04/11/2026 às 16h26min - Atualizada em 04/11/2026 às 16h26min

Ruptura do tendão de Aquiles: o estalo no calcanhar que pode indicar uma lesão grave

Uma dor repentina, a sensação de levar um chute na panturrilha e a dificuldade para caminhar podem ser sinais de ruptura do tendão de Aquiles. Entenda os sintomas, os tratamentos e quanto tempo leva a recuperação.

Ortopedista Dra. Adrielle Moraes

Ortopedista Dra. Adrielle Moraes

Dra. Adrielle Moraes é ortopedista especialista em Pé e Tornozelo em Belém-PA, com foco em joanete, fascite plantar, dor no pé e tornozelo.

Uma lesão que pode acontecer em um simples movimento

Imagine estar jogando futebol, correndo ou até dando um passo mais rápido quando, de repente, você sente um estalo atrás do tornozelo, como se alguém tivesse acertado um chute.

Ao olhar para trás, percebe que ninguém encostou em você. A dor aparece, fica difícil caminhar e apoiar o pé no chão.

Essa situação é característica da ruptura do tendão de Aquiles, uma lesão que pode acontecer durante atividades físicas e comprometer movimentos básicos do dia a dia.

Reconhecer os primeiros sinais é fundamental para procurar atendimento médico e iniciar o tratamento apropriado.

O tendão de Aquiles é essencial para caminhar, correr e saltar

O tendão de Aquiles é o maior e mais resistente tendão do corpo humano. Localizado na parte posterior do tornozelo, ele conecta os músculos da panturrilha ao osso do calcanhar.

Sua função é permitir movimentos essenciais, como caminhar, correr, saltar e ficar na ponta dos pés.

A ruptura acontece quando o tendão sofre uma força superior à sua capacidade de resistência, provocando o rompimento parcial ou completo de suas fibras.

Em muitos casos, a lesão ocorre durante uma arrancada, mudança rápida de direção ou aterrissagem após um salto.

O estalo e a sensação de chute na panturrilha estão entre os principais sintomas

Um dos sinais mais característicos da ruptura do tendão de Aquiles é a sensação de ter recebido um chute na parte de trás da perna, mesmo sem qualquer contato físico.

Os sintomas mais frequentes incluem:

  • Estalo repentino: Algumas pessoas escutam ou sentem um barulho semelhante a um estalo no momento da lesão.
  • Dor atrás do tornozelo: pode surgir de forma intensa e imediata, especialmente próximo ao calcanhar.
  • Inchaço: a região pode apresentar aumento de volume após o rompimento.
  • Dificuldade para caminhar: o paciente pode sentir fraqueza ao tentar impulsionar o pé contra o chão.
  • Incapacidade de ficar na ponta do pé: levantar o calcanhar utilizando apenas a perna lesionada pode se tornar impossível.

Um detalhe importante é que nem sempre a dor permanece intensa após a ruptura. Algumas pessoas percebem uma melhora inicial do desconforto e acreditam que sofreram apenas uma distensão muscular.

Por isso, mesmo quando a dor diminui, a presença de estalo, fraqueza ou dificuldade para caminhar exige avaliação médica.

A ruptura do tendão de Aquiles também pode acontecer em quem não é atleta

Apesar de ser uma lesão conhecida no futebol e em outros esportes, não é necessário ser atleta profissional para sofrer uma ruptura.

O problema pode ocorrer durante uma partida de fim de semana, em uma corrida recreativa ou até após um movimento inesperado.

Entre os fatores associados ao aumento do risco estão:

  • Esportes que envolvem saltos, corridas e mudanças bruscas de direção;
  • Aumento repentino da intensidade dos exercícios;
  • Alterações ou problemas prévios no tendão;
  • Excesso de peso, que pode aumentar a sobrecarga;
  • Uso de determinados medicamentos, como antibióticos da classe das fluoroquinolonas e corticosteroides, em situações específicas.

A faixa etária dos 30 aos 40 anos é frequentemente associada à ocorrência dessa lesão, especialmente entre pessoas que praticam atividades esportivas recreativas.

Entretanto, a ruptura pode acontecer em outras idades e em diferentes níveis de condicionamento físico.

Mesmo conseguindo andar, a pessoa pode ter rompido o tendão

Um erro comum é acreditar que, se a pessoa consegue apoiar o pé no chão, o tendão de Aquiles não sofreu uma ruptura.

Na realidade, alguns pacientes ainda conseguem caminhar após a lesão, embora apresentem dificuldade para impulsionar o pé e perda de força.

Isso acontece porque outros músculos podem permitir parte dos movimentos do tornozelo, mesmo quando o tendão está comprometido.

O diagnóstico é realizado por meio da avaliação clínica do ortopedista, que examina a região, identifica alterações na força e realiza testes específicos.

Um deles é o teste de Thompson, no qual o médico comprime a panturrilha e observa o movimento de flexão do tornozelo.

O diagnóstico é clínico mas a ressonância magnética ajudam a avaliar a  extensão da lesão.

O tratamento pode ser realizado com ou sem cirurgia

Receber o diagnóstico de ruptura do tendão de Aquiles não significa, obrigatoriamente, que será necessário realizar uma cirurgia.

A escolha depende de fatores como extensão da lesão, idade, nível de atividade física, condições de saúde e expectativas de recuperação do paciente.

Tratamento Conservador 

Em determinados casos, é possível tratar a ruptura com imobilização, utilizando uma bota ortopédica de cano alto e kit Aquiles ou gesso gravitacional.

O objetivo é manter o tornozelo em uma posição que favoreça a aproximação das extremidades do tendão, permitindo sua cicatrização.

O tratamento exige acompanhamento especializado e um programa progressivo de reabilitação.

Tratamento cirúrgico

A cirurgia é indicada para pacientes jovens, ativos, ruptura completa. O procedimento busca reparar o tendão rompido, permitindo sua cicatrização.

Um estudo publicado em 2022 no New England Journal of Medicine, envolvendo 526 pacientes analisados, identificou resultados funcionais semelhantes após 12 meses entre tratamentos cirúrgicos e não cirúrgicos.

Entretanto, naquele estudo, a ocorrência de uma nova ruptura foi maior no grupo tratado sem cirurgia, enquanto as intervenções cirúrgicas apresentaram riscos próprios, incluindo lesões nervosas.

Esses resultados reforçam que não existe uma única abordagem ideal para todos os pacientes. A decisão deve ser individualizada.

A recuperação do tendão de Aquiles pode levar vários meses

Uma das principais preocupações de quem sofre essa lesão é o tempo necessário para voltar a caminhar normalmente, trabalhar ou praticar esportes.

A recuperação costuma ser gradual, depende do tratamento escolhido e da evolução de cada paciente.

Nas primeiras semanas, o uso de bota ortopédica e  limitação de  apoio do peso sobre a perna, conforme a orientação médica.

Posteriormente, a fisioterapia desempenha um papel importante na recuperação da mobilidade, do equilíbrio e da força muscular.

A retomada de atividades esportivas que envolvem corridas, saltos e mudanças rápidas de direção pode levar de 6 a 12 meses ou mais. A recuperação funcional completa, especialmente da força e do desempenho esportivo, pode se estender por um período ainda maior.

Voltar a caminhar não significa que o tendão esteja preparado para correr ou saltar. Antecipar o retorno às atividades sem liberação profissional pode aumentar o risco de uma nova lesão.

O atendimento rápido pode ajudar a evitar complicações

Diante da suspeita de ruptura do tendão de Aquiles, o mais importante é interromper imediatamente a atividade e procurar atendimento médico com rapidez.

Até receber avaliação profissional, é recomendado evitar apoiar peso desnecessariamente sobre a perna lesionada, forçar movimentos do tornozelo ou tentar alongar a panturrilha.

A aplicação de gelo protegido por um tecido pode ajudar a aliviar o desconforto inicial, mas não substitui a avaliação médica.

O diagnóstico precoce permite definir a melhor estratégia de tratamento e organizar a reabilitação desde o início.

O fortalecimento muscular e a progressão dos exercícios ajudam na prevenção

Embora nem todas as rupturas possam ser evitadas, alguns cuidados contribuem para reduzir os riscos de lesões no tendão de Aquiles.

Manter o fortalecimento dos músculos da panturrilha, aumentar gradualmente a intensidade dos exercícios e respeitar os períodos de recuperação são medidas importantes.

Pessoas que apresentam dor persistente na região do tendão também devem procurar avaliação antes de continuar atividades de alto impacto.

A ruptura do tendão de Aquiles pode comprometer temporariamente a independência e a qualidade de vida, mas existem tratamentos capazes de proporcionar boa recuperação funcional.

O principal cuidado é não ignorar um estalo repentino no tornozelo ou a dificuldade para impulsionar o pé. A avaliação de um ortopedista é essencial para confirmar o diagnóstico, definir o tratamento e orientar o retorno seguro às atividades.

Fontes científicas de referência

American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS) — Achilles Tendon Rupture

Mayo Clinic — Achilles Tendon Rupture: Symptoms and Causes

Mayo Clinic — Achilles Tendon Rupture: Diagnosis and Treatment

New England Journal of Medicine — Nonoperative or Surgical Treatment of Acute Achilles' Tendon Rupture

University Hospitals Plymouth NHS Trust — Achilles Tendon Rupture Rehabilitation

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