Inchaço nas pernas e insuficiência cardíaca: especialista explica a relação entre os dois sintomas
Dra. Valéria Santos, cardiologista, explica quando o inchaço nas pernas pode estar relacionado ao funcionamento do coração e quais sinais exigem avaliação médica.
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Na verdade, eu só me fascinei pela Cardiologia após fazer a minha primeira residência, que foi Clínica Médica. No início da minha formação, eu considerava uma área muito difícil e tinha medo de não fazer um bom trabalho. Mas tive a sorte de ter excelentes professores e entender o quanto o meu estudo e trabalho poderiam melhorar a vida das pessoas.
Em seguida, me apaixonei pela intervenção. Especializei-me em Cardiologia Intervencionista, área que permite tratar doenças cardíacas por meio de procedimentos minimamente invasivos, oferecendo tratamentos cada vez mais seguros e eficazes.
Minha maior motivação é proporcionar e poder ver meus pacientes vivendo da melhor forma possível. Contribuir para a qualidade de vida de uma pessoa não tem preço.
A relação entre o inchaço nas pernas e a insuficiência cardíacaO coração funciona como uma bomba que impulsiona o sangue para todo o organismo. Quando ele perde parte dessa capacidade, ocorre um acúmulo de sangue nas veias e aumento da pressão nos vasos, favorecendo a saída de líquido para os tecidos.
Esse líquido se acumula principalmente nas pernas, tornozelos e pés devido à ação da gravidade, causando o inchaço, também chamado de edema.
É importante destacar que nem todo inchaço significa insuficiência cardíaca, mas esse é um dos sinais que merece investigação médica.
As diferenças entre um inchaço circulatório e um edema relacionado ao coraçãoA avaliação clínica é fundamental. O inchaço causado por insuficiência venosa costuma piorar ao longo do dia, principalmente após longos períodos em pé, e pode estar associado a varizes.
Já o edema da insuficiência cardíaca geralmente vem acompanhado de outros sintomas, como falta de ar, cansaço aos pequenos esforços, ganho rápido de peso e dificuldade para respirar quando o paciente se deita.
Além disso, o exame físico e exames complementares ajudam a identificar a verdadeira causa.
Outros sintomas da insuficiência cardíacaOs sintomas mais frequentes incluem falta de ar durante atividades físicas ou mesmo em repouso, dificuldade para respirar ao deitar, necessidade de usar vários travesseiros para dormir, cansaço excessivo, redução da capacidade para realizar tarefas habituais, palpitações e ganho de peso em poucos dias devido ao acúmulo de líquidos.
Em fases mais avançadas, também pode haver tosse persistente, especialmente à noite.
As características do inchaço observadas durante a avaliaçãoObservamos se o inchaço é bilateral, ou seja, se acomete as duas pernas, se deixa uma marca quando pressionamos a pele com o dedo, chamado de edema depressível, quando surgiu, como evoluiu e se está associado a outros sintomas.
Também avaliamos ganho recente de peso, alterações na respiração, pressão arterial, frequência cardíaca e sinais de retenção de líquidos em outras partes do corpo.
O diagnóstico da insuficiência cardíacaO diagnóstico começa com uma boa conversa e um exame físico detalhado. Depois, solicitamos exames como eletrocardiograma, ecocardiograma, exames laboratoriais — incluindo marcadores específicos como o BNP ou NT-proBNP — e, muitas vezes, radiografia de tórax.
O ecocardiograma é um dos principais exames porque permite avaliar a estrutura e o funcionamento do coração, identificando alterações que confirmam ou descartam o diagnóstico.
Porém, o olhar do médico é fundamental. Há cenários em que os exames estão “normais”, mas o paciente está com sintomas e doenças.
O tratamento e a qualidade de vida do pacienteHoje dispomos de tratamentos muito eficazes. O tratamento inclui medicamentos que ajudam o coração a trabalhar melhor, reduzem o acúmulo de líquidos e diminuem o risco de internações e morte.
Em alguns casos, podem ser indicados dispositivos cardíacos ou procedimentos específicos.
Além dos medicamentos, mudanças no estilo de vida, como controle da pressão arterial, redução do consumo de sal, prática de atividade física orientada, abandono do cigarro e acompanhamento médico regular fazem toda a diferença.
Quando o tratamento é iniciado precocemente e seguido corretamente, muitos pacientes conseguem manter uma vida ativa e com excelente qualidade de vida.
O inchaço recorrente nas pernas não deve ser normalizadoO principal conselho é não normalizar esse sintoma. Embora o inchaço possa ter causas simples, ele também pode ser o primeiro sinal de doenças importantes, como insuficiência cardíaca, doenças renais, hepáticas ou problemas na circulação venosa.
Se o edema for frequente, persistente ou vier acompanhado de falta de ar, cansaço ou ganho rápido de peso, a pessoa deve procurar avaliação médica o quanto antes.
O diagnóstico precoce aumenta significativamente as chances de um tratamento eficaz e evita complicações futuras.