nas cidades, a construção de obras públicas modernas e resistentes a eventos climáticos extremos. Ele estimula a transição energética para fontes renováveis, a regulamentação do mercado de créditos de carbono e a instituição de mecanismos que remuneram o produtor rural que preserva a sua vegetação nativa. O candidato propõe ainda a atuação do Brasil em negociações globais sobre o clima, inserindo a Amazônia e a biodiversidade nacional como ativos estratégicos. Não há, no entanto, nenhuma proposta de prevenção a emergências climáticas, nem preocupação com os impactos que as mudanças ambientais possam ter na saúde da população. Renan Santos (Missão) O candidato Renan Santos não traz menções ou propostas específicas para emergências climáticas. O documento apenas aborda, sob o que chama de “era de instabilidade climática”, a previsão de marcos regulatórios, licenciamento ambiental e incentivos para a transição energética e fontes renováveis. Ronaldo Caiado (PSD) Já Ronaldo Caiado propõe estratégias para combater o desmatamento, a grilagem e mineração ilegal, além de dar mais previsibilidade ao empreendedor e remuneração a quem conserva. Quanto às emergências climáticas, as propostas permanecem no âmbito da transição energética, adaptação de redes elétricas e infraestrutura para lidar com eventos extremos, e acompanhamento da qualidade do ar, da água e da resiliência urbana e territorial frente aos desafios ambientais. Assim como os demais candidatos, não há menções às mudanças climáticas como um problema de saúde pública. O que deve ser prioridade? O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e a Umane lançaram o Agenda Mais SUS 2027-2030, uma publicação que reúne propostas factíveis para o SUS e nos ajuda a avaliar os planos de governo de cada candidato com base nas necessidades atuais da rede. Para a emergência climática, o documento visa integrar dados e investir na prevenção. Na esfera do governo federal, as propostas defendem: a criação de arranjos permanentes de compartilhamento de dados entre órgãos públicos; a integração do Vigidesastres a sistemas de alerta hidrometeorológico e geotécnico; o uso de mapas de risco climático e geológico no planejamento da rede de saúde; e a realização periódica de simulações para preparar os serviços de saúde para desastres em regiões de maior risco. “Quando defendemos a necessidade de olhar para as emergências climáticas e integrá-las aos dados de saúde, é justamente para que a estrutura de saúde esteja disponível e preparada quando a emergência ocorrer, e não para que ela se torne mais um problema a ser resolvido em meio ao desastre”, destaca Júlia Pereira, gerente de Relações Institucionais do IEPS. Diante das propostas de cada candidato, a especialista avalia a dificuldade de encarar as mudanças climáticas como um elemento estruturante que deve reorganizar todas as políticas públicas. O foco continua na reação após uma situação de emergência e nos impactos ao agronegócio. “A discussão fica muito presa a essa lógica de que as mudanças climáticas podem trazer problemas para o agricultor e de que é preciso se antecipar a isso. Não há muitas ações que pensem em como a própria agricultura contribui para as mudanças climáticas, nem na necessidade de exigir do agronegócio melhores condições para controlar essas mudanças”, acrescenta Pereira. Para a especialista, falta pensar, por exemplo, em como o aumento das ondas de calor fará com que muito mais idosos sofram com problemas de pressão e cardíacos, o que provavelmente elevará a demanda em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e outros serviços de emergência. “Talvez seja necessária uma mudança de premissa, compreendendo que as mudanças climáticas vieram para ficar. Teremos grandes ondas de calor, períodos intensos de chuva ou de seca, e o clima que conhecíamos está mudando. Isso afeta o agronegócio, mas também a vigilância, a saúde, a educação e a segurança alimentar. Uma grande seca que prejudica a safra também gera um impacto na saúde pública do país”, opina. Veja também: Como as mudanças climáticas podem afetar a sua saúde? The post Eleições 2026: o que os candidatos à Presidência pensam sobre as mudanças climáticas? first appeared on Portal Drauzio Varella.
Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL
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