Antes da Medicina, existia um garoto que, como todo brasileiro da minha época, sonhava em ser jogador de futebol. Dizem até que eu jogava bem. Passei pelo mirim do Paysandu, pelo infantil da Tuna e também pelo futebol de salão dos colégios Santa Rosa e Ideal.
Quando penso nessa história de vida, fico imaginando como teria sido se tivesse seguido esse outro caminho. Mas a Medicina entrou na minha vida ao final da 8ª série. Eu saía do Santa Rosa para estudar no Ideal, em uma turma especial voltada para Medicina, com carga horária estendida e retorno à tarde para mais aulas.
Naquele momento, precisei fazer uma escolha: seguir no futebol ou me dedicar aos estudos para me tornar médico. A resposta acabou sendo a Medicina.
Ao entrar na faculdade, acreditava que seguiria a Neurocirurgia, pois imaginava ser uma das áreas mais desafiadoras da Medicina. Porém, logo nos primeiros módulos de neurofisiologia e neuroanatomia, não houve aquela identificação. Em seguida, durante os estudos de sistema cardiovascular e pneumologia, descobri minha verdadeira paixão: a Cardiologia.
Segui esse caminho e tive a oportunidade de acompanhar não apenas a cardiologia ambulatorial, mas também a cardiologia intervencionista. A ideia de tratar o coração sem precisar abrir o peito do paciente me fascinou. Desde então, nunca mais parei.
Não tenho dúvidas da enorme evolução que a Cardiologia viveu nos últimos 40 anos, especialmente nos 22 anos em que acompanho essa transformação já como médico formado. Hoje realizamos procedimentos que antes eram inimagináveis, e acredito que ainda há muito mais por vir. Buscar a excelência na alta complexidade é o que me motiva todos os dias.
A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença cardíaca, geralmente hereditária, caracterizada pelo espessamento anormal do músculo do coração. Essa alteração pode dificultar o fluxo sanguíneo e aumentar o risco de arritmias graves.
O principal desafio é que a doença costuma evoluir de forma silenciosa. Muitas pessoas não apresentam sintomas ou percebem sinais leves, frequentemente confundidos com o desgaste provocado pela atividade física intensa.
Entre os sintomas mais comuns estão falta de ar, dor no peito, palpitações, tonturas e desmaios durante ou após exercícios. No entanto, em alguns casos, a primeira manifestação da doença pode ser uma parada cardíaca súbita.
Por isso, considero fundamental a realização de avaliações cardiológicas periódicas, especialmente para atletas e pessoas com histórico familiar da condição. O diagnóstico precoce permite acompanhamento adequado e reduz o risco de complicações graves.
Como a cardiomiopatia hipertrófica costuma ter origem genética, o diagnóstico em um membro da família deve servir de alerta para os parentes mais próximos.
Pais, irmãos e filhos devem procurar avaliação cardiológica para verificar a necessidade de exames de rastreamento. Mesmo sem sintomas, uma pessoa pode ser portadora da doença.
A identificação precoce permite monitoramento adequado, tratamento quando necessário e maior segurança para prevenir complicações futuras.
Os principais sinais de alerta são falta de ar acima do esperado durante esforços físicos, dor ou desconforto no peito, palpitações, tonturas e episódios de desmaio, especialmente durante ou logo após a prática esportiva.
Muitos jovens acabam ignorando esses sintomas porque os associam ao cansaço, ao estresse ou à intensidade dos treinos. Além disso, por serem ativos e aparentemente saudáveis, costumam acreditar que não têm risco de desenvolver uma doença cardíaca.
Esse comportamento pode atrasar o diagnóstico e aumentar o risco de complicações.
O diagnóstico é feito por meio de avaliação cardiológica especializada e exames complementares. O ecocardiograma é o principal deles, pois permite identificar o espessamento do músculo cardíaco. Eletrocardiograma, ressonância magnética e testes genéticos também podem auxiliar na confirmação do diagnóstico.
O exame clínico de rotina nem sempre é suficiente porque muitos pacientes não apresentam sintomas evidentes. Por isso, alterações importantes podem passar despercebidas sem a realização de exames específicos.
Essa é uma das razões pelas quais a investigação é especialmente recomendada para pessoas com histórico familiar da doença ou sintomas relacionados ao esforço físico.
O check-up cardiológico é uma ferramenta importante para identificar doenças silenciosas que podem representar risco durante a prática esportiva, como a cardiomiopatia hipertrófica.
Além da avaliação clínica e do histórico familiar, exames como eletrocardiograma e ecocardiograma ajudam a detectar alterações que muitas vezes não causam sintomas.
Embora não haja consenso sobre a obrigatoriedade desses exames para toda a população, considero a avaliação cardiológica recomendada antes do início de atividades esportivas competitivas ou de alta intensidade. A atenção deve ser ainda maior quando há histórico familiar de doenças cardíacas, episódios de desmaio ou casos de morte súbita entre parentes próximos.
Embora não tenha cura, a cardiomiopatia hipertrófica pode ser controlada com tratamento adequado. As opções incluem medicamentos, controle de arritmias e, em situações específicas, procedimentos cirúrgicos ou o implante de um cardiodesfibrilador (CDI), dispositivo capaz de prevenir a morte súbita.
Receber o diagnóstico não significa abandonar a atividade física. Muitos pacientes conseguem manter uma rotina de exercícios com segurança, desde que sejam acompanhados regularmente por um cardiologista.
A recomendação sobre o tipo e a intensidade da atividade deve ser individualizada, levando em conta os sintomas, o risco cardiovascular e o histórico clínico de cada paciente.
A prática regular de exercícios é uma das melhores formas de cuidar da saúde, mas estar em boa forma física não significa estar livre de doenças cardíacas.
Algumas condições podem permanecer silenciosas por anos e só se manifestar em situações de maior esforço. Por isso, sintomas como falta de ar excessiva, dor no peito, palpitações ou desmaios nunca devem ser ignorados.
Conhecer o histórico de saúde da família e realizar avaliações cardiológicas periódicas são medidas simples que podem fazer toda a diferença.
Cuidar do coração não é um obstáculo para a prática esportiva, mas uma forma de garantir mais segurança, melhor desempenho e mais qualidade de vida.