Placenta prévia: obstetra explica os riscos, complicações e cuidados durante a gestação

Dra. Marcelle Pinho, ginecologista e obstetra, explica como a placenta prévia é diagnosticada, quais riscos pode representar para a gestante e o bebê e como o acompanhamento adequado contribui para um parto mais seguro.

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Ia

  Uma vocação que começou ainda na faculdade

Quando estava no 5º semestre, decidi que queria ter mais contato com o hospital, além do que a vivência da faculdade proporcionava. Foi então que, em uma aula da faculdade, conheci uma residente e pedi para acompanhá-la. Nem imaginava que me apaixonaria pela rotina da sala de parto.

Foi então que a obstetrícia me chamou sem volta e, desde então, decidi que estar presente no nascimento de cada bebê e de cada mãe seria minha profissão e vocação.

A placenta prévia ocorre quando a placenta se implanta na parte inferior do útero

A placenta prévia se caracteriza como uma placenta que se implanta na parte inferior do útero, podendo se aproximar ou recobrir o orifício interno do colo uterino.

Essa localização em que ela se fixa é crucial para a gestação porque, conforme o avançar da gravidez, o segmento inferior do útero se desenvolve e o colo começa a se preparar para o parto. Quando a placenta permanece nesse local, pode acontecer sangramento, principalmente na segunda metade da gestação, e o próprio parto normal fica contraindicado por conta da obstrução da passagem pelo canal.

Um esclarecimento é importante: quando acontece de o ultrassom do segundo trimestre apresentar a descrição de placenta baixa, isso não significa que essa condição permanecerá nessa posição até o parto.

Com o crescimento do útero, conforme a progressão da gestação, a maioria desses casos apresenta o afastamento da borda placentária em relação ao colo. Por isso, é importante o acompanhamento com ultrassom.

Alguns fatores podem aumentar o risco de placenta prévia

Os principais fatores de risco são cesariana anterior, placenta prévia em gestação anterior, idade materna mais avançada, multiparidade, tabagismo e gestação por reprodução assistida.

A cesariana anterior ainda tem outra importância, porque o risco aumenta conforme o número de cesarianas. Cirurgias uterinas anteriores também podem ter relação com a placenta prévia.

No entanto, não ter fatores de risco não exclui o diagnóstico. Por isso, é importante avaliar a localização da placenta durante o pré-natal por meio da ultrassonografia obstétrica, permitindo identificar precocemente as pacientes que necessitarão de maior vigilância e planejamento específico do parto.

O diagnóstico é realizado por ultrassonografia

O diagnóstico é realizado pela ultrassonografia obstétrica, que permite verificar a localização da placenta em relação ao orifício interno do colo uterino.

Essa avaliação acontece no exame morfológico do segundo trimestre, que normalmente é feito entre 20 e 24 semanas de gestação, quando essas alterações de localização placentária são identificadas.

A avaliação é feita principalmente por meio da ultrassonografia transvaginal, por apresentar melhor precisão na análise da distância entre a borda da placenta e o orifício interno do colo.

Quando o exame identifica uma placenta baixa ou prévia, é necessário acompanhar sua localização ao longo da gravidez, porque essa é uma situação que pode se modificar durante a gestação.

A confirmação da persistência dessa localização é importante, principalmente no terceiro trimestre, por conta da influência no planejamento da via e do momento do parto.

O sangramento está entre as principais complicações para a gestante

A placenta prévia está associada principalmente ao risco de sangramento vaginal, podendo gerar até hemorragia, geralmente sem dor associada. Esse sangramento pode ocorrer no segundo ou terceiro trimestre e se repetir ao longo da gestação.

A intensidade do sangramento pode variar, podendo haver necessidade de internação, transfusão sanguínea ou interrupção antecipada da gestação.

Entre as complicações maternas estão hemorragia antes do parto, hemorragia pós-parto, necessidade de transfusão e, nos casos mais graves, até histerectomia.

Outra questão importante é a ligação com o espectro da placenta acreta — placenta acreta, increta e percreta — principalmente em gestantes com placenta prévia sobre uma cicatriz de cesárea anterior.

Nessas situações, a placenta aderida ao útero pode provocar hemorragia grave durante a tentativa de dequitação e exigir até uma cirurgia de maior complexidade.

É importante saber que o diagnóstico de placenta prévia não significa que acontecerá uma complicação grave. Identificar precocemente, realizar uma avaliação ultrassonográfica adequada e planejar bem o parto são medidas fundamentais para reduzir os riscos para a mãe e também para o bebê.

A prematuridade é o principal impacto para o recém-nascido

O principal impacto da placenta prévia para o recém-nascido está relacionado à prematuridade, e não a alguma alteração no desenvolvimento fetal.

Como esse diagnóstico pode gerar hemorragia e levar a uma antecipação do parto, aumenta a possibilidade de nascimento prematuro, trazendo consequências relacionadas à prematuridade, como maior risco de desconforto respiratório, dificuldade de alimentação, hipoglicemia e necessidade de internação em UTI.

Por conta disso, o objetivo de um bom pré-natal é equilibrar os dois riscos: evitar uma hemorragia grave e prolongar a gestação com o máximo de segurança possível para favorecer a maturidade fetal.

O acompanhamento depende da idade gestacional e da presença de sangramento

O manejo começa com a confirmação via ultrassom para verificar a localização da placenta, preferencialmente por via transvaginal, método seguro e mais preciso para avaliar a relação entre a borda da placenta e o orifício interno do colo.

O acompanhamento é definido conforme a idade gestacional e a presença de sangramento.

Gestantes assintomáticas podem ser acompanhadas ambulatorialmente, com reavaliação ultrassonográfica periódica no terceiro trimestre. Já as pacientes com sangramento, contrações ou outros sinais de alerta podem precisar de avaliação hospitalar e internação.

É importante ressaltar que a restrição de atividades ou o repouso absoluto não devem ser prescritos para todas, devido à ausência de evidência robusta de benefício e aos riscos ligados a essa indicação.

Em relação à via de parto, ela depende da relação da placenta com o colo uterino.

Quando há placenta prévia, ou seja, quando a placenta recobre parcial ou totalmente o orifício interno do colo, a cesariana é a via de parto indicada por conta do risco de hemorragia com a dilatação do colo.

Quando há placenta de inserção baixa, em que a placenta está próxima do canal, mas não o recobre, a possibilidade de parto vaginal deve ser avaliada caso a caso, considerando a distância placentária e o histórico de sangramento.

Quanto ao momento do nascimento, recomenda-se individualizar a programação de acordo com os sintomas e considerar o parto planejado até 37 semanas e 6 dias em casos não complicados.

Já situações com sangramento recorrente, hemorragia significativa ou trabalho de parto podem exigir antecipação.

Se houver suspeita de placenta acreta, o planejamento deve ser realizado em centro especializado, com equipe multidisciplinar.

Portanto, o acompanhamento adequado não se limita a definir uma data para a cesariana: envolve identificar precocemente as pacientes de maior risco, prevenir atrasos no atendimento às urgências e organizar o nascimento no local mais seguro para mãe e bebê.

Informação e acompanhamento ajudam a tornar a gestação mais segura

Meu principal recado é que receber o diagnóstico de placenta prévia pode gerar medo e insegurança, mas é importante entender que cada gestação tem uma evolução própria.

Em alguns casos, a localização da placenta identificada no ultrassom do segundo trimestre se modifica à medida que o útero cresce. Em outros, a placenta permanece próxima ou sobre o colo uterino, com necessidade de acompanhamento específico e planejamento do nascimento.

O mais importante é manter o pré-natal, realizar os exames recomendados e seguir as orientações da equipe obstétrica.

Qualquer sangramento vaginal durante a gestação deve necessitar de avaliação médica imediata, mesmo quando em pequena quantidade e mesmo sem dor.

Também é importante entender que, quando a placenta recobre o colo do útero, a cesariana deve ser realizada para diminuir o risco de hemorragia durante o parto.

Porém, isso não significa que a gestante deva abrir mão de uma experiência de nascimento acolhedora, respeitosa e segura. É possível elaborar um plano de parto individualizado, com informação, participação nas decisões e apoio emocional.

A placenta prévia exige atenção, mas não deve ser encarada como uma certeza de complicações. Informação de qualidade, diagnóstico no momento certo, acompanhamento adequado e planejamento com equipe multiprofissional são essenciais para oferecer a melhor assistência à mãe e ao bebê.