Venda de anabolizantes no Brasil: crescimento de 700% em sete anos e os impactos na saúde

Para a endocrinologista Dra. Raquel Cunha, esse cenário acende um alerta para o uso indiscriminado de hormônios e reforça a importância de diferenciar a reposição hormonal indicada do uso estético, além de conscientizar sobre os riscos que essa prática pode causar à saúde.

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Venda de anabolizantes no Brasil: crescimento de 700% em sete anos e os impactos na saúde
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Minha trajetória na Endocrinologia

Possuo formação em Medicina pelo Centro Universitário do Estado do Pará, residência em Clínica Médica pela Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará e residência em Endocrinologia e Metabologia pela Universidade do Estado do Pará, com experiência no tratamento da obesidade, diabetes, disfunções tireoidianas e distúrbios hormonais.

A decisão de escolher a especialidade de Endocrinologia surgiu do meu desejo de cuidar das pessoas de forma integral. Acredito que a Endocrinologia vai muito além de tratar doenças. Com ela, posso compreender histórias, acolher dificuldades e ajudar cada pessoa a conquistar mais saúde e qualidade de vida, sempre fundamentada na medicina baseada em evidências científicas.

O crescimento da comercialização de testosterona preocupa especialistas

A comercialização de testosterona cresceu mais de 700% no Brasil entre 2018 e 2025, com um aumento de 20% apenas no último ano. Trata-se de um dado muito preocupante, que gera um impacto importante na saúde da população.

Esse comportamento reflete a forte influência das redes sociais sobre a população, gerando uma busca por um corpo considerado ideal, associada à promessa de ganho de massa muscular de forma mais rápida. Outro ponto preocupante é a facilidade de acesso a esses hormônios por meio do mercado clandestino, o que leva ao aumento do consumo dessas substâncias por pessoas que desconhecem seus reais efeitos colaterais.

Quando a testosterona é realmente necessária

A reposição de testosterona tem sua principal indicação no tratamento do hipogonadismo masculino, condição caracterizada pela deficiência na produção de testosterona pelos testículos, confirmada por níveis séricos reduzidos do hormônio, associados a sinais e sintomas clínicos, como diminuição da libido, disfunção erétil, perda de massa muscular, fadiga e infertilidade.

Esse cenário difere do uso indiscriminado da testosterona, quando ela é administrada apenas com finalidade estética, sem indicação médica comprovada. Nesses casos, são frequentemente utilizadas doses suprafisiológicas, superiores às necessidades do organismo, aumentando o risco de efeitos colaterais.

Os riscos do uso de anabolizantes sem indicação médica

O uso de anabolizantes sem indicação médica e sem acompanhamento profissional representa um grande risco à saúde, pois está associado a múltiplos efeitos adversos.

No coração, pode provocar infarto, arritmias, insuficiência cardíaca e morte súbita. No sistema nervoso central, pode causar irritabilidade, dependência química, depressão e agressividade. No rim, pode levar à insuficiência renal. Já no fígado, pode provocar hepatite medicamentosa e, em casos mais graves, câncer de fígado.

Em relação ao sistema reprodutivo e hormonal, nos homens pode ocasionar infertilidade, disfunção erétil, atrofia testicular e ginecomastia. Já nas mulheres, os efeitos incluem crescimento de pêlos em padrão masculino, hipertrofia do clitóris, acne, irregularidades menstruais e engrossamento da voz, muitas vezes de forma irreversível.

Além dos problemas sistêmicos, pessoas que compartilham seringas durante o uso injetável de testosterona apresentam maior risco de contrair doenças como o HIV.

Como os anabolizantes comprometem o sistema cardiovascular

O sistema cardiovascular é um dos principais alvos dos efeitos adversos dos anabolizantes, uma vez que o uso indiscriminado desses hormônios compromete sua estrutura e função.

Como o coração é um músculo, o uso de anabolizantes pode levá-lo à hipertrofia, assim como ocorre com os músculos dos braços e das pernas. Essa hipertrofia pode evoluir e levar o coração à insuficiência cardíaca.

Além disso, os anabolizantes podem provocar aumento do colesterol LDL (colesterol "ruim") e redução do colesterol HDL (colesterol "bom"), elevando o risco de eventos cardiovasculares, como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral. Outras possíveis alterações incluem arritmias cardíacas, aumento do risco de trombose e embolia pulmonar. Esses efeitos aumentam significativamente a morbimortalidade cardiovascular, sobretudo em indivíduos predispostos.

O papel do endocrinologista diante da procura por hormônios para fins estéticos

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) condena o uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos ou para melhora da performance. A prescrição médica com esses objetivos é proibida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

Diante de pacientes que procuram o consultório com o objetivo de utilizar testosterona para fins estéticos, o endocrinologista deve, primeiramente, realizar uma avaliação clínica e laboratorial para identificar a existência de uma condição endocrinológica que justifique a terapia hormonal.

Quando não há indicação médica comprovada para a reposição, o papel do endocrinologista é esclarecer os riscos associados ao uso indiscriminado desse hormônio, orientar que não existe dose segura para essa prática e propor estratégias seguras para alcançar ganho de massa muscular por meio de acompanhamento nutricional adequado, treinamento de força e melhora da qualidade do sono.

O impacto das redes sociais na disseminação do uso de anabolizantes

As redes sociais exercem papel relevante na disseminação de informações sem respaldo científico sobre o uso de esteroides anabolizantes com finalidade estética.

O endocrinologista tem um papel fundamental ao orientar o paciente sobre as indicações da reposição de testosterona com base na medicina baseada em evidências, esclarecendo os principais riscos aos quais ele está sujeito quando utiliza esse hormônio sem indicação médica.

A principal orientação para quem pensa em usar anabolizantes por conta própria

O uso indiscriminado de anabolizantes, especialmente em doses suprafisiológicas e com finalidade estética, expõe o organismo a alterações hormonais importantes e aumenta o risco de complicações potencialmente graves.

Entre elas estão eventos cardiovasculares, disfunção hepática, alterações metabólicas, transtornos psiquiátricos e complicações que podem ser irreversíveis.

Para indivíduos que desejam melhorar a composição corporal, aumentar a massa muscular ou otimizar o desempenho físico, o caminho mais seguro é realizar uma avaliação médica e adotar estratégias eficazes e seguras, como treinamento físico adequado, planejamento nutricional individualizado, suplementação, quando houver indicação, melhoria da qualidade do sono e controle dos fatores metabólicos.

 

 


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