Minha trajetória na área começou durante a graduação em Medicina na Universidade do Estado do Pará (UEPA), período em que desenvolvi grande interesse pela Gastroenterologia. A afinidade com a disciplina e o incentivo de professores que eu admirava me levaram, inclusive, a ser uma das fundadoras da Liga Acadêmica de Gastroenterologia no campus de Santarém.
Com o passar do tempo e o contato com a prática, comecei a notar algo muito claro: além dos problemas comuns de estômago e intestino, existia uma quantidade enorme de pessoas que precisavam de cuidados com o fígado, mas havia uma carência muito grande de médicos focados nessa área. Percebi que pacientes enfrentando condições complexas — desde doenças inflamatórias graves do intestino, como a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn, até quadros delicados de cirrose hepática — necessitavam de um olhar altamente especializado, experiente e humano.
Sabendo dessa responsabilidade, decidi que precisava buscar os maiores centros de referência do país para oferecer o melhor aos meus pacientes. Assim que me formei, fiz minha primeira residência em Clínica Médica e, logo em seguida, segui para a USP de Ribeirão Preto, onde fiz minha especialização em Gastroenterologia e ganhei uma bagagem sólida em Hepatologia, a ciência que estuda o fígado.
Nessa mesma época, um movimento muito importante acontecia em Belém: o serviço de transplante de fígado estava se fortalecendo na Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará (FSCMPA), liderado pela equipe dos doutores Rafael Garcia e Fernanda Garcia. Sabendo disso, tracei meu próximo passo: fui para a capital paulista passar mais um ano como Fellow em Transplante Hepático no Hospital Albert Einstein. Meu foco era único: voltar para Belém com a melhor bagagem possível para integrar o Grupo do Fígado na Santa Casa, onde hoje tenho orgulho de trabalhar.
Paralelamente à rotina entre consultório e hospital, descobri outra grande paixão: a docência. Percebi o quanto é recompensador ajudar a formar novos médicos. Por isso, ingressei no mestrado em Gastroenterologia na UNIFESP e, atualmente, divido meu tempo entre os pacientes, alunos do internato e residentes, atuando como professora nos cursos de Medicina da UEPA e da FAMAZ, além de ser preceptora da residência de Hepatologia da FSCMPA.
É essa trajetória, construída com muito estudo e dedicação, que me traz aqui hoje para conversar com vocês.
Essa visão antiga deixa de fora o fato de que pessoas magras ou com o peso considerado normal também podem ter gordura no fígado. Para você ter uma ideia, nos Estados Unidos cerca de 4% das pessoas magras têm a doença, e na Ásia esse número chega a 19%.
Além disso, o peso na balança não é tudo: o que realmente importa é onde a gordura está armazenada. A gordura que fica na região da barriga e em volta dos órgãos internos, chamada gordura visceral, é a mais perigosa para o fígado, mesmo que a pessoa pareça magra por fora.
Outro ponto importante é que pacientes com diabetes podem apresentar aparente magreza, mas possuem um organismo inflamado e perda de massa muscular, o que agrava ainda mais a lesão no fígado e aumenta o risco de progressão da esteatose hepática para cirrose.
Em pessoas que não estão acima do peso, o problema pode acontecer por causa de uma combinação de fatores, como:
O problema começa quando o corpo recebe mais energia e calorias do que consegue gastar. O excesso de carboidratos, como o açúcar presente nos alimentos e bebidas doces, vai para o fígado e é transformado em gordura.
Ao mesmo tempo, quando o tecido responsável por armazenar gordura está sobrecarregado e inflamado, ele começa a liberar gordura diretamente na circulação, que acaba sendo depositada no fígado.
O risco real surge quando esse acúmulo passa a provocar estresse e inflamação nas células hepáticas, fase conhecida como esteato-hepatite. Se essa inflamação não for controlada, o fígado começa a desenvolver cicatrizes, chamadas de fibrose. Quando essas cicatrizes atingem um estágio moderado ou avançado, o risco de falência hepática e outras complicações aumenta significativamente.
Esse é justamente o maior perigo: na grande maioria das vezes, a gordura no fígado não causa sintoma nenhum ou provoca apenas sinais muito vagos e difíceis de perceber.
Na maior parte dos casos, o paciente descobre a doença por acaso, durante exames de rotina ou investigações por outros motivos.
Os sinais visíveis costumam aparecer apenas quando a doença já está muito avançada e o fígado começa a falhar. Entre eles estão aumento da barriga por acúmulo de líquido (ascite), vômitos com sangue decorrentes de varizes de esôfago e pele amarelada, ou seja, quando as complicações da cirrose já estão instaladas.
Eu avalio os fatores de risco do paciente e utilizo diferentes exames para confirmar o diagnóstico e determinar a gravidade da doença.
Entre eles estão:
Se a gordura e a inflamação permanecerem no fígado durante anos, a doença pode evoluir para cirrose, quando o órgão fica tomado por cicatrizes e perde sua capacidade de funcionar adequadamente.
Além disso, podem surgir complicações graves, como sangramentos internos, ascite (acúmulo de líquido na barriga) e até câncer de fígado.
Também é importante lembrar que pacientes com síndrome metabólica apresentam maior risco de doenças cardiovasculares, como infarto e AVC, além de outros tipos de câncer.
O tratamento tem como objetivo reduzir a gordura acumulada no fígado, controlar a inflamação e impedir que a fibrose progrida, ou até promover sua regressão, protegendo o paciente dessas complicações futuras.
Minha principal mensagem é: não se apoie apenas no seu peso ou em exames de sangue comuns.
Muitas pessoas com o fígado já comprometido apresentam exames laboratoriais completamente normais.
Se você tem diabetes, pré-diabetes, pressão alta, colesterol elevado ou casos de cirrose na família, precisa pedir ao seu médico uma avaliação adequada da saúde do fígado, mesmo que seja uma pessoa magra.
Descobrir a doença precocemente faz toda a diferença e pode evitar danos ao fígado que, mais tarde, não poderão mais ser revertidos.