Pesquisa do CNPEM revela novo caminho para tratamentos da doença de Chagas
Estudos realizados no Sirius revelam um novo alvo terapêutico para o desenvolvimento de fármacos contra o Trypanosoma cruzi.
Entre no nosso Grupo Whatsapp — Receba as principais notícias do diaParticipar Uma pesquisa desenvolvida pelo CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), em Campinas (SP), financiada pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), abriu uma nova frente para desenvolver tratamentos para a doença de Chagas, crônica no Brasil. Cientistas identificaram uma molécula com eficácia contra o Trypanosoma cruzi e elucidaram seu mecanismo de ação usando as instalações do Sirius, fonte de luz síncrotron brasileira. Os resultados foram publicados no Journal of Medicinal Chemistry, revista de grande prestígio na área de química medicinal e descoberta de fármacos. O trabalho é resultado de uma pesquisa que começou há cerca de uma década no CNPEM, organização social financiada pelo MCTI, e que nos últimos anos, com apoio da Finep, avançou para a fase de estudos pré-clínicos. A descoberta ganha relevância diante da dimensão e do impacto social da doença no país. O Ministério da Saúde acredita que possa haver cerca de 4,6 milhões de pessoas infectadas com o Trypanosoma. cruzi, a grande maioria assintomática e ainda não diagnosticada (dados do Governo Federal). Um estudo publicado em 2025 pela LANCET, sobre os impactos econômicos da doença de Chagas em países Latino-Americanos, estimou o impacto no Brasil em US$ 11,4 bilhões anuais, equivalente a 0,23% do PIB. Estes números reforçam a necessidade de avançar com as pesquisas de novos tratamentos para as pessoas afetadas pela doença. No artigo científico, os pesquisadores revelam, a nível atômico, a estrutura tridimensional do complexo estabelecido entre a molécula candidata a fármaco e seu respectivo alvo molecular, uma enzima denominada Lisil-tRNA Sintetase, ou simplesmente KRS. “A grande dificuldade para desenvolver novos medicamentos contra a doença de Chagas é que ainda conhecemos relativamente pouco sobre os mecanismos essenciais para a sobrevivência do parasita. O principal resultado deste trabalho é a validação de um novo alvo e de um novo mecanismo de ação que agora podem ser explorados no desenvolvimento de fármacos”, afirma Artur Torres Cordeiro, pesquisador do CNPEM e um dos coordenadores do estudo. Os testes com o inibidor de KRS em modelos vivos infectados por T. cruzi foram conduzidos pela médica veterinária Thais Cristina Dos Santos, primeira autora do artigo. Os experimentos mimetizaram o estágio inicial da doença, quando o parasita pode ser detectado em grandes quantidades na corrente sanguínea e no interior das células do coração e intestino. O inibidor de KRS foi administrado por via oral durante dez dias. A partir do terceiro dia de tratamento, não foi possível detectar o parasita no sangue dos animais, resultado que se manteve em todo o período de avaliação. O tratamento também reduziu significativamente a quantidade de parasitas encontrada no coração, baço e cólon, em comparação com os animais infectados não tratados. O efeito observado foi comparável ao do benznidazol, medicamento de referência para doença de Chagas. Embora eficaz na fase aguda, o benznidazol apresenta eficácia limitada quando a doença evolui para a fase crônica. Os próximos passos consistem em avaliar a eficácia do inibidor de KRS no estágio crônico da doença de Chagas e em um segundo modelo clínico. Se bem-sucedido, a molécula poderá prosseguir para os testes em humanos. Os pesquisadores ressaltam que a molécula ainda está em fase de testes e não é um medicamento disponível para pacientes. A pesquisa resulta de uma investigação básica e multidisciplinar na interface entre física, química e biologia. Ao longo dessa trajetória, o grupo de investigadores analisa diferentes proteínas do T. cruzi para identificar potenciais alvos terapêuticos que anulem seus efeitos patogênicos um trabalho complexo, de alto custo e de longo prazo. Além do MCTI, o projeto recebeu suportes do CNPq, da FAPESP e da FINEP, cujo apoio recente permitiu a contratação de especialistas em química orgânica e medicina veterinária. Destacam-se também as colaborações de pesquisadores da Unicamp e da Universidade Federal de Goiás. “Estamos usando nossas instalações de ponta para ajudar a resolver um problema que afeta as pessoas menos assistidas da nossa população. A maioria das pessoas não percebe, mas essa é uma das formas como devolvemos à sociedade o investimento feito em ciência e tecnologia”, comenta Cordeiro. Segundo a superintendente de Saúde da Finep, Joana Meirelles, o incentivo da Finep à pesquisa demonstra a importância da agência na busca por soluções que impactam a qualidade de vida da população de forma significativa. “Este projeto demonstra, na prática, a importância de a Finep apoiar a pesquisa científica e tecnológica em áreas estratégicas para o país. São pesquisas de longo prazo, complexas e que envolvem riscos, mas que podem gerar conhecimentos e soluções de enorme impacto para a sociedade. Ao contribuir para que uma investigação realizada no CNPEM avance da pesquisa básica para os estudos pré-clínicos, a Finep fortalece a capacidade brasileira de desenvolver novas alternativas terapêuticas para uma doença que ainda representa um importante desafio de saúde pública.” Sirius ajudou a revelar como a molécula atua Uma etapa decisiva do estudo foi feita na linha de luz Manacá, do Sirius, a fonte de luz síncrotron de última geração operada pelo CNPEM. Usando cristalografia de proteínas e difração de raios X, os pesquisadores conseguiram observar, em escala molecular, como o composto se liga à proteína do parasita. Os experimentos produziram as primeiras estruturas cristalográficas da KRS do Trypanosoma cruzi e permitiram identificar a região da proteína ocupada pela molécula. Os resultados funcionam como um mapa molecular para orientar o desenvolvimento de novos compostos. “Não basta saber que uma molécula elimina o parasita. Quando conseguimos identificar exatamente qual proteína ela atinge e como ocorre essa interação, abrimos a possibilidade de desenhar moléculas mais eficientes e específicas para aquele mecanismo”, explica Gustavo Mercaldi, também pesquisador do CNPEM, que divide a coordenação do estudo A molécula estudada já havia sido investigada em pesquisas relacionadas à malária e à criptosporidiose. A identificação de um mecanismo semelhante no T. cruzi permitiu que os cientistas realizassem um processo conhecido como reposicionamento de compostos. “O reposicionamento pode ser especialmente relevante para doenças negligenciadas. Em vez de começar toda a pesquisa do zero, é possível investigar moléculas que já apresentaram atividade contra outros organismos e verificar se os mecanismos envolvidos também podem ser explorados em uma nova doença”, explicam os pesquisadores. The post Pesquisa do CNPEM revela novo caminho para tratamentos da doença de Chagas appeared first on Medicina S/A.
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FONTE: https://medicinasa.com.br/tratamentos-doenca-chagas/