Ainda na residência de Clínica Médica, meu desejo era seguir na Oncologia. E, nesse percurso, eu conheci dois grandes mestres: Dra. Márcia Iasi e Dr. Maurício Iasi, hepatologista clínica e cirurgião hepático, respectivamente.
À época, durante as discussões de casos nos corredores do hospital, eu me apaixonei pela Hepatologia e vi o quão abrangente, diversa e linda era essa especialidade.
Nessa mesma época, eles fundaram a residência de Hepatologia na Santa Casa aqui do Pará, e eu fiz a prova e passei. Fui a primeira residente de Hepatologia do Pará.
Trabalhei por muitos anos no Grupo do Fígado da Santa Casa do Pará e, por lá, fiz minha formação em transplante hepático, com tutoria pelo Hospital Albert Einstein.
Infelizmente, o estilo de vida tem influenciado muito nesse cenário. Os jovens estão entrando no mercado de trabalho cada vez mais cedo e, em sua maioria, vieram de uma infância rica em consumo de produtos industrializados.
Isso os expõe a um ritmo de alimentação ruim, rica em carboidratos, doces, refrigerantes, ultraprocessados e até bebida alcoólica em demasia.
Como fator de piora, a ausência de atividade física entra como um dos pilares da obesidade, gerando, por sua vez, as doenças hepáticas esteatóticas associadas ao metabolismo, cuja sigla em inglês é conhecida por MASLD.
Além dos fatores detalhados anteriormente, que sempre terão a obesidade e os distúrbios metabólicos de maneira geral como resultado final, temos, na atualidade, jovens cada vez mais adoentados no quesito saúde mental.
Seja por síndromes ansiosas ou mesmo casos mais graves, como a própria depressão, esses jovens são ainda mais expostos a hábitos de vida ruins, sem alimentação natural adequada, sem prática de quaisquer tipos de atividade física e sem a oportunidade do desenvolvimento adequado de outro pilar muito importante dentro da Medicina do Estilo de Vida, que é o pilar do movimento.
Hoje, não há como dissociar a Hepatologia da Medicina do Estilo de Vida.
Geralmente, como sinais clínicos, temos o desconforto ou mesmo a dor abdominal no lado direito do abdome, náuseas e sensação de má digestão.
Ao exame físico, notamos o paciente relatando sobrepeso ou mesmo já com obesidade. Ao ultrassom, temos a conclusão de esteatose hepática, que muitas vezes é negligenciada e encarada por muitos profissionais como sendo “só uma gordurinha no fígado”.
Como principais alterações laboratoriais, temos o aumento das transaminases, TGO e TGP, e o aumento de exames relacionados à resistência insulínica, como hemoglobina glicada e insulina sérica.
É muito importante ressaltar que, na grande maioria dos casos, não há qualquer alteração nos exames de sangue, e isso torna a doença ainda mais silenciosa e negligenciada pela maioria dos profissionais. Quando as alterações aparecem, o fígado já está muito comprometido.
A gordura no fígado passa a representar um risco real a partir do momento em que a esteatose evolui com um grau de lesão mais grave, com acometimento celular importante, que chamamos de fibrose hepática, podendo, inclusive, evoluir com cirrose hepática.
Antes de tudo, é importante ressaltar que qualquer médico, seja o clínico do posto de saúde ou o especialista, pode e deve iniciar essa cadeia de investigação.
Exames simples e de fácil acesso, como o ultrassom de abdome, e exames laboratoriais, como TGO, TGP, hemoglobina glicada e perfil lipídico, fazem parte desse processo.
Em casos mais graves, em que já se desconfia de fibrose hepática importante, podemos solicitar a elastografia hepática.
As mudanças de estilo de vida devem ser pautadas em atividade física — o protocolo de tratamento fala sobre 150 minutos por semana — e hábitos alimentares saudáveis, que envolvam aumentar o consumo de “comida de verdade” e alimentos frescos, como legumes, verduras e frutas.
Os protocolos atuais indicam a dieta mediterrânea, visto ser baseada no consumo de alimentos como azeite de oliva, peixes, grãos integrais e oleaginosas, além de evitar o consumo de doces, carnes vermelhas, produtos enlatados, embutidos ou ultraprocessados.
Vale lembrar que evitar o consumo de bebida alcoólica também é recomendado pelos protocolos de tratamento, pois não existe dose segura de álcool.
O primeiro passo é sempre buscar atendimento com o hepatologista, que é o especialista nesse tipo de patologia, bem como com uma equipe multiprofissional que envolva atendimento com nutricionistas, educadores físicos e psicólogos.
Manter as doenças de base, como hipertensão e diabetes, compensadas também são passos importantes para quem busca um tratamento eficaz.