Terapia-alvo no câncer: oncologista explica como funciona o tratamento e quem pode se beneficiar

Dra. Louize Marques, oncologista clínica, explica como a terapia-alvo atua em alterações moleculares específicas dos tumores, quais exames orientam a indicação, os principais efeitos colaterais e o que pode ser feito em casos de resistência ao tratamento.

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  Minha trajetória na Oncologia

Sou médica formada pela Universidade Federal do Pará. Fiz residência em Clínica Médica na Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará e em Oncologia Clínica no Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), em São Paulo.

Após esse período de formação, trabalhei por 2 anos e 6 meses no Hospital Nove de Julho, em São Paulo, até retornar para Belém, onde atuo como oncologista clínica no Hospital Saúde da Mulher e no Hospital Universitário João de Barros Barreto.

Escolhi a oncologia por ser uma especialidade em que conseguimos cuidar dos pacientes de maneira integral, assistindo desde o momento do diagnóstico e durante todas as fases da doença. Além disso, é uma especialidade em constante atualização, que estimula a sempre buscar novos conhecimentos.

A terapia-alvo representa uma abordagem mais específica no tratamento do câncer

A principal diferença é o grau de especificidade biológica do tratamento.

A quimioterapia convencional atua principalmente sobre células que se dividem rapidamente, sejam elas tumorais ou normais, e, como consequência disso, pode produzir efeitos adversos como mielossupressão, náuseas, mucosite e alopecia.

Enquanto isso, a terapia-alvo é um dos pilares da medicina de precisão, juntamente com a caracterização molecular do tumor e a seleção individualizada do tratamento.

Ela foi desenvolvida para interferir em alterações moleculares ou vias de sinalização específicas que sustentam o crescimento e a sobrevivência das células tumorais — por exemplo, EGFR, ALK, HER2, BRAF, RET, ROS1, NTRK, FGFR ou VEGF, dependendo do tipo de câncer.

O tratamento busca bloquear uma dependência molecular do tumor

A terapia-alvo procura bloquear uma “dependência molecular” do tumor — uma proteína, receptor ou via de sinalização responsável pelo crescimento tumoral.

Em um primeiro momento, é necessário identificar o alvo terapêutico potencialmente acionável, por meio de testes moleculares ou técnicas como imunohistoquímica e PCR.

A partir desse resultado, escolhe-se a droga mais adequada para aquela alteração. Com o uso dessa droga, ocorre o bloqueio do receptor ou proteína responsável pela sinalização tumoral, impedindo a proliferação celular.

Em outros casos, o alvo está relacionado à angiogênese, e essas terapias-alvo agem impossibilitando a formação de novos vasos que sustentam o tumor.

A presença de um biomarcador é fundamental para a indicação

A terapia-alvo já é uma realidade consolidada em vários tumores, mas isso não significa que todo paciente com aquele diagnóstico possa recebê-la.

O princípio é que o tratamento seja dirigido ao biomarcador do tumor, e não apenas ao órgão de origem.

Já existe aprovação para terapia-alvo em câncer de mama, câncer de pulmão de não pequenas células, melanoma, câncer de ovário, câncer colorretal, câncer gástrico, câncer de tireoide, câncer de bexiga, entre outros.

O ponto central que determina a elegibilidade do paciente é a presença de um biomarcador acionável, podendo ser uma mutação, fusão gênica, amplificação, superexpressão proteica ou outra alteração molecular.

Os exames moleculares variam conforme o tipo de tumor

Para definir se um tumor tem um alvo terapêutico, o caminho é fazer a descrição molecular da neoplasia.

Não existe um único exame universal. O painel depende do tipo de câncer, estágio e terapias disponíveis, podendo incluir NGS, PCR e imunohistoquímica.

A terapia-alvo possui um perfil de toxicidade diferente da quimioterapia

A quimioterapia pode causar fadiga, alopecia, náuseas, mucosite e supressão da medula óssea, entre outros efeitos, uma vez que age não apenas nas células tumorais, mas também nas células saudáveis.

Já a terapia-alvo tem um perfil de toxicidade diferente porque interfere em vias moleculares específicas.

A terapia-alvo pode ser mais seletiva, mas não é necessariamente menos tóxica.

Dependendo do alvo molecular, pode causar efeitos como hipertensão, diarreia, prurido, paroníquia, mucosite e toxicidades cardíacas, pulmonares e hepáticas.

O tumor pode desenvolver resistência ao tratamento

Quando um tumor desenvolve resistência à terapia-alvo, significa que houve uma seleção de clones tumorais capazes de continuar proliferando apesar do bloqueio molecular.

Há dois grandes cenários nesses casos.

Pode ocorrer a resistência primária, na qual o tumor já apresenta, desde o início do tratamento, mecanismos que impedem uma resposta adequada.

Outra possibilidade é a resistência adquirida, em que inicialmente há resposta ou controle da doença, mas posteriormente ocorre progressão.

Na resistência adquirida, alguns mecanismos clássicos são: nova mutação no próprio alvo, ativação de uma via alternativa de crescimento tumoral, amplificação ou ativação de outro oncogene, transformação histológica e heterogeneidade tumoral.

Em se confirmando o cenário de resistência à terapia-alvo, a estratégia de tratamento depende do mecanismo de resistência encontrado.

Se existir uma nova alteração tratável, pode-se mudar para uma terapia-alvo de geração diferente ou para outro medicamento direcionado à nova alteração.

Se o alvo original continua presente, mas existe um mecanismo de resistência conhecido, pode haver uma combinação ou sequência terapêutica específica.

Se não existe outro alvo acionável, podem ser consideradas outras modalidades, como quimioterapia, imunoterapia quando apropriada ao tumor e ao contexto, combinações sistêmicas ou radioterapia para doença localizada ou sintomática.

Se for uma oligoprogressão, ou seja, progressão em poucos locais, em determinados casos mantém-se a terapia-alvo que ainda controla a maior parte da doença sistêmica e trata-se a área de progressão com radioterapia ou cirurgia, conforme o cenário clínico.

A caracterização molecular pode ampliar as possibilidades de tratamento

Hoje, o diagnóstico de câncer não termina na identificação do órgão onde o tumor começou. Em muitos casos, podemos conhecer também as características moleculares daquele tumor.

A terapia-alvo nasceu justamente deste conhecimento: determinados tumores apresentam alterações específicas que podem ser bloqueadas por medicamentos desenvolvidos para esses alvos.

Por isso, vale conversar com sua equipe sobre a possibilidade de realizar testes de biomarcadores, quando eles forem indicados para o seu tipo e estágio de câncer. Encontrar uma alteração tratável pode abrir uma possibilidade terapêutica que não existia anteriormente.

Mas é importante lembrar: nem todo tumor possui um alvo conhecido, nem todo biomarcador encontrado tem um tratamento disponível e, mesmo quando existe uma terapia-alvo, ela pode deixar de funcionar com o tempo.

A oncologia de precisão não é uma promessa de cura; é uma maneira de tentar escolher o tratamento com base em características individuais do tumor.