Sou médica formada pelo Centro Universitário do Estado do Pará e especialista em Infectologia, com residência médica realizada no Hospital Universitário João de Barros Barreto. Também tenho pós-graduação em Controle de Infecções Hospitalares e atualmente curso mestrado na Universidade Federal do Pará.
Minha atuação envolve tanto o atendimento de pessoas com doenças infecciosas, incluindo HIV, infecções sexualmente transmissíveis e hepatites virais, quanto o trabalho em controle de infecções dentro dos hospitais.
Escolhi a Infectologia porque é uma especialidade muito ampla, que reúne investigação clínica, prevenção, saúde pública e acompanhamento longitudinal. É uma área em que o diagnóstico correto e realizado no momento adequado pode mudar completamente a história de uma pessoa.
O Julho Amarelo amplia a discussão sobre prevenção, vacinação, testagem e acesso ao tratamento das hepatites virais. A campanha é importante porque muitas pessoas convivem com hepatite B ou C, por exemplo, sem saber.
Como essas infecções podem permanecer durante anos sem sintomas, o diagnóstico frequentemente ocorre apenas quando já existe comprometimento importante do fígado. A testagem é a única forma de confirmar a infecção em uma pessoa que não apresenta manifestações clínicas.
No Brasil, os testes para as hepatites B e C estão disponíveis gratuitamente no SUS, inclusive em Unidades Básicas de Saúde.
O diagnóstico precoce permite iniciar o acompanhamento antes do aparecimento de cirrose, insuficiência hepática ou câncer de fígado. Também possibilita orientar medidas para reduzir a transmissão e avaliar familiares, parceiros e outras pessoas que possam ter sido expostas.
Por isso, não devemos esperar que surjam sintomas para pensar em testagem.
As hepatites virais são classificadas principalmente em A, B, C, D e E. Todas podem causar inflamação no fígado, mas apresentam formas de transmissão, evolução e medidas preventivas diferentes.
A hepatite A é transmitida principalmente pela via fecal-oral, por água ou alimentos contaminados e pelo contato próximo com uma pessoa infectada. É uma infecção aguda, ou seja, não se torna crônica. A maioria das pessoas se recupera completamente, embora formas graves possam ocorrer, especialmente em adultos mais velhos ou em pessoas com doença hepática prévia. Existe vacina para sua prevenção.
A hepatite B é transmitida pelo contato com sangue, sêmen e outros fluidos corporais, podendo ocorrer por relações sexuais sem proteção, compartilhamento de objetos contaminados, acidentes com material biológico e transmissão da mãe para a criança. Pode ser aguda ou tornar-se crônica, com risco de cirrose e câncer de fígado. A principal forma de prevenção é a vacinação.
A hepatite C é transmitida principalmente pelo contato com sangue contaminado. Atualmente, destacam-se o compartilhamento de seringas, agulhas ou outros instrumentos, além de procedimentos realizados sem esterilização adequada. A transmissão sexual é menos frequente, mas pode acontecer, especialmente quando há contato com sangue. A hepatite C apresenta elevada possibilidade de cronificação, mas hoje pode ser curada com medicamentos antivirais.
A hepatite D, também chamada de hepatite Delta, somente ocorre em pessoas que também apresentam infecção pelo vírus da hepatite B. Ela pode provocar doença hepática mais agressiva.
Já a hepatite E é transmitida principalmente por água e alimentos contaminados. Em geral, provoca uma infecção aguda e autolimitada, mas merece atenção especial em gestantes e em pessoas imunossuprimidas, nas quais pode apresentar evolução mais grave.
Quando dizemos que as hepatites virais são silenciosas, significa que a pessoa pode estar infectada e apresentar exames alterados ou lesões progressivas no fígado sem sentir nada.
Quando aparecem, os sintomas podem ser pouco específicos, como cansaço, mal-estar, falta de apetite, náuseas e desconforto abdominal. A icterícia, que deixa a pele e os olhos amarelados, não está presente em todos os casos e não deve ser considerada necessária para suspeita de hepatite.
Na hepatite B e, principalmente, na hepatite C, esse período silencioso pode durar muitos anos. A pessoa continua sua rotina normalmente, mas a inflamação persistente pode provocar fibrose, cirrose e aumentar o risco de câncer de fígado.
Esse comportamento reforça a importância de oferecer o teste mesmo para pessoas aparentemente saudáveis, sobretudo quando existe histórico de exposição ou quando nunca houve uma testagem anterior.
A testagem deve ser considerada para todas as pessoas que nunca realizaram exames para hepatites B e C, além de ser especialmente importante para gestantes e para quem teve alguma possível exposição a sangue ou fluidos corporais.
O Ministério da Saúde orienta ampliar a busca pelo diagnóstico. Não devem deixar de realizar a testagem pessoas que receberam transfusão de sangue ou hemoderivados antes da implantação dos testes de triagem mais modernos; que realizaram cirurgias ou procedimentos invasivos em condições duvidosas; ou que compartilham ou já compartilharam seringas, agulhas ou outros instrumentos, inclusive para uso de drogas, tatuagens e piercings.
Também estão incluídos profissionais expostos a material biológico, pessoas em hemodiálise, pessoas privadas de liberdade, pessoas vivendo com HIV ou outras infecções sexualmente transmissíveis, parceiros e familiares de pessoas com hepatite B ou C e filhos de mães que apresentavam hepatite durante a gestação.
No caso da hepatite D, a investigação é particularmente importante nas pessoas com hepatite B que vivem ou viveram na região amazônica, devido à maior circulação do vírus Delta nesta região.
O diagnóstico começa com exames realizados com amostra de sangue. Para as hepatites B e C, podem ser utilizados testes rápidos como forma de triagem.
Na hepatite B, a avaliação normalmente envolve marcadores sorológicos. A combinação desses resultados permite diferenciar infecção ativa, infecção passada, susceptibilidade e resposta à vacinação. Quando existe suspeita de infecção ativa, outros exames, incluindo a carga viral do vírus B, ajudam a determinar a fase da doença e a necessidade de tratamento.
Para a hepatite C, o primeiro exame geralmente pesquisa anticorpos contra o vírus, o anti-HCV. Um resultado reagente indica que houve contato com o vírus, mas não confirma sozinho que a infecção continua ativa. Por isso, é necessário realizar um teste molecular, o HCV-RNA, para detectar o material genético do vírus e confirmar a infecção atual.
Na hepatite A, a confirmação de infecção recente é feita principalmente pela pesquisa do anticorpo IgM contra o vírus A.
Além de identificar o vírus, a investigação inclui exames para avaliar o funcionamento do fígado, como transaminases, bilirrubinas, albumina e testes de coagulação. Dependendo do caso, também são utilizados ultrassonografia, elastografia ou outros métodos para avaliar fibrose, cirrose e possíveis complicações.
A maior transformação ocorreu no tratamento da hepatite C. Hoje utilizamos antivirais de ação direta, administrados por via oral. São esquemas mais simples, bem tolerados e capazes de curar mais de 95% das pessoas tratadas.
Esses medicamentos substituíram tratamentos antigos, que eram mais prolongados e causavam mais efeitos adversos.
Na hepatite B, ainda não falamos em cura para a maioria das pessoas, mas os antivirais atuais conseguem controlar a multiplicação do vírus de forma muito eficaz. Isso reduz a inflamação no fígado, diminui a progressão para cirrose e reduz o risco de complicações.
Nem toda pessoa com hepatite B precisa iniciar medicação imediatamente, mas todas devem ser avaliadas e acompanhadas para definir o momento adequado de tratar.
As hepatites A e E geralmente recebem tratamento de suporte, com acompanhamento clínico e atenção aos sinais de gravidade.
O principal avanço, portanto, não está apenas nos medicamentos, mas na possibilidade de diagnosticar mais cedo, avaliar o grau de comprometimento do fígado e oferecer uma abordagem individualizada.
É necessário confirmar qual vírus está envolvido, verificar se a infecção está ativa e avaliar como está o fígado. A consulta também permite investigar outras condições, revisar medicamentos e consumo de álcool, conferir a vacinação contra as hepatites A e B e orientar a testagem de parceiros ou familiares quando indicada.
Quem recebe o diagnóstico de hepatite C pode esperar, na maioria dos casos, um tratamento oral de curta duração e com elevada probabilidade de cura.
Na hepatite B, o acompanhamento permite identificar se há necessidade de medicação e manter o vírus controlado, prevenindo complicações. O SUS disponibiliza testagem, acompanhamento e tratamento das hepatites B e C.
O mais importante é não adiar a avaliação por medo ou pela ausência de sintomas. Quanto mais cedo a infecção é identificada, maior é a possibilidade de proteger o fígado, evitar a transmissão e conduzir o tratamento com segurança.
O conteúdo foi organizado em intertítulos jornalísticos, mantendo as informações e a perspectiva da Dra. Gabriela Justino.