Sinais silenciosos de infarto: cardiologista explica como a doença se manifesta de forma diferente em mulheres
Dr. Rodrigo Batista da Silva explica quais sinais de infarto podem passar despercebidos nas mulheres e por que o atendimento rápido é fundamental.
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Quando pensamos em infarto, é comum imaginar uma dor forte e repentina no peito, acompanhada de suor frio e mal-estar. Essa é uma apresentação importante e bastante conhecida, mas não é a única. Em algumas pessoas, especialmente nas mulheres, o infarto pode se manifestar com sintomas menos óbvios, que acabam sendo confundidos com cansaço, ansiedade, problemas digestivos ou até mesmo estresse.
O infarto agudo do miocárdio ocorre quando o fluxo de sangue para uma região do coração é reduzido ou interrompido, provocando sofrimento e lesão do músculo cardíaco. Na maioria dos casos, isso acontece quando um coágulo se forma sobre uma placa de aterosclerose dentro de uma artéria coronária.
Quanto mais tempo o coração permanece com o fluxo sanguíneo comprometido, maior pode ser a extensão da lesão. Por isso, reconhecer precocemente os sintomas é fundamental.
Mulheres também sentem dor no peitoExiste uma ideia equivocada de que mulheres que sofrem um infarto geralmente não apresentam dor torácica. Na realidade, dor, pressão ou desconforto no peito continuam sendo manifestações frequentes tanto em homens quanto em mulheres.
O que merece atenção é que algumas mulheres podem apresentar outros sintomas associados ou manifestações menos características, dificultando o reconhecimento imediato de um problema cardíaco.
O desconforto, por exemplo, nem sempre é descrito como uma dor intensa. Algumas pacientes relatam sensação de pressão, aperto, peso, ardência ou queimação no tórax.
Também podem surgir dores ou desconfortos em outras regiões do corpo, como braços, costas, ombros, pescoço, mandíbula ou parte superior do abdome.
Sinais que podem passar despercebidosFalta de ar é um dos sintomas que merece atenção. Ela pode aparecer acompanhando o desconforto no peito ou, em algumas situações, ser uma das principais manifestações do problema.
Náuseas, vômitos, tontura e suor frio também podem ocorrer. O desafio é que sintomas desse tipo são facilmente associados a outras condições. Uma sensação de queimação ou desconforto na região do estômago, por exemplo, pode inicialmente ser interpretada como refluxo, gastrite ou má digestão.
Outro sinal relevante é um cansaço intenso e incomum. A mulher pode perceber dificuldade para realizar atividades que anteriormente fazia sem problemas, como caminhar pequenas distâncias, subir escadas ou executar tarefas domésticas.
Quando esse cansaço aparece de maneira súbita, é desproporcional ao esforço ou vem acompanhado de falta de ar, pressão no peito, suor frio ou mal-estar, merece maior atenção.
É importante destacar que apresentar um desses sintomas isoladamente não significa necessariamente estar sofrendo um infarto. O contexto clínico, a intensidade, a duração dos sintomas e os fatores de risco da paciente precisam ser considerados.
Sintomas menos típicos podem atrasar o diagnósticoUm dos maiores problemas das apresentações menos típicas é justamente o risco de subestimar os sintomas.
Uma mulher com náusea, cansaço e desconforto nas costas pode não pensar inicialmente em uma doença cardíaca. Da mesma maneira, falta de ar e sensação de aperto podem ser atribuídas à ansiedade ou ao estresse.
A paciente pode esperar o quadro passar ou utilizar medicamentos para problemas digestivos antes de procurar atendimento.
Essa demora pode ter consequências importantes. Existe uma expressão muito utilizada na cardiologia: “tempo é músculo”. Isso significa que, durante um infarto, cada minuto pode ser importante para preservar o músculo cardíaco e reduzir complicações.
Por esse motivo, sintomas novos, persistentes ou intensos, principalmente quando aparecem em conjunto ou durante esforço físico, não devem ser ignorados.
Fatores de risco específicos na saúde cardiovascular femininaOs principais fatores de risco cardiovascular são: hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade, sedentarismo e histórico familiar de doença cardiovascular.
Entretanto, a avaliação da saúde cardiovascular feminina também deve considerar situações específicas.
Complicações durante a gestação, como pré-eclâmpsia e hipertensão gestacional, estão relacionadas a maior risco cardiovascular no futuro. A menopausa também representa um momento importante para reforçar o acompanhamento da pressão arterial, colesterol, glicemia, peso corporal e hábitos de vida.
Além disso, determinadas doenças inflamatórias e autoimunes, mais prevalentes entre mulheres, também podem estar relacionadas ao aumento do risco cardiovascular.
Por isso, a prevenção não deve começar apenas quando surgem sintomas. Acompanhamento médico, prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, controle da pressão arterial, colesterol e diabetes e abandono do tabagismo continuam sendo pilares importantes para reduzir o risco de infarto.
Situações em que é necessário procurar atendimentoDor, pressão ou desconforto súbito no peito, principalmente quando acompanhados de falta de ar, suor frio, náusea, tontura ou dor irradiada para braços, mandíbula ou costas, precisam ser avaliados rapidamente.
Da mesma forma, falta de ar intensa e inexplicável, fraqueza importante ou mal-estar súbito não devem ser ignorados apenas porque não existe uma dor forte no peito.
Diante da suspeita de infarto, a avaliação em um serviço de urgência permite realizar rapidamente exames como eletrocardiograma e dosagem de troponina, além de definir a necessidade de outros métodos diagnósticos e do tratamento adequado.
A principal mensagem é que o infarto nem sempre se apresenta da maneira que imaginamos. Nas mulheres, conhecer manifestações menos evidentes pode contribuir para diminuir atrasos na procura por atendimento.
Reconhecer os sinais, conhecer os próprios fatores de risco e procurar avaliação rapidamente diante de sintomas suspeitos pode fazer diferença no tratamento, na recuperação e, principalmente, na preservação da vida.