Trajetória na cardiologia e atuação com doença de Chagas
Fui graduada em medicina na Universidade Federal do Pará em 1991 e minha escolha pela cardiologia teve grande influência de bons professores durante a graduação. Naquela época não existia residência médica em cardiologia no Pará, e tive professores cardiologistas que fizeram residência médica na Escola Paulista de Medicina e tinham muita experiência. Dessa maneira, fui influenciada por eles e, naquela época, o sonho da maioria dos alunos era fazer residência médica na Escola Paulista de Medicina (Universidade Federal de São Paulo).
Acabei a faculdade e prestei concurso na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), sendo aprovada na especialidade em cardiologia. Depois, prestei concurso para residência em ecocardiografia, que é uma subespecialidade em imagem do coração, uma espécie de ultrassom, sendo aprovada. Posteriormente, obtive titulação na Sociedade Brasileira de Cardiologia, sendo aprovada como membro titular da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Em seguida, fui aprovada para o Doutorado em Ciências na Unifesp/EPM, prestando, posteriormente, concurso para docente em cardiologia na Universidade Federal do Pará. Antes disso, já havia sido aprovada em concurso para médica cardiologista na Fundação Pública Estadual Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, em Belém (PA).
Em 2009, trabalhando como cardiologista no ambulatório de cardiologia do Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, fui convidada por uma colega médica para ajudá-la em um projeto de doutorado sobre doença de Chagas aguda, realizando os exames de ecocardiograma dos pacientes da sua tese. Foi assim que me envolvi no atendimento desses pacientes com doença de Chagas e continuo até hoje trabalhando com esse grupo de pacientes.
A doença de Chagas ainda é negligenciada
A baixa visibilidade do tema se justifica porque ela faz parte do rol de doenças negligenciadas (quarta negligenciada), de acordo com a OMS. Isso se explica porque as pessoas infectadas pelo Trypanosoma cruzi (causador da doença) são indivíduos de baixo poder econômico e sociocultural; e pouco investimento em pesquisa e novos medicamentos para doença, pois temos até o momento somente o benzonidazol no Brasil pois o outro medicamento anti parasitário não está disponível no Brasil, que é o nifurtimox.
Além disso, existe o problema da migração interna e externa de indivíduos infectados ou de animais para locais não endêmicos da doença, tornando-a globalizada, além do desmatamento, principalmente na região Amazônica, onde a doença passou a ser endêmica.
O inseto vetor, que é o barbeiro, migra em busca de alimento, pois se alimenta de sangue, e passa a se alimentar no homem por ocasião da picada (transmissão vetorial). Quando ele suga o sangue do indivíduo, faz o repasto ao mesmo tempo. Esta é a forma clássica de transmissão da doença.
Porém, na Amazônia, a principal forma de transmissão ocorre quando o inseto barbeiro é triturado junto com o alimento, no caso, o açaí, que é o mais consumido. Existem também outros alimentos que podem ser contaminados com fezes ou urina de animais infectados pelo barbeiro, como frutas e outros sucos. Tudo isso ocorre devido à falta de higiene com os alimentos.
Essa forma de transmissão é a principal na Amazônia, chamada de transmissão por via oral. A doença de Chagas tem outras formas de transmissão como a transmissão vertical, quando a mãe infectada transmite para o feto em qualquer fase da gestação, transmissão por acidente de laboratório, transplante de órgãos, entre outras.
Como a doença compromete o coração
A doença é infecciosa que cronifica caso não haja tratamento adequado e precoce na fase inicial, que chamamos de fase aguda.
Ela evolui em fases aguda e crônica, e ambas podem ser assintomáticas, por isso muitas vezes não é diagnosticada ou passa despercebida.
Após a fase aguda inicial, o parasita se esconde nos tecidos e pode permanecer por anos até surgirem os sintomas.
A doença pode comprometer o coração porque existe um grupo de pessoas que pode apresentar miocardite na fase aguda. Nessa fase, o coração inflama e a pessoa pode apresentar cansaço, falta de ar, inchaço no corpo, além de febre prolongada, podendo até evoluir para óbito, pois a miocardite é uma das complicações dessa fase inicial.
Outra complicação é o acometimento do sistema nervoso, chamado meningoencefalite, no qual o indivíduo apresenta sonolência, alteração da função cognitiva, podendo evoluir para coma e óbito.
Na forma crônica, o paciente pode apresentar apenas exames de sorologia positivos e não ter comprometimento cardíaco ou digestivo, o que chamamos de forma indeterminada. Porém, também pode apresentar a forma crônica determinada, com acometimento do coração ou do tubo digestivo.
Sinais de comprometimento cardíaco
Os principais sintomas cardíacos são taquicardia (coração acelerado), arritmias (coração bate fora do ritmo), cansaço, falta de ar, chamada tecnicamente de dispneia, em vários graus dependendo do comprometimento do coração, além de edema (inchaço) nas pernas ou até em todo o corpo.
Diagnóstico e acompanhamento cardiológico
O diagnóstico na fase aguda é feito por exame de sangue, chamado exame parasitológico para doença de Chagas, considerado exame padrão-ouro.
Outros exames fundamentais são o eletrocardiograma, que avalia se o coração pode ou não estar acometido, e o raio-X de tórax.
Na fase crônica, o diagnóstico é realizado por sorologia para doença de Chagas, além do eletrocardiograma e do raio-X de tórax, que são exames de baixo custo e de fácil acesso na rede pública, na atenção básica, que é a porta de entrada do SUS.
O paciente precisa ser acompanhado pelo cardiologista desde a fase inicial ou aguda, desde que haja acometimento do coração, pois é uma doença que pode ser acompanhada na atenção primária de saúde.
Quem apresenta maior risco de complicações
Isso é muito relativo e depende da forma de transmissão.
Na região Norte, principalmente no Pará, a principal forma de transmissão é por via oral, pela ingestão de alimentos contaminados com o Trypanosoma cruzi. Observamos que esses pacientes costumam ser mais sintomáticos em relação aos casos de transmissão vetorial, que ocorre pela picada do barbeiro.
Os indivíduos que apresentam miocardite, que já é uma complicação da doença, apresentam maior morbimortalidade no sexo masculino. O mesmo ocorre quando desenvolvem meningoencefalite, que é o comprometimento do sistema nervoso. Ambas as complicações podem evoluir para óbito.
Tratamento disponível para os pacientes
As opções de tratamento para os pacientes acometidos pelo parasita incluem o benzonidazol, que deve ser administrado durante 60 dias.
Além disso, utilizam-se os fármacos indicados para o tratamento da insuficiência cardíaca, os mesmos preconizados para tratar o coração acometido por outras doenças.
Na forma crônica, dependendo do comprometimento ou do avanço da doença, podem ser adicionados ao tratamento medicamentoso vários tipos de marcapasso ou até mesmo transplante cardíaco.
Prevenção e avaliação cardiológica são fundamentais
O mais importante é a prevenção.
Pessoas que moram em áreas de risco ou endêmicas devem, quando possível, morar mais distantes de áreas de mata.
Caso tenham contato com o barbeiro, não devem matar o inseto, mas capturá-lo com proteção, utilizando luva ou sacola plástica, e enviá-lo para a vigilância do município para que seja examinado e verificado se está infectado. Caso isso ocorra, o indivíduo precisa ser tratado com benzonidazol.
Na nossa região, é fundamental manter a higiene dos alimentos, fazer o branqueamento do açaí ou consumir açaí de locais onde esse processo seja realizado. O branqueamento consiste em deixar o açaí de molho por 30 minutos em hipoclorito, depois lavar, aquecer água a 80 graus e jogar sobre o fruto. Em seguida, utiliza-se água fria e o alimento está pronto para o consumo. Outra opção é comprar o açaí em locais seguros.
Outra forma de prevenção é realizar uma consulta cardiológica anual, pois o cardiologista pode detectar alterações durante o exame clínico e pelo eletrocardiograma, que faz parte da consulta cardiológica.