Infarto agudo do miocárdio: cardiologista alerta sobre os fatores de risco e formas de prevenção

Dr. Vitor Barros explica por que hipertensão, colesterol elevado, diabetes e outros fatores silenciosos aumentam o risco cardiovascular e reforça a importância da prevenção e do atendimento rápido diante dos sintomas.

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  Minha trajetória na Cardiologia

A Cardiologia sempre me atraiu por ser uma especialidade muito completa, que reúne prevenção, diagnóstico, tecnologia e a possibilidade de interferir diretamente na qualidade e na expectativa de vida das pessoas.

Minha formação na área passou pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo, onde tive a oportunidade de conviver com as maiores autoridades da cardiologia nacional. Isso foi fundamental para consolidar minha visão sobre a especialidade.

Ao longo da prática clínica, passei a valorizar cada vez mais a prevenção. Muitas doenças cardiovasculares evoluem silenciosamente durante anos antes de se manifestarem de forma grave.

Por isso, acredito em uma Cardiologia que não esteja voltada apenas para tratar a doença já instalada, mas principalmente para identificar riscos precocemente e ajudar o paciente a construir uma vida mais longa e saudável.

Por que o infarto ainda está entre as principais causas de morte

Hoje temos recursos extraordinários para diagnosticar e tratar o infarto. O problema é que ainda chegamos tarde em muitos casos.

O infarto geralmente é consequência de um processo que se desenvolve durante anos: a aterosclerose, caracterizada pelo acúmulo de placas nas artérias. Hipertensão, colesterol elevado, diabetes, tabagismo, obesidade e sedentarismo, entre outros fatores, contribuem para sua progressão.

Além disso, muitas dessas condições não provocam sintomas nas fases iniciais. A pessoa pode ter pressão alta, colesterol elevado ou diabetes e se sentir perfeitamente bem. Isso cria uma falsa sensação de segurança.

Portanto, apesar dos avanços no tratamento, ainda precisamos avançar muito na prevenção, no controle dos fatores de risco e no reconhecimento precoce dos sintomas.

Principais fatores de risco para o infarto

Entre os principais fatores estão hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes, tabagismo, obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada e histórico familiar de doença cardiovascular precoce.

Dois fatores que considero particularmente subestimados são a hipertensão e o colesterol elevado, justamente porque frequentemente são silenciosos. É muito comum ouvir de um paciente: “Minha pressão está alta, mas eu não sinto nada” ou “Meu colesterol sempre foi alto”. O fato de não haver sintomas não significa que não exista risco.

Também precisamos olhar para o conjunto. Quando uma mesma pessoa acumula vários fatores de risco, o risco cardiovascular pode aumentar de maneira importante.

É por isso que a avaliação deve ser individualizada, e não baseada apenas em um número isolado de pressão, colesterol ou glicemia.

O infarto pode se manifestar de diferentes formas

A apresentação clássica é uma dor ou pressão intensa no peito, que pode irradiar para o braço, mandíbula ou costas e estar associada a suor frio, náuseas, falta de ar e mal-estar.

Mas nem todo infarto se apresenta dessa maneira. Algumas pessoas podem ter sintomas menos típicos, como falta de ar, desconforto na região do estômago, náuseas, fraqueza intensa ou apenas uma sensação súbita de mal-estar.

Isso merece atenção especialmente em idosos, mulheres e pessoas com diabetes, nas quais apresentações atípicas podem ocorrer.

Por isso, diante de um sintoma novo, intenso ou inexplicável, principalmente em alguém com fatores de risco cardiovascular, é importante considerar a possibilidade de um evento cardíaco e procurar avaliação rapidamente.

Sinais e sintomas que exigem atenção imediata

Dor, pressão, aperto ou queimação no peito, principalmente quando persistentes ou associados a esforço, devem ser valorizados. O mesmo vale quando o desconforto se espalha para braços, costas, pescoço ou mandíbula.

Falta de ar súbita, suor frio, náuseas, tontura, desmaio ou mal-estar intenso também podem acompanhar um infarto.

Um erro perigoso é tentar explicar esses sintomas por conta própria, atribuindo-os a ansiedade, gases, refluxo ou problema muscular antes de excluir uma causa cardíaca.

Na dúvida, especialmente diante de sintomas intensos ou persistentes, o mais seguro é procurar atendimento de urgência.

No infarto, tempo é músculo: quanto mais cedo conseguimos restabelecer o fluxo sanguíneo para o coração, maior a quantidade de músculo cardíaco que podemos preservar.

Como é conduzido o atendimento ao paciente com infarto

O atendimento precisa ser rápido e organizado. A avaliação inicial envolve história clínica, exame físico, eletrocardiograma e exames laboratoriais, principalmente a dosagem de troponina.

Quando identificamos um infarto causado pela obstrução aguda de uma artéria coronária e existe indicação de reperfusão imediata, o objetivo é restabelecer o fluxo sanguíneo o mais rapidamente possível, geralmente por meio do cateterismo cardíaco e da angioplastia coronariana. Em determinados cenários, outras estratégias podem ser necessárias.

O prognóstico depende de vários fatores, como a extensão do infarto, a artéria comprometida, a função do coração, a presença de arritmias ou outras complicações e as condições clínicas prévias do paciente.

Mas existe um fator sobre o qual podemos interferir diretamente: o tempo até o tratamento. Quanto menor o tempo entre o início dos sintomas e a reperfusão, maiores são as chances de preservar o músculo cardíaco e reduzir complicações.

O papel do acompanhamento cardiológico preventivo

A prevenção nos permite agir antes que o primeiro evento aconteça.

Durante uma avaliação cardiovascular, conseguimos identificar fatores de risco, estimar o risco global daquele paciente e definir estratégias individualizadas.

Isso pode envolver controle mais rigoroso da pressão arterial, redução do colesterol, tratamento do diabetes, interrupção do tabagismo, melhora da alimentação, atividade física regular e controle do peso.

Nem todo paciente precisa dos mesmos exames ou medicamentos. O grande valor do acompanhamento está justamente em entender quem está diante de nós, qual é o seu risco e o que realmente pode modificar sua trajetória cardiovascular.

Prevenir não significa fazer exames indiscriminadamente. Significa conhecer o risco e agir sobre ele de maneira adequada.

“Não espere sentir alguma coisa para começar a cuidar do coração”

Não espere sentir alguma coisa para começar a cuidar do coração.

Hipertensão, colesterol alto e diabetes podem permanecer silenciosos durante muitos anos, enquanto provocam alterações progressivas nas artérias. Em alguns pacientes, infelizmente, a primeira manifestação da doença cardiovascular pode ser justamente um infarto.

A boa notícia é que uma parcela importante desse risco pode ser modificada. Controlar a pressão, o colesterol e a glicemia, não fumar, praticar atividade física, manter uma alimentação equilibrada e acompanhar adequadamente o risco cardiovascular são atitudes que têm impacto real.

Meu principal recado é simples: prevenção não é procurar uma doença; é trabalhar para que ela não aconteça.