Mortalidade do câncer de mama é 4 vezes maior entre as mulheres negras
Prestas e pardas têm maior dificuldade de acesso a mamografias e tendem a ser diagnosticados em estágios mais avançados da doença no Brasil
Entre no nosso Grupo Whatsapp — Receba as principais notícias do diaParticipar O Instituto Nacional de Câncer (INCA) lançou, na última semana, a primeira edição do documento Disparidades Raciais e Câncer de Mama, que reúne uma revisão de estudos sobre as diferenças nas taxas de incidência da doença de acordo com a raça das pacientes.
O trabalho agrupa os resultados de 24 pesquisas, incluindo um estudo brasileiro que mostrou que a mortalidade por câncer de mama é quase quatro vezes maior entre mulheres negras do que entre brancas no Brasil.
E, embora morram mais pelo quadro, pacientes pretas e pardas recebem menos diagnósticos. A média anual de novos casos é de 101,3 por 100 mil mulheres brancas, contra 59,7 por 100 mil mulheres negras, mostrou a pesquisa.
Segundo o oncologista Jessé Lopes, autor principal dessa análise, médico da Oncoclínicas e fundador do Comitê de Diversidade da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), esse grupo apresenta maior frequência de tumores agressivos, mas as diferenças refletem, sobretudo, fatores sociais.
“O número é justificado pelo racismo estrutural e institucional, que impõe barreiras sociais e de acesso à saúde, mais do que por características biológicas ou tumorais desfavoráveis dessas pacientes”, afirma.
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Portanto, para entender essa disparidade, é preciso olhar para o que acontece antes mesmo de o câncer ser diagnosticado: o acesso aos exames, a investigação de sintomas e o tempo até a confirmação da doença.
+Leia também: Desigualdade racial atrapalha o diagnóstico e o tratamento do câncer
Diagnóstico tardio
Parte da diferença pode estar relacionada ao momento em que a doença é identificada. Segundo a publicação do INCA, mulheres negras apresentam maior proporção de diagnósticos em estágios avançados do câncer de mama.
No Brasil, 43,1% delas descobrem a doença nos estágios III e IV (quando já há metástase), contra 35,5% das mulheres brancas, diz a instituição.
E um dos fatores associados a esse cenário é a desigualdade no acesso ao rastreamento. “Mulheres negras frequentemente enfrentam mais dificuldades para realizar mamografia”, comenta Lopes.
Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2026, 61,8% das mulheres brancas com 50 anos ou mais relataram ter feito mamografia, enquanto entre aquelas que se autodeclaram pretas o índice caiu para 56,5%.
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As razões para essa diferença, acredita Lopes, vão da falta de acesso a informações sobre a importância do teste a obstáculos para conseguir consultas com especialistas e realização de biópsias.
“Além do diagnóstico em estágios mais avançados, elas têm um maior intervalo entre diagnóstico e início do tratamento“, completa.
Esse percurso mais difícil pode comprometer as chances de recuperação. Afinal, quanto mais avançado o tumor no momento da descoberta, menores as chances de um bom desfecho.
É uma disparidade que tem origem em um componente socioeconômico. Um estudo publicado em 2018 mostrou que mulheres negras viviam com maior frequência em regiões de menor poder aquisitivo e dependiam mais do sistema público de saúde.
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A pesquisa se soma aos estudos que concluem que o diagnóstico nesse público é mais tardio, mas também constatou que 69,5% das mulheres brancas permaneciam vivas mesmo dez anos após o diagnóstico, ante apenas 44% das mulheres negras.
Câncer mais agressivo
O documento do INCA também ressalta que mulheres negras desenvolvem duas vezes mais o câncer de mama do tipo triplo-negativo (CMTN).
Responsável por 15% de todos os diagnósticos, o subtipo recebe esse nome por que não apresenta três marcadores (características mensuráveis) que normalmente são utilizados para orientar o tratamento: os receptores de estrogênio, de progesterona e a proteína HER2.
+Leia também: Tipos de câncer de mama: veja quais são e entenda as diferenças entre eles
Em geral, é um tumor mais agressivo, com tendência a crescer e se disseminar rapidamente. Também apresenta maior risco de recorrência, especialmente nos primeiros três a cinco anos após o diagnóstico.
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Por isso, costuma ser identificado em estágios mais avançados e raramente como carcinoma ductal in situ, fase mais inicial, em que as células cancerosas ainda estão restritas aos ductos mamários (os canais que transportam leite materno).
Entre mulheres negras, ele também aparece mais em pacientes jovens e antes da menopausa.
Essa pode ser uma das explicações para a alta mortalidade. Mas o porquê desse subtipo ser mais comum nesse grupo ainda não está completamente esclarecido. “A gente ainda está buscando compreender todas as razões para essa diferença”, comenta Lopes.
Entre as possíveis explicações, pode haver uma combinação de fatores genéticos, sociais e ambientais.
Genética e sociedade
Uma das pistas para entender a maior frequência do câncer de mama triplo-negativo entre mulheres negras vem de estudos epidemiológicos e genéticos que identificaram uma associação entre a incidência desse subtipo e a ancestralidade da África Ocidental.
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Acredita-se, ainda, que a frequência de alterações genéticas hereditárias nos genes BRCA1 e BRCA2, que aumentam a predisposição ao câncer de mama, possa variar entre populações e contribuir, em alguma medida, para diferenças no risco de desenvolver a doença.
Mas aqui um parêntese: é importante não confundir ancestralidade com raça.
A primeira diz respeito à origem geográfica dos antepassados e pode ajudar a identificar predisposições genéticas. Já a raça é uma categoria social.
Ou seja, não existem raças humanas definidas por diferenças genéticas que separem a espécie em grupos biológicos distintos. “Raça não é uma característica biológica, é um construto social”, reforça Lopes.
Dito isso, embora predisposições biológicas ajudem a explicar por que o triplo-negativo é mais frequente entre mulheres negras, elas não dão conta de esclarecer, sozinhas, a disparidade, especialmente nas taxas de mortalidade.
Para Lopes, a resposta está numa combinação de desvantagens. “Estamos falando de uma mulher que desenvolve um tumor mais agressivo e ainda enfrenta cumulativamente mais dificuldades para conseguir o diagnóstico oportuno e adequado”, diz o oncologista.
Racismo estrutural, segregação residencial, dificuldade de acesso a exames e exposição ao estresse psicossocial crônico — que pode se associar a alterações metabólicas e imunológicas — estão entre os fatores investigados.
É por essa razão que o oncologista afirma estar convencido de que os resultados são reflexo de desigualdades históricas que se reproduzem nos sistemas de saúde.
O INCA, por sua vez, afirma em seu documento que, para melhorar as taxas, é importante “eliminar as barreiras de acesso ao rastreamento mamográfico, ao diagnóstico e ao tratamento oportuno”, combatendo o racismo estrutural e institucional.
“Tivemos avanços extraordinários no tratamento do câncer de mama nas últimas décadas. Mas precisamos nos perguntar: esses avanços estão chegando da mesma maneira a todas as mulheres?“, reflete Lopes.
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As notícias oriundas assim como as imagens tem como fonte de referência: https://saude.abril.com.br/ultimas-noticias
FONTE: https://saude.abril.com.br/medicina/mortalidade-do-cancer-de-mama-e-4-vezes-maior-entre-as-mulheres-negras/