Alergia alimentar na vida adulta: especialista explica por que reações podem surgir após anos de consumo

Dr. Victor Dias, alergista e imunologista, explica como ocorre a sensibilização a alimentos, quais sintomas merecem atenção, como diferenciar alergia de intolerância e quais exames fazem parte da investigação.

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Minha trajetória como alergista e imunologista 

Meu nome é Victor Dias, sou médico alergista e imunologista, os principais motivos que me levaram a me especializar em Alergia e Imunologia foram a fascinação pelo sistema imune e o fato de essa área de atuação envolve diversos sistemas: pele, mucosas em geral, cavidade nasal, seios da face, olhos, pulmão, entre outros até mesmo a região genital, em alguns casos.

Outro fator foi a possibilidade de ajudar os pacientes atópicos e alérgicos de maneira integrada, em vez de tratar sintomas isoladamente.

Uma alergia alimentar pode surgir mesmo após anos consumindo o mesmo alimento

Em primeiro lugar, precisamos voltar ao conceito de alergia. “Alergia” é uma reação exagerada do sistema imune a uma molécula que tem capacidade de causar reação, um antígeno, mas que não deveria causar reação e normalmente não causa reação em outras pessoas.

Por exemplo: o antígeno do vírus do sarampo deve causar reação para que haja memória por linfócitos, que são células, e produção de anticorpos, que são moléculas do sistema imune, para assim haver suporte de imunidade adquirida. Por isso nos vacinamos: para estimular uma reação de memória imune útil para nós e que vai propiciar defesa contra micro-organismos.

A tropomiosina do camarão, um antígeno que causa alergia, não deveria causar reação nenhuma, mas, em pessoas alérgicas, essa proteína causa. Então vamos chamar esse tipo de antígeno, que deveria ser inócuo, mas causa alergia, de “alérgeno”.

Raramente existe “alergia à primeira vista”. Precisamos de exposição prévia àquele alérgeno para futuramente haver um “estranhamento” do sistema imune e uma possível reação alérgica. Exceção parcial são casos em que já houve exposição a um alérgeno semelhante e há risco de reação cruzada.

Esse “estranhamento”, que pode acontecer depois de anos de exposição, é a perda da tolerância imunológica e, a partir dele, se desenvolve a alergia propriamente dita.

Ele pode começar por caminhos diferentes, como a pele, a via respiratória ou a reatividade cruzada com um alérgeno parecido.

Alguns alimentos estão mais associados às alergias em adultos

No adulto, os alimentos mais associados são camarão e frutos do mar em geral, amendoim e castanhas.

A ASBAI, Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, estima que a alergia alimentar verdadeira acometa cerca de 2% a 3% dos adultos, embora não haja uma estatística oficial mais precisa é de 6% a 8% das crianças com menos de 3 anos.

Qualquer alimento pode causar reação, mas leite, ovo, soja, trigo, amendoim, castanhas, peixe e crustáceos concentram a maior parte dos casos. No adulto, camarão é uma queixa frequente; amendoim e castanhas têm crescido em crianças e adultos.

Nas crianças, os alimentos mais comuns envolvidos são leite e clara de ovo. Outros podem estar envolvidos, como banana e outras frutas.

Enfatizo sempre que não se recomenda simplesmente restringir alimentos às cegas se a relação com os sintomas não parecer clara. Restrição de alimentos por suspeita de alergia, quando não está muito claro que eles são a causa, deve ser conduzida por alergista e imunologista.

E, mesmo que a relação pareça clara, deve haver investigação mais aprofundada, inclusive para identificar outros riscos e cuidados a serem tomados.

Além dos alimentos mais frequentes, as alergias alimentares no adulto tendem a ser mais persistentes que as das crianças. Sintomas intestinais isolados, como sangramentos nas fezes, dor abdominal e vômitos isolados, sem nenhum sintoma na pele, também tendem a ser menos comuns do que nas crianças.

A sensibilização acontece quando o sistema imune passa a reconhecer o alimento como uma ameaça

Aqui a resposta fica um pouco técnica, mas vamos tentar explicar.

Em condições normais, quando ingerimos um alimento, que contém diversos tipos de proteínas, o sistema imune das nossas mucosas — sobretudo boca e intestino, mas também, em algum grau, esôfago e estômago — aprende a tolerar essas proteínas.

Células apresentadoras de antígeno, principalmente células dendríticas, captam a proteína e a apresentam aos linfócitos T.

O resultado predominante é a formação de linfócitos T reguladores, que produzem sinais anti-inflamatórios, como IL-10 e TGF-β, e “ensinam” o organismo a ignorar aquele alimento. Isso é a tolerância oral, e ela é um processo ativo, mantido continuamente.

A sensibilização acontece quando esse aprendizado toma o rumo errado.

Se a proteína encontra o sistema imune num contexto de “alarme”, as células apresentadoras orientam os linfócitos T para um perfil chamado Th2. Esse alarme pode vir de uma barreira lesada, como pele com dermatite ou mucosa inflamada, de uma infecção ou de outras agressões às células epiteliais, que liberam substâncias de alarme chamadas alarminas: IL-33, IL-25 e TSLP.

Os linfócitos Th2 liberam IL-4 e IL-13, que levam os linfócitos B a produzir IgE específica contra aquela proteína. Essa IgE se fixa em receptores de alta afinidade, FcεRI, na superfície de mastócitos e basófilos, que ficam “armados”.

Essa fase não dá sintoma nenhum, e a pessoa não sabe que está sensibilizada.

Numa exposição posterior, a proteína se liga a duas ou mais moléculas de IgE vizinhas na superfície do mastócito. Isso dispara a liberação imediata de histamina, triptase e outros mediadores, seguida da produção de leucotrienos e prostaglandinas.

São esses mediadores que causam urticária, inchaço, vômitos, dor abdominal e, nos casos graves, anafilaxia, que pode estar associada a edema de glote, queda de pressão, broncoespasmo, entre outros sintomas, e é uma emergência médica.

A sensibilização alérgica pode ocorrer por outras vias, não dependentes de IgE, e pode levar a sintomas somente gastrointestinais, sem comprometimento de outros sistemas, como sensação de entalo, dificuldade de engolir, dor ou vômitos que não cessam com facilidade.

No adulto, a sensibilização pode não começar pela boca. Pode vir pela pele, pela via respiratória ou por reatividade cruzada com um alérgeno parecido. Por isso, alguém pode consumir um alimento por anos sem problemas e passar a reagir a ele depois.

Os sintomas ajudam a diferenciar alergia de intolerância alimentar

A alergia alimentar pode ter diversos sintomas.

Os sintomas imediatos mais comuns são urticária, com empolamento, prurido e vermelhidão na pele, e angioedema, que é o inchaço.

Pode haver, em paralelo, uma piora dos sintomas de rinite e/ou asma, especialmente caso o paciente já tenha essas condições previamente. Atenção: o paciente não deve assumir que os sintomas de asma ou rinite estão associados à alergia alimentar sem antes fazer uma investigação com o especialista.

Coceira importante na garganta, sensação de fechar a garganta, ou edema de glote, falta de ar ou cansaço importante, chiado no peito, ou sibilos e broncoespasmos, e queda de pressão, que pode aparecer como palidez, tontura, suor frio e sensação de desmaio, são sinais de alerta de gravidade.

Quem apresenta um ou mais desses sintomas deve procurar pronto atendimento imediatamente.

Um exemplo de intolerância é a intolerância à lactose, que não é alergia, mas sim um problema digestivo sem envolvimento do sistema imune. Ela consiste na dificuldade em digerir o açúcar do leite, a lactose, por deficiência de uma enzima, a lactase.

Os sintomas são diferentes e podem incluir sensação de “empachamento”, plenitude ou sensação de estar cheio demais, gases, náuseas e outros, mas sem comprometer a pele, respiração e outros sistemas.

Já o termo “sensibilidade alimentar” costuma ser usado de forma imprecisa para queixas variadas e, muitas vezes, sem critério diagnóstico claro.

O diagnóstico começa por uma avaliação clínica detalhada

O primeiro ponto, e o mais crucial, é uma entrevista ou anamnese bem feita.

Nesse processo, sempre tirar fotos das reações ajuda para uma futura conferência e avaliação. Fotos estáticas com boa resolução são melhores que vídeos. Mas, em caso de evolução rápida, se puder ter os dois, fotos boas e vídeo, melhor ainda.

Quanto aos exames, são usados exames de sangue e testes in vivo, como o prick test e outros, que são feitos com o próprio paciente na clínica e nos quais observamos a reação no próprio paciente, mas em escala bem menor.

Esses exames devem ser realizados, no caso dos testes in vivo, e interpretados, tanto no caso dos exames de sangue quanto dos testes in vivo, por profissional qualificado, o alergista e imunologista, com cuidado e aliados a uma avaliação minuciosa do paciente.

Um exame positivo, sozinho, não fecha o diagnóstico de alergia.

Amplos painéis de IgG que supostamente identificam “intolerância” a diversos alimentos não têm utilidade nenhuma nem amparo científico. Cuidado!

Suspeitas de alergia alimentar exigem avaliação especializada

O recado principal é: em caso de suspeita, suspender totalmente o alimento e buscar ajuda médica especializada o mais rápido possível.

Não usar antialérgicos para consumir o alimento. Não fazer “testes” sozinho em casa. Isso pode significar riscos graves.

Em caso de suspeita de anafilaxia, uma reação mais grave que pode ter edema de glote e outros sintomas já mencionados, é necessário procurar uma unidade de urgência o mais rápido possível e não tentar resolver somente com antialérgicos em casa.

Nesse caso, não é preciso que o primeiro atendimento seja feito por alergista: pode ser feito por qualquer médico que atue na urgência.

Para o médico que faz o primeiro atendimento: em caso de anafilaxia, a epinefrina 1 mg/mL, 0,5 mL, aplicada por via intramuscular no vasto lateral da coxa, deve ser a primeira medida a ser tomada.


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